Medo de confisco leva russos a retirar bilhões dos bancos

Saques chegam a R$ 17,6 bilhões em apenas 15 dias de agosto

A população da Rússia retirou 286,4 bilhões de rublos, o equivalente a cerca de R$ 17,6 bilhões, dos bancos na primeira quinzena de agosto. O movimento ocorre em meio ao temor de parte dos russos de que o governo de Vladimir Putin possa recorrer aos depósitos bancários para financiar os custos da guerra contra a Ucrânia.

Foto: Victor Berzkin/AP/picture alliance

Os dados do Banco Central da Rússia foram citados nesta semana pelo jornal americano The Washington Post. O volume retirado apenas nos primeiros 15 dias de agosto supera os saques registrados em períodos anteriores e ocorre após a retirada de outros 643 bilhões de rublos, cerca de R$ 39,5 bilhões, em julho.

Desde o início do ano, segundo o Banco Central russo, aproximadamente 2,4 trilhões de rublos, equivalentes a R$ 147,5 bilhões, foram transformados de depósitos bancários em dinheiro em espécie.

Entre as instituições afetadas está o Alfa-Bank, maior banco privado da Rússia, que registrou a retirada de 179,4 bilhões de rublos em depósitos de clientes de varejo, correspondente a 5,6% do total mantido por esse grupo de correntistas. No Sovcombank, terceiro maior banco privado do país, os saques representaram 8,1% dos depósitos, ou 81,7 bilhões de rublos.

O movimento também é acompanhado por autoridades do setor bancário. Taras Skvortsov, executivo do Sberbank, maior banco estatal russo, afirmou que o volume de retiradas ao longo deste ano poderá se aproximar do dobro do registrado em 2022, primeiro ano da invasão em larga escala da Ucrânia. Naquele período, os russos retiraram cerca de 2 trilhões de rublos diante de outro período de preocupação com possíveis medidas de confisco.

O receio ocorre em um cenário de forte pressão sobre as contas públicas russas. A guerra impõe custos elevados ao governo, enquanto Moscou precisa manter recursos destinados às operações militares e lidar com medidas para conter a inflação e preservar a atividade econômica.

Segundo o Instituto Internacional de Estudos de Paz de Estocolmo, os gastos do orçamento federal russo destinados à guerra e a outras despesas militares chegaram a aproximadamente 16 trilhões de rublos em 2025, valor equivalente a cerca de R$ 980 bilhões e a 7,5% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

A pressão sobre as finanças públicas também aparece no resultado fiscal. De acordo com dados divulgados pelo mesmo instituto, o déficit orçamentário russo chegou a 2,6% do PIB ao final de 2025.

Outro ponto de preocupação é a redução das reservas financeiras. Um estudo publicado em junho pelo Instituto Kiel para a Economia Mundial, da Alemanha, em parceria com o Instituto de Estocolmo para Economias de Transição, da Suécia, apontou que os ativos líquidos do fundo soberano russo haviam caído de 6,5% do PIB no início da guerra para 1,8% em abril.

Para os pesquisadores, a economia russa apresentou capacidade de resistência nos primeiros anos do conflito, mas passou a enfrentar limitações maiores diante da utilização das reservas e da continuidade dos gastos militares.

O desempenho econômico também preocupa. O crescimento perdeu força, enquanto a dependência comercial e financeira da China ganhou espaço. As receitas russas provenientes de petróleo e gás, uma das principais fontes de recursos do governo, também registraram queda no período analisado.

A economia russa ainda sofre os efeitos dos ataques de drones realizados pela Ucrânia contra alvos em diferentes regiões do país. Além de instalações ligadas à infraestrutura energética e militar, ataques atingiram depósitos e centros de distribuição de empresas, provocando perdas materiais e afetando diretamente atividades comerciais.

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