Quando a crítica atravessa a própria trincheira

Entre coerência, desconforto e independência de pensamento, a reflexão expõe os limites da obediência ideológica e reafirma o valor do questionamento

Por Márcio Felipe Rocha | Jornalista | Portal AZ,

Há uma pergunta que sempre aparece, às vezes dita em voz alta, outras em tom de ironia: “Mas como alguém de esquerda critica a própria esquerda?”. E talvez o problema comece justamente aí. Na ideia infantil de que pensar politicamente significa assinar um contrato de obediência e fazer parte de segregações ideologicamente burras e imbecilizadoras. Não assino. E nunca irei assinar.

Foto: Gerada por IAcapa marcio

Sempre tive lado nas discussões sociais. Isso nunca foi segredo. Venho de uma formação humana, intelectual, professoral e jornalística que me ensinaram a enxergar  para desigualdade, exclusão e concentração de poder com inquietação. Mas inquietação não é cegueira. Pelo contrário. Quem enxerga o mundo de verdade aprende, cedo, a desconfiar também da própria sombra.

Existe uma diferença enorme entre convicção e submissão. A primeira produz reflexão. A segunda produz silêncio.

E o silêncio, na política, costuma ser o lugar preferido dos oportunistas, dos negligenciados e dos insanos.

O que mais me espanta atualmente não é a divergência. Divergir é saudável. O mais assustador é a necessidade quase religiosa de transformar figuras públicas em entidades imaculadas. Criou-se um ambiente onde admitir falhas parece crime ideológico. Se um jornalista critica um governante conservador, recebe aplausos. Se questiona alguém do campo progressista, imediatamente surge o tribunal das redes tentando revogar sua identidade política.

Como se coerência dependesse de aplauso por pura vaidade.

Não depende.

Aliás,  talvez a verdadeira coerência esteja justamente na capacidade de manter o senso crítico mesmo quando isso desagrada aliados. Porque é fácil denunciar abusos quando eles vêm do adversário. Difícil é olhar para dentro da própria trincheira e dizer: “isso aqui está errado”.

E está.

Muita coisa está.

Há arrogância em setores que perderam a capacidade de ouvir. Há discursos sofisticados escondendo práticas antigas. Há personagens que falam em povo sem jamais caminhar entre pessoas comuns. Há governos que prometem transformação enquanto repetem vícios históricos da política brasileira.

Apontar isso não me transforma em menos esquerdista. Me transforma em alguém que ainda preserva meu lado sã e que ainda sabe questionar.

Jornalismo não pode funcionar como departamento de defesa de estimação ideológica. No momento que a crítica passa a depender de conveniências partidárias, o texto deixa de ser jornalístico e vira panfleto profano, sem contexto. E panfleto envelhece rápido. A realidade não. Ela às vezes é dura, porém, não ilusória.

Meu olhar continua o mesmo. Apenas não aceito deformações coletivas que tentam obrigar pessoas a escolher entre honestidade intelectual e pertencimento político.

Prefiro continuar olhando com liberdade. Mesmo quando isso incomoda. Eu vim para incomodar e não para ser aceito com sentimento de derrota, omissão e negligência contra o fato.

Fonte: Portal AZ

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