Quando as redes sociais viram consultório de saúde mental?

Especialistas alertam para os riscos do autodiagnóstico e reforçam a importância da avaliação profissional

Um vídeo de poucos segundos pode ser suficiente para fazer alguém questionar a própria saúde mental. Nas redes sociais, conteúdos que apresentam supostos sinais de TDAH, autismo, ansiedade, depressão e outros transtornos circulam diariamente e alcançam milhares de pessoas. Ao reconhecer características próprias nas publicações, alguns usuários passam a acreditar que possuem determinada condição, mesmo sem terem passado por uma avaliação profissional.

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O fenômeno acompanha o aumento do interesse por informações sobre saúde mental na internet. Dados do Google Trends divulgados em 2024 mostraram que as buscas pelo termo “TDAH” no Brasil cresceram 576% em comparação com cinco anos antes. Entre os assuntos relacionados às pesquisas estavam termos como “teste TDAH”, além de informações sobre terapia e classificação diagnóstica.

O aumento das buscas, porém, não significa necessariamente que a quantidade de pessoas com TDAH tenha crescido na mesma proporção. O Google Trends mede o interesse relativo dos usuários por determinado termo, e não o número de diagnósticos ou de pessoas que possuem um transtorno.

Quando a identificação vira diagnóstico

Para a psicóloga Yasmin Ribeiro Branco, a facilidade de acesso às informações ajuda a explicar por que tantas pessoas recorrem às redes sociais para tentar compreender o próprio comportamento.

“Porque vivemos em uma época onde tudo se volta para as redes sociais. Muitas vezes é mais fácil e acessível buscar informações sobre a saúde mental nas plataformas, como TikTok e Instagram , do que procurar ajuda com um profissional”, explica.

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Yasmin Ribeiro Branco, psicóloga

O formato dos conteúdos também favorece a identificação. Vídeos curtos, com listas de características e frases como “sinais de que você tem...” ou “como saber se você é...”, apresentam informações de maneira rápida e simples, despertando a curiosidade do usuário.

Segundo Yasmin, quando uma pessoa reconhece alguns dos comportamentos apresentados, pode concluir imediatamente que possui o transtorno abordado.

“Quando o vídeo é objetivo, daqueles que apresentam vários sinais, e a pessoa percebe que possui alguns deles, ela pensa imediatamente: ‘eu tenho isso!’”, afirma.

O psiquiatra Napoleão Azevedo explica que a identificação com sintomas encontrados na internet não é suficiente para estabelecer um diagnóstico. Segundo ele, a avaliação médica não funciona como uma lista de características que precisam ser marcadas pelo paciente.

“Na psiquiatria, a gente não pode lidar simplesmente com uma espécie de checklist de sintomas. Nós temos que ter todo um cuidado na hora de fechar um diagnóstico, porque se fosse algo tão simples, ninguém precisaria ir ao médico”, afirma.

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Napoleão Azevedo, médico psiquiatra

De acordo com o especialista, diferentes condições podem apresentar características semelhantes, e alguns sintomas associados à saúde mental também podem estar relacionados a problemas de saúde física. Alterações na tireoide, doenças reumáticas, problemas renais e hepáticos, por exemplo, podem interferir em funções mentais e precisam ser consideradas durante a investigação.

“Uma pessoa pode apresentar características de um diagnóstico, mas que pode ser também melhor explicado por um outro diagnóstico. E isso, aquela pessoa que está vendo o vídeo não vai saber”, explica.

O que existe por trás de um diagnóstico

Ao contrário de um vídeo de poucos segundos, uma avaliação psiquiátrica considera diferentes aspectos da vida do paciente.

Segundo Napoleão, o profissional precisa investigar informações sobre a história de vida, características pessoais, ambiente em que a pessoa está inserida, formas de lidar com conflitos e a evolução dos sintomas. Também é necessário diferenciar características presentes desde a infância ou durante toda a vida daquelas que surgiram recentemente.

“A avaliação psiquiátrica envolve desde a coleta da identificação, a pegar pontos da história, quais são as características que a pessoa está citando que são mais recentes, quais são da vida toda, quais têm ali uma maior influência do ambiente”, explica.

Dependendo do caso, a investigação pode envolver outros profissionais e exames antes de uma conclusão. O psiquiatra ressalta que o diagnóstico não é estabelecido em poucos minutos.

“Isso exige às vezes até horas ou alguns outros encontros, consultas ou até outros tipos de investigação com outros profissionais, outros tipos de exame. [...] Isso exige uma investigação bem ampla, que não se faz em cinco ou dez minutos de conversa”, afirma.

O algoritmo e a bolha do diagnóstico

A maneira como as plataformas distribuem conteúdo também pode contribuir para que uma pessoa permaneça em contato constante com informações sobre determinado transtorno.

Quanto mais um usuário assiste, curte, comenta ou pesquisa sobre um assunto, maior tende a ser a presença de conteúdos semelhantes em seu ambiente digital. Assim, uma pessoa que começa a consumir vídeos sobre TDAH, por exemplo, pode passar a receber cada vez mais publicações relacionadas ao transtorno.

Para Yasmin, esse mecanismo pode criar uma espécie de bolha em torno de determinado diagnóstico.

“O algoritmo entende que, quanto mais alguém curte vídeos sobre TDAH, mais ela gostaria de ver, fazendo assim com que o indivíduo fique em uma bolha voltada só a essas informações”, explica.

O consumo repetido também pode modificar a maneira como a pessoa observa a própria rotina. Com a atenção direcionada aos sintomas apresentados nas publicações, comportamentos que antes pareciam comuns podem começar a ser interpretados como sinais de um transtorno.

“Ela começa a prestar mais atenção nos seus comportamentos e características, que antes ela nem reparava”, afirma Yasmin.

Nem toda informação na internet é confiável

O problema ganha outra dimensão quando se observa a qualidade do conteúdo disponível nas redes sociais.

Uma revisão sistemática publicada em março de 2026 no Journal of Social Media Research reuniu 27 estudos que analisaram mais de 5 mil publicações sobre saúde mental e neurodivergência em diferentes plataformas. A prevalência de desinformação encontrada nos estudos variou de 0% a 56,9%. A revisão também apontou índices maiores de informações incorretas no TikTok do que no YouTube e uma prevalência maior de desinformação em conteúdos sobre neurodivergência do que em materiais sobre saúde mental em geral.

Entre os estudos incluídos na revisão, conteúdos sobre TDAH no TikTok apresentaram 52% de informações consideradas incorretas, enquanto publicações sobre autismo chegaram a 41%. A média de prevalência de desinformação encontrada nos estudos sobre saúde mental e neurodivergência no TikTok foi de 34,56%.

Os autores destacam que a qualidade e a confiabilidade dos conteúdos variam bastante e que materiais produzidos por profissionais tendem a apresentar maior qualidade. O estudo também aponta a necessidade de ampliar a produção de conteúdo baseado em evidências e fortalecer mecanismos de moderação nas plataformas.

O risco de assumir um diagnóstico

Para Napoleão, o principal problema do autodiagnóstico está nas consequências que podem surgir quando uma pessoa passa a agir a partir de uma conclusão equivocada.

“O risco do autodiagnóstico é exatamente resultados ruins. Se eu não fiz um adequado, por que eu vou esperar um resultado apropriado?", afirma.

Segundo o psiquiatra, diferentes transtornos e condições podem exigir abordagens distintas. Um diagnóstico inadequado pode levar a pessoa a buscar tratamentos que não são apropriados para o problema que realmente apresenta ou até atrasar a investigação necessária.

“Quando vem um autodiagnóstico, a pessoa está se enganando, quando ela está atrasando ali uma resposta, fora o risco dela se submeter a tratamentos, a mudanças de comportamento que vão trazer malefícios para ela”, explica.

O especialista também relata que é cada vez mais comum receber pacientes que chegam ao consultório com uma hipótese diagnóstica formada a partir de informações encontradas na internet. Para ele, a situação pode ser positiva quando a suspeita serve como ponto de partida para buscar uma avaliação profissional.

“Pessoas chegando já com sua hipótese diagnóstica é algo hoje bastante comum. Eu não vejo como um grande problema, contanto que a pessoa saiba que fez apenas uma leitura baseada em um vídeo, mas que está em busca de uma avaliação profissional", explica.

Quando a internet ajuda a procurar tratamento

Apesar dos riscos relacionados à desinformação e ao autodiagnóstico, o psiquiatra afirma que não considera as redes sociais apenas prejudiciais.

“A popularização pode tanto ajudar como atrapalhar. Eu entendo que ela mais ajuda, eu entendo que ela mais desperta as pessoas a procurarem o profissional”, afirma.

A visão também é compartilhada pela psicóloga Yasmin, que considera que os conteúdos podem contribuir para que uma pessoa reconheça que está enfrentando algum tipo de sofrimento.

O problema, portanto, não está necessariamente em pesquisar sobre saúde mental, mas em transformar uma informação encontrada na internet em uma conclusão definitiva sobre si mesmo.

Entre a informação e a identidade

Para Yasmin, um dos principais riscos ocorre quando a pessoa passa a interpretar diferentes aspectos da própria vida a partir de um diagnóstico que nunca foi confirmado.

“Em vez de pensar ‘eu estou passando por isso’, ela pode começar a pensar ‘eu sou assim porque tenho esse transtorno’”, afirma.

Napoleão também chama atenção para o risco de transformar características pessoais em doenças. Segundo o psiquiatra, a própria psiquiatria precisa ter cuidado para não patologizar comportamentos que fazem parte da diversidade humana.

“Não é qualquer coisa que eu sou diferente que necessariamente você tem que ter uma condição psiquiátrica”, afirma.

Como exemplo, ele cita a timidez. Uma pessoa que apresenta dificuldades de socialização pode chegar ao consultório acreditando que é autista por ter se identificado com conteúdos vistos na internet, quando a avaliação pode indicar outra explicação ou mesmo não apontar a presença de um transtorno.

“A gente tem que ter muito cuidado para não sair patologizando tudo. É nosso papel também tirar a ideia de doença de muitas pessoas. Isso chega até ser paradoxal, porque ninguém quer estar doente", conclui.

O psiquiatra afirma ainda que algumas pessoas podem buscar um diagnóstico como forma de encontrar uma explicação para dificuldades, erros ou características pessoais. Nesses casos, receber um nome para aquilo que vivenciam pode parecer uma maneira de compreender a própria experiência.

Redes sociais podem informar, mas não diagnosticar

O crescimento do interesse por conteúdos de saúde mental mostra que as redes sociais passaram a ocupar um espaço importante na busca por informação. Ao mesmo tempo, a quantidade e a qualidade desigual das publicações tornam necessário um olhar crítico sobre aquilo que aparece no feed.

A identificação com um conteúdo pode ser o primeiro passo para alguém perceber que precisa de ajuda, mas o diagnóstico exige uma investigação que considere a história, o contexto e as características individuais de cada pessoa.

Como resume o psiquiatra Napoleão Azevedo, existe um caminho entre reconhecer uma característica em si mesmo e estabelecer um diagnóstico. Dependendo do caso, essa investigação pode envolver psiquiatras, psicólogos, neurologistas, fonoaudiólogos, neuropsicólogos e outros profissionais.

Por isso, diante de um conteúdo que parece descrever exatamente aquilo que uma pessoa sente ou vivencia, a recomendação dos especialistas é utilizar a informação como ponto de partida para buscar conhecimento e, quando necessário, atendimento profissional, e não como uma conclusão definitiva sobre a própria saúde mental.

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