Os registros de violência sexual contra crianças e adolescentes mais que quadruplicaram no Brasil em pouco mais de uma década, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgados nesta terça-feira (26) no Atlas da Violência 2026.
O levantamento aponta crescimento contínuo das notificações feitas ao sistema de saúde entre 2014 e 2024, com maior concentração de casos entre crianças de 5 a 14 anos. Os pesquisadores destacam que os números refletem apenas ocorrências registradas nos serviços de saúde e alertam para o elevado índice de subnotificação desse tipo de crime.
Entre crianças de 0 a 4 anos, o número de notificações passou de 1.671 em 2014 para 7.845 em 2024. O aumento proporcional superior a quatro vezes é apontado pelo estudo como um dos sinais mais graves do avanço da violência sexual em faixas etárias precoces.
Na faixa de 5 a 14 anos, que concentra o maior volume de vítimas, os registros saltaram de 6.594 para 29.135 no período analisado. Já entre adolescentes de 15 a 19 anos, os casos cresceram de 1.632 para 6.869 notificações em 11 anos.
Segundo o relatório, a curva de crescimento foi praticamente contínua até 2019, sofreu desaceleração em 2020 durante a pandemia de Covid-19 — cenário atribuído à queda nas notificações — e voltou a subir de forma acelerada a partir de 2021, atingindo os maiores índices da série histórica em 2024.
O Atlas mostra que aproximadamente dois terços dos casos registrados no ano passado envolveram vítimas de 5 a 14 anos. Crianças de até 4 anos representaram cerca de 18% das notificações, enquanto adolescentes entre 15 e 19 anos responderam por 16%.
Os pesquisadores associam o fenômeno ao acúmulo de diferentes formas de violência ao longo da infância. O estudo utiliza o conceito de “polyvictimization” para descrever situações em que crianças expostas à negligência e violência psicológica permanecem em ambientes de risco e acabam submetidas a novas agressões ao longo do desenvolvimento.
O ambiente doméstico aparece como principal local das agressões. Entre crianças de 0 a 4 anos, quase 80% dos episódios de violência registrados entre 2014 e 2024 tiveram autoria doméstica. Na faixa de 5 a 14 anos, esse percentual chegou a 56,2%.
O estudo foi produzido a partir de dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) e do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), ambos do Ministério da Saúde.
Além da violência sexual, o Atlas da Violência 2026 também aponta preocupação com o aumento da subnotificação de homicídios no país, apesar da queda registrada nos índices oficiais de violência letal.