Temperança e Resiliência

Coluna do Sarney

Por Coluna do Sarney,

As palavras também sofrem os efeitos da moda. Entram e saem conforme os tempos, costumes e jeitos de se apresentarem. Há séculos a temperança ganhou um privilégio muito grande, desde que foi considerada por Aristóteles como uma virtude cardeal, ligada ao comportamento teológico, sinônimo de equilíbrio, moderação e sempre presente na maneira de viver.

Também Jesus Cristo usou a palavra intemperança, quando quis expressar a ausência de temperança, como relata o Evangelho de São Mateus, ao condenar “os escribas e fariseus” que estavam “cheios de roubo e de intemperança. Fariseu cego! Limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o que está por fora fique limpo”.

Ele, portanto, considerava a temperança, como Aristóteles, uma virtude ligada à limpeza de alma e de corpo, considerando os fariseus hipócritas “porque oravam de pé nas sinagogas para que fossem vistos”.

E hoje a temperança está entre as virtudes do equilíbrio, do entendimento, de uma conduta sem violência e na busca de um temperamento tranquilo, para se encontrar sempre uma convivência sadia e humana. Infelizmente, não é ela que está presente nos homens públicos do nosso país. O que vemos é um desencadeamento do ódio, da intolerância a presidir as relações humanas sem limites, o menor que seja, para o desencadeamento da irritação e da intolerância. Tudo isso o contrário da temperança.

Uma vez, no Palácio do Planalto, conversando com a presidente Dilma, nas longas divagações que ao largo das audiências mantínhamos, falei da ausência da tolerância no trato da política. Naquele tempo ainda não tínhamos alcançado o nível de radicalização que temos hoje. A presidente concordou comigo e aceitou a nossa análise, mas acrescentou que a temperança tinha uma conotação religiosa. Concordei porque os exegetas dos textos canônicos a consideravam uma virtude, e como virtude era tida. Mas no relacionamento humano e na filosofia era tida como uma virtude de convivência, pois era uma conduta que no fundo era a conduta de equilíbrio, na qual era impensável o recurso à violência e à radicalização.

No caminho de saber o sentido da palavra — “no princípio era o verbo” —, vamos agora seguir com outra que entrou em nossa convivência e, sem ser convidada, passou a estar em todas as citações e depoimentos: resiliência, cuja origem vem do nosso latim, resilire, saltar para trás, voltar ao estado original — re, para trás, e salire, saltar — ou seja, voltar ao passado e neste recuperar-se.

Na política, direita e esquerda não se enquadram nestas duas palavras: temperança e resiliência. A busca do equilíbrio, acalmador das divergências, não está se enquadrando nem num, o radicalismo, e nem noutro, bem parecido com o outro, o ódio, a raiva, considerando o inimigo, e não o adversário, que seria sempre o exercício da democracia madura.

Agora, as palavras, mais do que todas as coisas, sobretudo a palavra escrita, têm a ambição de guardar sentimentos, julgamentos, amor, amizade, paisagens, momentos e lágrimas, sinônimo de tristeza, para a eternidade. A palavra escrita assim é a memória do tempo, da personalidade, da vida de quem deseja ser eterno. A palavra é neste patamar o tempo de pensar.

A conclusão que nos invade é de que a democracia continua sendo, no Brasil, aquela definição do Otávio Mangabeira, “uma plantinha tenra, que precisa ser irrigada, diariamente”. Quando comemoramos, no ano de 2025, os 40 anos de democracia, aniversário da Transição Democrática, tivemos a oportunidade de dizer que o lema da UDN, o partido que marcou minha formação política, de “o preço da liberdade é a eterna vigilância”, frase que Afonso Arinos dizia-me ser de Thomas Jefferson, significava o mesmo sentimento da “planta tenra” de Mangabeira, isto é, necessita de um permanente cuidado, pois liberdade é sinônimo de democracia, e o fato de que, no mundo de hoje, os países que são governados por regimes autoritários são em números representativos e, se formos somar o PIB desses países, chegaremos à conclusão de que esse número está num equilíbrio entre as democracias e as ditaduras.

Sempre tive uma grande admiração pelos Estados Unidos. Pela sua missão histórica que o destino da humanidade lhe entregou de difundir no mundo os ideais democráticos, de defesa da liberdade e da implantação daquele regime que Abraham Lincoln definiu com “do povo, pelo povo, para o povo”. Os Estados Unidos cumpriram com seu destino de defensor da liberdade e lutador pela sua implantação e para isso lutou em duas guerras e nos livrou de Hitler. Calculemos se em lugar dos Aliados tivéssemos a Alemanha daquele tirano, na missão de implantar o nazismo ao mundo? O que seria da humanidade se tivéssemos em vez do Estado de Direito, o direito e a prática do morticínio dos campos de concentração?

Por isso é que criticamos o presidente Trump, que desenvolve uma política totalmente contrária aos ideais americanos, de Thomas Jefferson a Lincoln a Roosevelt a Washington e a Kennedy.

Temperança, liberdade, resiliência são palavras para meditação, e elas fazem falta nas decisões e contra as guerras.

Fonte: Portal AZ

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