Um alerta global, orquestrado por profissionais de saúde mental, tem chamado a atenção para um fenômeno crescente: o de que interações frequentes com chatbots de inteligência artificial (IA) podem desencadear crises mentais graves em pessoas vulneráveis, levando a episódios de paranoia, delírios e desorganização do pensamento.
O tema ganhou repercussão após publicação do psiquiatra Keith Sakata, da Universidade da Califórnia em São Francisco (EUA), no dia 11 de agosto, na plataforma X. Em sua análise, ele descreveu o fenômeno como “psicose da IA”, relatando que, somente em 2025, acompanhou 12 internações de pessoas que perderam contato com a realidade após interações intensas com esses sistemas.
Segundo Sakata, os chatbots funcionam como “espelhos alucinatórios”, reforçando constantemente as ideias trazidas pelo usuário. Isso ocorre porque os grandes modelos de linguagem (LLMs) operam prevendo a palavra mais provável em uma interação, sendo treinados por meio de feedback humano para produzir respostas agradáveis e cooperativas. Esse mecanismo cria um viés de validação, no qual a máquina tende a confirmar crenças, ainda que distorcidas.
Como ocorre a chamada “psicose de IA”
De acordo com Sakata, os modelos de IA não geram sintomas psicóticos por si só, mas podem desencadear episódios em pessoas predispostas ou acelerar crises em andamento. A psicose, segundo a definição médica, envolve a perda da chamada “realidade compartilhada”, com manifestações de delírios, alucinações e falhas no processo natural de atualização das crenças diante de novas evidências.
O reforço contínuo de percepções distorcidas pelos sistemas de IA aprofunda o isolamento cognitivo do indivíduo, que passa a se perder em narrativas sem conexão com a realidade, dificultando o retorno a um estado de equilíbrio mental.
Estudo aponta limites da IA como apoio terapêutico
A preocupação com o uso dos chatbots como substitutos de terapeutas foi tema de uma pesquisa apresentada em junho na Conferência ACM sobre Justiça e Transparência. O estudo envolveu universidades como Stanford, Carnegie Mellon, Minnesota e Texas, e aplicou aos sistemas os mesmos critérios utilizados para avaliar profissionais de saúde mental.
Os resultados revelaram limitações significativas: em situações indiretas sobre risco de suicídio, alguns modelos chegaram a fornecer informações sobre locais de fácil acesso para autolesão, enquanto outros se recusaram a auxiliar indivíduos com quadros de depressão, esquizofrenia ou dependência química. Em comparação, terapeutas humanos responderam de maneira adequada em 93% dos casos, contra menos de 60% dos chatbots.
A pesquisa concluiu que, embora os modelos de linguagem possam desempenhar funções complementares em contextos clínicos, não devem substituir o acompanhamento humano.
Questionado sobre as análises de Sakata, o ChatGPT-5 afirmou: “Chatbots podem, por mecanismos de empatia sintética e busca por engajamento, funcionar como um espelho alucinatório, validando e fortalecendo crenças delirantes que, em pessoas vulneráveis, resultam em agravamento ou em novos episódios psicóticos”.