A produção de “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, foi alvo de denúncias de condições precárias de trabalho meses antes da revelação de um suposto aporte de R$ 61 milhões ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro. Relatório do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões de São Paulo (SATED/SP) aponta reclamações de alimentação inadequada, atrasos de pagamento, contratação informal e revistas consideradas abusivas durante as gravações em São Paulo.
O documento, obtido pelo g1, reúne 15 denúncias formais registradas por figurantes e técnicos que participaram das filmagens em 2025. Segundo os relatos, profissionais brasileiros recebiam tratamento inferior ao elenco estrangeiro, com alimentação limitada a kits de lanche durante jornadas superiores a oito horas.
Entre as reclamações também estão episódios de comida estragada, cachês abaixo do praticado no mercado, pagamentos sem emissão de nota fiscal e cobranças de transporte para acesso às locações. Trabalhadores relataram ainda casos de assédio moral e até agressão física dentro do set de gravação.
As denúncias incluem abordagens consideradas invasivas por parte da equipe de segurança. Figurantes afirmaram ter sido submetidos a revistas com toques em partes íntimas e nos seios antes de entrarem nas áreas de filmagem.
O sindicato também questiona a contratação de profissionais estrangeiros sem o recolhimento de taxas previstas na legislação do setor audiovisual e sem envio de contratos às entidades sindicais responsáveis pela emissão de vistos de trabalho.
A repercussão do caso ganhou força após a divulgação de mensagens e áudios atribuídos ao senador Flávio Bolsonaro e ao empresário Daniel Vorcaro sobre o financiamento do longa. Reportagem do Intercept Brasil aponta que Vorcaro teria destinado R$ 61 milhões ao projeto entre fevereiro e maio de 2025.
Nos diálogos revelados, Flávio demonstra preocupação com atrasos financeiros da produção e afirma que a equipe estaria “no limite”. O senador admite ter buscado investimento privado para o filme, mas nega irregularidades.
A produtora GOUP Entertainment afirmou que não recebeu recursos diretamente de Vorcaro, do Banco Master ou de empresas ligadas ao empresário. A empresa também declarou repudiar associações entre a produção cinematográfica e investigações externas sem comprovação documental.
O orçamento atribuído a “Dark Horse” chamou atenção no mercado audiovisual por superar produções brasileiras recentes de grande repercussão internacional. Segundo dados da Ancine, o filme “O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura, teve custo estimado em R$ 28 milhões — menos da metade do valor associado ao longa sobre Bolsonaro.