Ameaça fake: EUA usam terrorismo psicológico

Alerta norte-americano ocorre às vésperas da eleição e provoca reação no Brasil

Por Márcio Felipe | Jornalista | Portal AZ,

A decisão dos Estados Unidos de suspender os serviços consulares no Brasil, anunciada na quinta-feira (1º) e efetivada na sexta-feira (2), chama atenção pelo momento e pela dimensão. A medida atingiu a Embaixada norte-americana em Brasília e os consulados em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Porto Alegre, a apenas dois dias do primeiro turno das eleições.

Foto: ReproduçãoOk

A Austrália adotou medida semelhante em sua representação diplomática em Brasília e mencionou riscos relacionados a terrorismo e violência. Nenhum dos dois governos apresentou publicamente, até agora, detalhes suficientes para demonstrar a existência de um plano terrorista concreto ou identificar um grupo responsável.

No Brasil, a Polícia Federal abriu investigação e cumpriu mandados de busca e apreensão em São Paulo e no Distrito Federal. Segundo a própria PF, a operação teve caráter preventivo e contou com cooperação de agências estrangeiras. Até então, não haviam sido encontrados elementos capazes de confirmar os riscos inicialmente apontados.

A origem do alerta teria sido uma ameaça de bomba publicada em uma rede social, segundo reportagem da Folha de S.Paulo. A pessoa apontada como autora foi localizada, mas não foram identificados elementos que demonstrassem capacidade para executar o suposto ataque.

É nesse ponto que o episódio ganha dimensão política.

Uma ameaça publicada na internet deve ser investigada. O que precisa ser questionado é a proporção da resposta e, principalmente, o momento escolhido para uma decisão que repercute diretamente no ambiente brasileiro às vésperas de uma eleição presidencial.

A palavra “terrorismo” possui forte efeito psicológico. Associada a bombas, violência, embaixadas e eleições, produz medo e sensação de insegurança. Se a ameaça não encontra respaldo nas investigações, o alerta deixa de ser apenas uma questão de segurança e passa a produzir consequências políticas.

É por isso que o Brasil precisa exigir informações.

Washington deve esclarecer quais dados recebeu, qual foi a origem da informação, quais evidências fundamentaram a decisão e por que o nível de risco foi considerado suficiente para suspender serviços diplomáticos em cinco cidades brasileiras.

A cautela também se justifica pelo histórico das relações entre Estados Unidos e América Latina. Documentos oficiais norte-americanos já comprovaram operações de interferência no Chile e preparativos durante a crise brasileira de 1964, incluindo a Operação Brother Sam. Esse passado não comprova uma operação atual contra o Brasil, mas demonstra que a atuação de Washington na política latino-americana tem precedentes concretos.

O contexto atual reforça a necessidade de atenção. O governo Donald Trump ampliou sua atuação política e de segurança na América Latina, enquanto a relação com o governo Lula permanece marcada por divergências. Em maio, Washington também classificou o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, decisão contestada pelo governo brasileiro.

A suspensão dos serviços consulares ocorre, portanto, em um ambiente de forte tensão política e geopolítica.

A situação eleitoral torna o episódio ainda mais sensível. Pesquisa Datafolha divulgada antes da votação apontou Lula com 45% dos votos válidos e Flávio Bolsonaro com 42%, em cenário de disputa apertada. Nesse ambiente, qualquer alerta estrangeiro sobre terrorismo ou violência pode interferir na percepção de segurança da população e produzir efeitos sobre o debate eleitoral.

A campanha de Lula já solicitou ao Tribunal Superior Eleitoral investigação sobre a decisão norte-americana e uma possível interferência estrangeira. O pedido não comprova essa interferência, mas mostra que o episódio passou a ser tratado como questão institucional.

O Brasil não pode aceitar passivamente uma narrativa de terrorismo sem conhecer suas evidências. Tampouco deve permitir que o medo seja utilizado como instrumento de pressão política.

Se existe uma ameaça concreta, as autoridades brasileiras precisam conhecer os elementos que a sustentam. Se a ameaça não se confirmar, é necessário esclarecer por que uma medida diplomática de tamanha dimensão foi adotada às vésperas da eleição.

O ponto central é a soberania brasileira.

Uma potência estrangeira tem direito de proteger seus diplomatas, mas o Brasil também tem o direito de questionar uma decisão que pode produzir efeitos políticos dentro de seu território.

Quando o terrorismo não é comprovado, mas o medo é amplificado, a sociedade precisa perguntar a quem interessa transformar uma ameaça em pânico.

É essa resposta que as instituições brasileiras devem buscar.

Fonte: Portal AZ

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