Análise política das eleições 2026, com Márcio Felipe

Datafolha mostra Lula à frente, mas Flávio mantém disputa competitiva

A nova pesquisa Datafolha, divulgada ontem, 21 de agosto, coloca Lula (PT) na liderança da corrida presidencial de 2026, com 39% das intenções de voto no primeiro turno. Flávio Bolsonaro (PL) aparece logo atrás, com 33%. Ronaldo Caiado (PSD) tem 5%, Renan Santos (Missão), 4%, e Romeu Zema (Novo), 3%. O levantamento ouviu 2.058 eleitores em 128 municípios, entre 18 e 20 de agosto, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. 

Foto: Imagem gerada por IA

O dado mais importante talvez esteja na distância entre os dois principais candidatos. Lula e Flávio estão separados por seis pontos no primeiro turno. Na pesquisa anterior do Datafolha, eram oito pontos: Lula tinha 40% e Flávio, 32%. Houve, portanto, redução da diferença, mas a variação individual dos candidatos está dentro da margem de erro. Estatisticamente, ainda é cedo para transformar essa movimentação em uma tendência consolidada. 

No segundo turno, Lula aparece com 47%, contra 43% de Flávio. A diferença é de quatro pontos. Em julho, o resultado era de 48% para Lula e 43% para Flávio. Mais uma vez, existe uma alteração numérica, mas ela precisa ser observada em série, e não como um resultado isolado. 

É aqui que a análise política precisa se afastar um pouco da disputa das redes sociais.

A internet pode produzir a sensação de que determinado candidato domina o cenário. Um vídeo viral, milhares de comentários ou uma grande mobilização de apoiadores podem transmitir uma impressão de força eleitoral. Mas redes sociais não constituem uma amostra representativa da população brasileira. O conteúdo entregue a cada usuário é influenciado por seus próprios interesses, comportamentos e pelos sistemas de recomendação das plataformas.

Isso não significa que a força digital seja irrelevante. Pelo contrário. Ela pode revelar capacidade de mobilização, organização militante e alcance de uma mensagem. O problema aparece quando esse desempenho é transformado automaticamente em percentual de votos.

A pesquisa mostra uma realidade mais complexa.

Flávio tem uma base eleitoral expressiva e aparece como o principal adversário de Lula. Os demais candidatos testados no primeiro turno estão abaixo de 5%. Isso cria uma diferença estratégica importante: mesmo que Flávio ainda esteja atrás, ele está em uma posição muito diferente da de Caiado, Zema e Renan Santos. 

Mas existe um obstáculo considerável para os dois principais candidatos: a rejeição.

Segundo o levantamento, 46% dizem que não votariam em Flávio de jeito nenhum, enquanto 45% rejeitam Lula. Os índices são praticamente equivalentes. 

Do ponto de vista do marketing político, esse é um dos números mais importantes da pesquisa. Uma candidatura não precisa apenas conquistar votos; precisa também encontrar espaço para ampliar sua base. Uma rejeição próxima da metade do eleitorado limita esse movimento.

A disputa também apresenta forte componente de voto negativo. Três em cada dez entrevistados afirmam escolher determinado candidato principalmente para impedir que outro seja eleito. Entre os eleitores de Flávio, o percentual chega a 35%; entre os de Lula, 23%.

Isso ajuda a explicar por que uma eleição polarizada pode permanecer competitiva mesmo quando um candidato apresenta vantagem nas intenções de voto. O eleitor pode não estar apenas escolhendo alguém. Pode estar tentando impedir a vitória de outro.

Outro ponto relevante está nos eleitores que ainda admitem mudança de voto. O levantamento aponta que 27% dizem que podem mudar de escolha. É um contingente significativo para uma campanha presidencial. 

Para as campanhas, portanto, a questão não é apenas preservar os eleitores já conquistados. É encontrar os segmentos em que existe menor resistência e maior possibilidade de conversão.

Os recortes sociais ajudam a compreender isso. Lula apresenta vantagem entre mulheres, eleitores de menor renda, pretos e católicos. Flávio lidera entre evangélicos e entre eleitores com renda familiar acima de dois salários mínimos. 

Essas diferenças mostram que não existe um eleitorado homogêneo. Cada candidatura possui pontos de força e de vulnerabilidade.

Caiado e Zema também apresentam um dado que merece ser compreendido corretamente. No primeiro turno, Caiado aparece com 5% e Zema com 3%. Mas, nas simulações de segundo turno contra Lula, Caiado chega a 40% e Zema a 38%. 

Isso não significa que estejam próximos de chegar ao segundo turno. O que a pesquisa demonstra é outra coisa: quando a quantidade de opções diminui para apenas dois candidatos, eles conseguem incorporar votos que não aparecem no primeiro turno.

Primeiro turno e segundo turno, portanto, não podem ser lidos como se fossem a mesma pergunta.

Também é preciso considerar o momento do levantamento. As entrevistas ocorreram entre 18 e 20 de agosto, apenas alguns dias depois do início oficial da campanha, em 16 de agosto. A propaganda eleitoral no rádio e na televisão começa em 28 de agosto. 

Isso limita qualquer tentativa de fazer uma previsão definitiva neste momento.

Há ainda um dado sobre o governo Lula que merece atenção. A avaliação negativa da administração passou de 38% para 41%, enquanto a avaliação positiva oscilou de 32% para 33%. A desaprovação do desempenho pessoal do presidente chegou a 50%, contra 48% de aprovação. A mudança na avaliação do governo está dentro da margem de erro, portanto não deve ser tratada isoladamente como uma deterioração estatisticamente comprovada. Ainda assim, é um indicador relevante para a campanha petista. 

A leitura geral da pesquisa é relativamente objetiva.

Lula continua liderando. Flávio Bolsonaro aparece consolidado como seu principal adversário e mantém uma distância que permite uma disputa competitiva. Ao mesmo tempo, os dois carregam rejeições muito altas e semelhantes.

Para Lula, o desafio é preservar a liderança e ampliar sua capacidade de chegar ao eleitor que hoje rejeita seu governo ou ainda não está decidido.

Para Flávio, o desafio é transformar a proximidade com Lula em crescimento efetivo, sem ampliar ainda mais sua rejeição e sem ficar restrito ao eleitorado que já se identifica com o bolsonarismo.

Para Caiado, Zema e os demais candidatos, o problema é ainda maior: precisam primeiro aumentar sua presença no primeiro turno para se tornarem alternativas reais à polarização entre Lula e Flávio.

Por enquanto, os números não sustentam nem a tese de uma eleição decidida nem a de uma virada já consolidada.

O que o Datafolha apresenta é uma eleição com dois nomes claramente à frente, uma diferença ainda administrável entre os principais concorrentes e um eleitorado que conserva espaço para mudança. O comportamento das próximas pesquisas será fundamental para saber se a redução da distância entre Lula e Flávio representa apenas oscilação ou o início de uma tendência.

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