Comentário sobre a anástase de Cristo no domingo de Páscoa

Entre o túmulo vazio e a crise de sentido moderna, a ressurreição é um desafio à razão e à fé

Por José Ribas Neto,

O domingo de Páscoa não é uma alegoria piedosa nem um recurso simbólico para consolar consciências fatigadas. Ele se impõe como o núcleo duro da fé cristã, o ponto em que toda a arquitetura teológica se sustenta ou desmorona. São Paulo não tergiversa ao afirmar que “se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã a vossa fé” (1Cor 15,14). Não há aqui espaço para metáforas confortáveis. Ou a ressurreição é um acontecimento real, inscrito na história, ou o cristianismo não passa de um elaborado exercício de autoengano.

Foto: ReproduçãoPapa Leão em missa na celebração do domingo de Páscoa
Papa Leão em missa na celebração do domingo de Páscoa

A modernidade, com sua confiança quase litúrgica na razão instrumental, tentou resolver esse escândalo reduzindo-o a linguagem simbólica. A ressurreição teria sido apenas uma forma poética de dizer que a mensagem de Jesus “permanece viva”. Trata-se de uma operação intelectualmente conveniente, mas teologicamente fraudulenta. Os próprios textos neotestamentários resistem a essa diluição. O Evangelho de Lucas registra a perplexidade dos discípulos diante do túmulo vazio e a incredulidade inicial diante do anúncio: “Por que buscais entre os mortos aquele que vive? Ele não está aqui, mas ressuscitou” (Lc 24,5-6). Não se trata de memória afetiva. Trata-se de uma ruptura ontológica.

O cristianismo nasce precisamente dessa ruptura. O Deus que, segundo a tradição, cria ex nihilo, agora intervém na história de modo ainda mais perturbador: não apenas dá o ser, mas restaura a vida onde a morte parecia definitiva. A ressurreição não é um retorno à vida biológica, como no caso de Lázaro. É uma transfiguração da própria condição humana. Como escreve Paulo, Cristo é “as primícias dos que dormem” (1Cor 15,20), inaugurando uma nova ordem de existência.

É aqui que a Páscoa se revela profundamente apologética. Ela confronta duas tentações recorrentes. A primeira é o materialismo redutivo, que limita o real ao que pode ser quantificado. A segunda é o espiritualismo difuso, que transforma tudo em experiência subjetiva, dissolvendo o acontecimento histórico em sentimento religioso. A ressurreição escapa a ambas. Ela é, ao mesmo tempo, histórica e transcendente. Não é um mito fora do tempo, nem um fenômeno reproduzível em laboratório. É um evento singular que reconfigura a compreensão do real.

Os relatos evangélicos insistem em detalhes concretos. O corpo não está no sepulcro. As mulheres encontram o lugar vazio. Os discípulos tocam, veem, conversam. Tomé é convidado a verificar as chagas: “Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; estende a tua mão e põe-na no meu lado. Não sejas incrédulo, mas crê” (Jo 20,27). Ao mesmo tempo, esse corpo ressuscitado não se submete mais às limitações ordinárias. Ele atravessa portas fechadas, aparece e desaparece. Não se trata de uma simples reanimação, mas de uma realidade que ultrapassa as categorias usuais.

A reação inicial dos discípulos é reveladora. Não é credulidade ingênua, mas espanto e resistência. “Eles, porém, não acreditaram” (Mc 16,11). A fé pascal não nasce de uma predisposição psicológica, mas do confronto com algo que excede a expectativa. Esse dado é frequentemente negligenciado por leituras contemporâneas que projetam sobre o texto uma religiosidade já domesticada.

Do ponto de vista antropológico, a Páscoa responde à questão mais radical da existência humana: o destino da morte. O homem moderno pode prolongar a vida, sofisticar seus meios, anestesiar o sofrimento, mas não aboliu a finitude. A morte permanece como o limite absoluto, o ponto em que toda pretensão de autonomia se desfaz. A ressurreição de Cristo não elimina a experiência da morte, mas a desarma. “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1Cor 15,55). Não é uma negação da realidade, mas uma reinterpretação de seu sentido último.

Há também uma dimensão estética e existencial frequentemente esquecida. O cristianismo não propõe apenas um código moral, mas uma forma de habitar o mundo. A ressurreição introduz uma lógica de esperança que atravessa o sofrimento sem negá-lo. “Se com Ele morremos, com Ele viveremos” (2Tm 2,11). Essa estrutura paradoxal, morte e vida entrelaçadas, moldou séculos de arte, literatura e cultura. Não por acaso, a iconografia cristã insiste na luz que emerge da escuridão, na vida que brota do sacrifício.

O mundo contemporâneo, porém, prefere versões mais palatáveis. Celebra-se a Páscoa como renovação genérica, como convite à leveza, como estética de consumo. O túmulo vazio é substituído por vitrines cheias. A vitória sobre a morte é trocada por um feriado prolongado. Essa banalização não é neutra. Ela esvazia o núcleo do evento e o transforma em ornamento cultural.

Entretanto, a força da Páscoa reside justamente em sua resistência a essa domesticação. Ela permanece como um desafio intelectual e existencial. Se Cristo ressuscitou, então a história não está encerrada em si mesma. Há uma abertura, uma promessa, uma teleologia que escapa ao cálculo humano. Se não ressuscitou, então o cristianismo é, como reconhece o próprio Paulo, uma ilusão.

O domingo de Páscoa, portanto, não permite indiferença. Ele exige uma tomada de posição diante do real. Entre o túmulo fechado e o túmulo vazio, entre a resignação e a esperança, entre a repetição do ciclo e a irrupção do novo.

No fundo, permanece a pergunta que ecoa desde aquela manhã narrada pelos evangelhos: “Por que buscais entre os mortos aquele que vive?” (Lc 24,5). Não é apenas uma interrogação dirigida às mulheres no sepulcro. É uma interpelação permanente à inteligência e ao coração de cada época.

Fonte: Portal AZ

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