Só dois ex-prefeitos do Piauí seguem presos por corrupção nos últimos 10 anos

Levantamento mostra que, entre dezenas de gestores alvos de operações de grande repercussão desde 2016, apenas Gilmar Francisco de Deus e Felipe Santolia permanecem na prisão

As operações policiais contra prefeitos no Piauí marcaram a última década com cenas de grande repercussão: helicópteros, dezenas de mandados de busca e prisão, agentes federais e estaduais cumprindo ordens judiciais e manchetes que ganharam destaque nacional. Nomes como Déspota, Bacuri, Geleira e Topique passaram a simbolizar o combate à corrupção envolvendo gestores municipais.

Foto: Reprodução

Entretanto, passados dez anos desde o início desse ciclo de grandes operações, um levantamento revela um cenário bastante distinto daquele visto no momento das prisões. Entre todos os prefeitos e ex-prefeitos presos em investigações de corrupção desde 2016, apenas dois permanecem atrás das grades: Gilmar Francisco de Deus, ex-prefeito de Aroeiras do Itaim, e Antônio Felipe Santolia Rodrigues, ex-prefeito de Esperantina. Ambos cumprem pena por condenações definitivas, após o encerramento de todas as possibilidades de recurso.

Gilmar Francisco de Deus acumula mais de 21 anos de condenação

Primeiro prefeito da história de Aroeiras do Itaim, município localizado no sul do Piauí, Gilmar Francisco de Deus governou a cidade entre 2004 e 2012 e permaneceu como uma das principais lideranças políticas da região mesmo após deixar o cargo.

As condenações contra o ex-prefeito decorreram de diversos processos relacionados à sua gestão, envolvendo crimes como fraude em licitações, peculato, estelionato, falsidade ideológica e crimes de responsabilidade. As penas foram unificadas pela Vara de Execuções Penais da Comarca de Picos, alcançando atualmente 21 anos de reclusão.

Em dezembro de 2025, a Justiça negou um pedido de indulto natalino apresentado pela defesa. Na mesma decisão, foi registrada uma nova condenação de 7 anos, 9 meses e 18 dias, que ainda será incorporada ao cálculo das penas, aumentando o tempo total de prisão e adiando benefícios como progressão de regime, livramento condicional e eventual indulto.

Felipe Santolia foi capturado após viver como foragido

O segundo caso é o do ex-prefeito de Esperantina, Antônio Felipe Santolia Rodrigues. Após ser condenado por desvios de recursos públicos durante sua administração, Santolia permaneceu foragido por mais de dois anos. Nesse período, viveu no litoral norte de São Paulo utilizando uma identidade falsa e se apresentando como “Xico Namastê”, até ser localizado e preso em junho de 2021, no município de Caraguatatuba.

Contra ele existem duas condenações definitivas.

A primeira impôs pena de 12 anos e 3 meses de prisão pelo desvio de recursos previdenciários descontados dos servidores da Secretaria Municipal de Saúde entre 2005 e 2008.

A segunda estabeleceu 10 anos de reclusão por fraude na prestação de contas de 2007, mediante utilização de notas fiscais falsas. Como essa condenação transitou em julgado, ela continua sustentando sua permanência no sistema prisional, mesmo após a progressão para o regime semiaberto obtida em outro processo no início de 2026. Atualmente, Santolia permanece custodiado na Penitenciária de Tremembé, em São Paulo.

Prisões que tiveram grande repercussão terminaram em liberdade

O levantamento também mostra que diversas operações que ganharam repercussão estadual e nacional não resultaram na manutenção da prisão dos investigados.

Delano Parente

Em julho de 2016, a Operação Déspota levou à prisão do então prefeito de Redenção do Gurguéia, Delano Parente, além de seu pai, então secretário municipal de Infraestrutura.

As investigações apontavam um esquema envolvendo fraudes em licitações, empresas fantasmas, superfaturamento e emissão de notas fiscais frias, com prejuízo estimado em cerca de R$ 17 milhões aos cofres públicos. Apesar da gravidade das acusações, Delano foi posteriormente colocado em liberdade e, segundo o levantamento, não há condenação criminal definitiva equivalente às dos dois ex-prefeitos que permanecem presos.  

Luciano Fonseca

Em dezembro de 2019, a Operação Bacuri prendeu preventivamente o então prefeito de Bertolínia, Luciano Fonseca, juntamente com familiares.

As investigações apontavam supostos desvios de aproximadamente R$ 3,2 milhões, utilização de empresas fantasmas e até o uso de uma ambulância da prefeitura para quitar dívidas particulares.

Menos de um mês depois, Luciano obteve liberdade por decisão do então presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli, permanecendo apenas afastado do cargo até o fim do mandato.  

José Jeconias Soares de Araújo

Também alvo da Operação Bacuri, o ex-prefeito de Sebastião Leal foi preso sob acusações de corrupção ativa, lavagem de dinheiro, organização criminosa e desvio de recursos públicos.

Posteriormente, também deixou a prisão após concessão de habeas corpus pelo Supremo Tribunal Federal.  

O que diferencia os dois casos

Segundo o levantamento, o principal fator que distingue Gilmar Francisco de Deus e Felipe Santolia dos demais ex-prefeitos presos em operações policiais é a existência de condenações criminais definitivas, já transitadas em julgado.

Enquanto a prisão preventiva decretada durante grandes operações costuma ser revista pelos tribunais ao longo da investigação e da instrução processual, a execução da pena ocorre após o encerramento dos recursos cabíveis.

É justamente essa condição que explica por que, apesar das inúmeras operações policiais realizadas no Piauí nos últimos dez anos, apenas dois ex-prefeitos continuam efetivamente presos por corrupção.

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