O Nordeste vem se consolidando como a principal fronteira de expansão da agricultura orgânica no Brasil. Mesmo diante da primeira retração registrada no número de produtores certificados desde o início da série histórica, estados da região ampliaram sua participação no setor, impulsionados pela produção de algodão orgânico e pelo fortalecimento de sistemas coletivos de certificação.
Dados do Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos, analisados pelo Observatório do Brasil Orgânico, ligado ao Instituto Brasil Orgânico (IBO), mostram que o país encerrou 2026 com 23.728 unidades de produção registradas, ante 25.178 no ano anterior. A redução de 5,7%, equivalente à saída de 1.450 produtores do cadastro, representa a primeira queda da série histórica.
Especialistas, no entanto, afirmam que o recuo não indica enfraquecimento estrutural do segmento. Segundo o IBO, a diminuição foi concentrada em grandes grupos extrativistas do Pará e do Maranhão, vinculados a cadeias específicas de certificação coletiva. Juntos, os dois estados responderam pela redução de mais de 1.800 registros.
Enquanto o Norte registrou perdas expressivas, estados nordestinos avançaram na formalização da produção orgânica. A Paraíba liderou o crescimento, com a inclusão de 246 novas unidades produtivas, seguida pela Bahia, com 209 novos registros, Rio Grande do Norte, com 169, e Pernambuco, com 137.
Na Paraíba e no Rio Grande do Norte, a expansão foi impulsionada principalmente pelo cultivo do algodão orgânico. Já na Bahia, o crescimento esteve associado à diversificação das atividades agrícolas e à atuação da Rede Povos da Mata, considerada referência nacional em certificação participativa.
Apesar da mudança no eixo de expansão, a Região Sul segue concentrando o maior número absoluto de produtores orgânicos do país. O Paraná lidera o ranking nacional, com 4.292 unidades registradas, seguido pelo Rio Grande do Sul, com 3.158. A Bahia aparece na terceira posição, com 1.895 produtores cadastrados.
O levantamento também apontou uma mudança inédita no perfil das certificações adotadas pelo setor. Pela primeira vez, os Sistemas Participativos de Garantia (SPGs) superaram o modelo tradicional de auditoria privada. Em 2026, os sistemas participativos alcançaram 9.788 unidades produtivas, contra 8.855 registradas por meio da certificação convencional.
A mudança é interpretada como um sinal de fortalecimento de modelos territoriais e coletivos de organização dos agricultores, especialmente em regiões onde predominam pequenas propriedades e redes de cooperação.
Ao mesmo tempo, representantes do setor alertam para a redução dos investimentos públicos destinados ao fomento da produção orgânica. Segundo dados do IBO, os recursos voltados à atividade somam R$ 900 mil neste ano, abaixo dos R$ 7,5 milhões registrados em 2016.
O cenário revela uma reorganização da agricultura orgânica brasileira, com o Nordeste ganhando protagonismo em meio a desafios relacionados ao financiamento e à ampliação das políticas de incentivo ao setor.