O mercado perdeu a eleição e quer que você pague a derrota
O Ibovespa caiu 17% e o dólar bateu R$ 5,60 após a reeleição de Lula. As manchetes falam em pânico
O número, lido com calma, fala em outra coisa: um grupo especulou demais e se deu mal
Muitas manchetes hoje falam em pânico no mercado financeiro. Os números, porém lidos com calma, falam em outra coisa: um grupo de investidores apostou numa agenda de privatizações a partir do primeiro turno, perdeu a aposta no segundo e agora desfaz posições. Não é o país desabando. É o mercado cobrando a conta de quem errou a previsão. E quem lucra com a ruidosa narrativa do fim do mundo não é o pequeno investidor, é quem vende curso.
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Os números crus
Segunda-feira, 26 de outubro de 2026, 10 horas da manhã. A B3 aciona o circuit breaker, mecanismo que suspende as negociações por 30 minutos quando o Ibovespa cai 10% em relação ao fechamento anterior. Era a primeira vez desde março de 2020, em plena pandemia. O índice, que abriu em 205.070 pontos, chegou à mínima de 169.516, retração de 17,34%.
O dólar à vista saiu de R$ 4,99 na sexta-feira para R$ 5,42 na abertura (alta de 8,65%) e tocou R$ 5,60 pouco antes das 10h30, avanço superior a 12% em um único dia. O contrato futuro para novembro, o mais negociado, disparou 12,58%.
Entre as ações, o estrago se concentrou num grupo bem definido: Banco do Brasil e BTG Pactual recuaram mais de 30%, Petrobras perdeu entre 8% e 12% conforme a classe do papel, a própria B3 desabou 47% e a “Vamos”, empresa de locação de caminhões sensível aos juros, derreteu quase 57%. Das 76 ações do índice, seis subiam ao meio-dia, Suzano à frente, com 8,57%, exportadora que ganha quando o real afunda.
Guarde esses nomes. Eles são a chave da coluna.
O que produziu esse resultado
Volte três semanas. Em 5 de outubro, segunda-feira seguinte ao primeiro turno, Flávio Bolsonaro havia terminado à frente de Lula com 47,03% dos votos válidos contra 45,16%. As pesquisas não previam aquilo. E o mercado reagiu com uma euforia que também não tinha precedente: o Ibovespa subiu 7,70% em um único pregão, fechou pela primeira vez acima de 206 mil pontos, Petrobras PN saltou 8,19%, Bradesco PN 13,57%, Banco do Brasil 11%. O dólar caiu 4,12% e encostou em R$ 5,00.
O que estava sendo comprado ali não era o Brasil. Era uma tese: a de que um governo com agenda privatista venderia o controle de Petrobras e Banco do Brasil, ou ao menos as tiraria da órbita de interferência política, elevando o valor dos papéis. Quem acreditou nisso correu para comprar estatal, comprar banco e vender dólar, apostando na continuidade da alta.
O segundo turno desfez a tese. Um governo que acabou de ser reeleito com discurso contrário à privatização não vai alienar o controle da Petrobras nem do Banco do Brasil. Logo, a prêmio pago em outubro por esse cenário precisava ser devolvido. É exatamente o que se vê na lista de maiores quedas: estatais, bancos e a B3, que lucra com o volume de negociação que a euforia gerava. O operador do próprio mercado foi sincero ao dizer que a surpresa foi o primeiro turno, não o segundo.
Há ainda um dado jurídico que a cobertura ignora, e ele importa. Privatizar Petrobras ou Banco do Brasil nunca foi uma caneta presidencial. O STF, ao julgar a ADI 5.624 (relator ministro Ricardo Lewandowski, decisão de mérito em 6 de junho de 2019), fixou que a alienação do controle acionário de empresa estatal matriz exige autorização legislativa específica e procedimento licitatório; só as subsidiárias dispensam lei. Quem comprou Petrobras em 5 de outubro apostando em privatização comprou, na verdade, um Congresso que não existia e um processo legislativo que levaria anos. A tese já era frágil antes de o resultado de domingo a derrubar.
Quem ganha e quem perde quando o dólar sobe 12% num dia
Aqui é preciso separar duas coisas que a palavra “mercado” esconde.
A primeira é o ajuste de posição: fundos e investidores estrangeiros que montaram carteira em outubro vendem agora, e vender em bloco derruba preço. Isso não é conspiração, é mecânica. O ETF iShares MSCI Brasil, negociado em Nova York, perdia mais de 26% antes mesmo de a B3 abrir, sinal de que a decisão de sair já estava tomada no exterior.
A segunda é a especulação propriamente dita: quem opera dólar futuro, quem está vendido em real, quem lucra com a volatilidade em si. Para esse grupo, o pânico é matéria-prima. Quanto mais ruidoso o movimento, maior o ganho de quem se posicionou antes. Em um dia como hoje, o lucro de poucos vem diretamente da perda de valor de empresas que empregam, pagam imposto e distribuem dividendo a milhões de brasileiros, inclusive aos cotistas de fundos de pensão que detêm Petrobras e Banco do Brasil há décadas.
No Piauí, esse movimento tem endereço. O dólar a R$ 5,60 encarece o diesel que move a colheita e o frete dos cerrados de Uruçuí e Bom Jesus, encarece o fertilizante importado da próxima safra e pressiona o preço do trigo do pão de cada manhã. Em contrapartida, o produtor de soja que já contratou venda em dólar recebe mais reais por saca. O efeito líquido para o piauiense comum, porém, é inflação importada. Quem decide o preço do pão em Teresina hoje não é o eleitor de domingo, é a mesa de câmbio de segunda.
Por que a notícia foi tratada como foi
A cobertura econômica brasileira tem um vício antigo: trata o movimento do dia como veredito sobre o país e trata o investidor como juiz imparcial. Nem uma coisa nem outra. São pessoas que sempre tentam enganar seu público, pois lucram com o sentimento catastrofista.
Primeiro, a manchete que grita “dispara” e “despenca” omite a referência. O dólar a R$ 5,60 está apenas 7% acima do nível em que estava antes de qualquer voto ser depositado, quando girava em torno de R$ 5,21. O Ibovespa a 169 mil está abaixo do patamar pré-eleitoral, é verdade, mas boa parte da diferença é a euforia de outubro sendo liquidada com a mesma brutalidade com que foi montada.
Segundo, a imprensa econômica confunde tese de investidor com diagnóstico de economia. Dizer que “o mercado temia deterioração fiscal” é descrever o motivo da aposta, não provar que a aposta estava certa. O mesmo mercado que hoje precifica catástrofe precificou, três semanas atrás, uma privatização que o STF já havia tornado juridicamente improvável.
Terceiro, e mais grave: existe uma indústria inteira que vive de vender a surpresa. Coaches financeiros, canais de “educação” em investimento e corretoras que lucram com corretagem precisam que cada solavanco pareça inédito, porque é no medo que se vende curso, carteira recomendada e “proteção”. Para esse setor, dizer a verdade (que o movimento era previsível e tende a ser absorvido) não dá dinheiro.
A ressalva honesta
Não é correto afirmar que a Bolsa sempre cai depois de eleição no Brasil. O histórico é mais matizado, e o colunista que o simplificar vai apanhar.
Em 2022, no primeiro pregão após a vitória de Lula sobre Jair Bolsonaro, o Ibovespa fechou em alta de 1,31%. Em 2018, após a vitória de Bolsonaro, o índice caiu cerca de 2% no dia seguinte, movimento clássico de “vender no fato” depois de semanas de alta. Em 2014, com a reeleição de Dilma Rousseff, a queda foi de 2,77% e a Petrobras perdeu mais de 12%. Em 2006 e 2010, as reações foram modestas e positivas.
O que esses casos têm em comum não é a direção, é o mecanismo: a Bolsa reage à distância entre o que havia precificado e o que a urna entregou. Em 2022 o mercado já contava com Lula, e nada aconteceu. Em 2026 o mercado apostou pesado no contrário, e a correção foi proporcional à aposta. A magnitude de hoje é inédita, porém a lógica, não.
Há também um ponto que os críticos do governo levantam com razão: a volatilidade não vem só da frustração privatista. Vem da ausência de maioria própria no Congresso e da dúvida sobre o arcabouço fiscal em um quarto mandato. Essa preocupação é legítima e não desaparece porque o movimento de hoje foi exagerado. A diferença é que ela se resolve com política e orçamento ao longo de 2027, não num pregão de segunda-feira.
E uma última honestidade: dizer que o movimento é “natural” não significa dizer que é indolor. Quem comprou Banco do Brasil a 11% de alta em 5 de outubro e vende hoje a 31% de queda perdeu dinheiro de verdade. O ponto da coluna é que essa perda foi escolhida, não imposta pelo resultado da eleição.
O recado
Ninguém privatizou nada em 5 de outubro, e ninguém estatizou nada em 26 de outubro. O que mudou foi a aposta de quem tinha pressa de lucrar com uma hipótese.
A Bolsa não julga o Brasil. Ela cobra de quem errou. E o pânico ilusório que hoje enche manchetes e canais de YouTube será, em algumas semanas, apenas mais uma linha num gráfico que se acomodou.
Aguardar é a única estratégia que não se vende em curso.
Alexandre de Castro Nogueira OAB/PI 3.941
Fonte: Alexandre Nogueira