Com mercado inglês de olho, Marta deixa futuro em aberto, mas diz: "Não é uma má ideia"
Camisa 10 diz se sentir à vontade em Orlando, porém não confirma se irá renovar: "Não posso responder isso"
Por Cíntia Barlem e Joanna de Assis, Rio de Janeiro e Nova York
Indicada pela 14ª vez ao prêmio de melhor do mundo, cinco vezes torcedora do troféu e embaixadora da ONU Mulheres. Marta coleciona uma carreira de grandes feitos, mas os desafios ainda a motivam na carreira. Fechando sua segunda temporada no Orlando Pride, ela tem o contrato atual próximo do término. Com o status que atingiu, a camisa 10 desperta interesse não só de clubes brasileiros - Iranduba desejava a atleta para a disputa da Libertadores 2018 -, mas também está na mira de times ingleses, que iniciaram no domingo a nova e reformulada Superliga de futebol feminino do país.
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- Ah...tem time inglês. Outros aí, mas beleza (risos). Não sei nesse momento. Não tenho como responder, mas é lógico que quando você escuta comentários, especulações, você fica feliz porque o que você está fazendo está atraindo positivamente.
A jogadora não afasta a possibilidade de atuar na Inglaterra. Ressalta o alto nível da liga e acredita que não é algo que ela possa dizer que nunca irá acontecer em sua carreira.
- Não é uma má ideia. Porque Inglaterra é um país que, tanto feminino e masculino crescem bastante. Tem futebol forte, de alto nível, grandes atletas. Então assim. Não é uma coisa que eu não penso que nunca vai acontecer. Eu jamais direi que não. Então, deixa aí em aberto (risos).
Sobre o Orlando Pride, Marta também deixa em aberto se irá ampliar seu vínculo com a equipe americana, onde voltou a figurar entre as três candidatas a melhor do mundo.
- Não posso te responder isso, mas aprendi a gostar pela cidade. Me adaptei muito rápido. Orlando tem muitos brasileiros, e quando a gente tem saudade da comidinha do Brasil, a gente encontra com muita facilidade, então eu estou me sentindo em casa.
CONFIRA A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA:
VISITA À ONU
- Sou embaixadora da ONU desde 2011. Trabalhamos em outra área. Agora vamos ficar especialmente, no esporte, no empoderamento feminino.
MARTA, SÍMBOLO DE EMPODERAMENTO
- Para mim é uma honra, o prêmio mais importante que eu poderia ganhar. Fico até emocionada quando falo sobre isso porque vem através da minha história, minha história de vida onde eu tive que batalhar muito. Usar a sua história para empoderar outras pessoas, para mostrar que a gente consegue quando tem vontade e perseverança é algo que não tem preço, estou super feliz.
QUAL A PARTE QUE MAIS TE TOCA DA SUA HISTÓRIA?
- A mudança que houve esses anos todos né. Falo especificamente do futebol feminino porque quando eu comecei era uma dificuldade muito grande, e a gente vê que mudou muita coisa, a gente vê que tem escolinhas de futebol feminino, os pais levam as meninas para jogar futebol. Isso não acontecia quando eu comecei. Para você ter uma noção, ninguém jogava futebol na minha cidade, as meninas ficavam com medo, apreensivas porque eram comentários machistas, era preconceito, a própria família não achava que era um esporte para mulheres, porque as pessoas comentavam muito mal, e eu era a única que batia de frente, contra tudo isso, e segui em frente. Então, hoje, quando eu volto para a minha cidade, todas as meninas estão jogando, todo mundo fala de futebol feminino, e isso é bacana, é uma coisa que me deixa muito feliz.
VOCÊ E VÁRIAS ESTRELAS DE HOLLYWOOD. VOCÊ É A ÚNICA ATLETA E LATINA...
- É uma honra poder estar incluída nessa família, fazendo parte de um trabalho tão bonito, tão humano. Não é o status financeiro, nada voltado a isso. É toda a história, a história me levou até aqui. Me deixou feliz. Compartilhar com as grandes estrelas.
COMO FOI O PRIMEIRO ENCONTRO?
Eu me disponibilizei a ajudar da melhor maneira possível, trabalhando com as mídias sociais, passando a mensagem que queremos empoderamento e motivação. Não é só esporte em si, mas é luta de gênero, que é uma das coisas que se a gente conseguir chegar a um ponto alto, todas as outras coisas vão se encaixando porque aí veremos respeito. A questão da violência contra a mulher. Todas essas coisas vão diminuindo, porque se você me aceita do jeito que eu sou, da maneira que eu penso, o que quero fazer, isso é respeito com a minha posição, e encaixa na igualdade e gênero, e isso é uma das coisas que temos que bater na tecla, porque todas as outras se encaixam.
Marta em ação com a camisa da seleção brasileira (Foto: Elsa/Getty Images)
AS OUTRAS SÃO MILITANTES, VOCÊ É EXEMPLO DA CAUSA
- A gente conversou sobre isso porque justamente o que eu vivi, né? Durante minha infância toda, tive que combater todo preconceito que existia por eu ter decidido jogar um esporte que para muitos era um esporte voltado para o mundo masculino. Eu tive que combater isso desde pequenininha. Então, nada melhor do que poder passar essa experiência e lutar para que as outras meninas, e eu coloco até mesmo os meninos, as pessoas acham que a gente tem que separar...os meninos ídolos masculinos, as meninas ídolos femininos, mas eu acho que a gente tem que mostrar que o ser humano é capaz de tudo e tem essa capacidade de digamos de vencer os obstáculos, só tem que acreditar.
FUTEBOL, EMBAIXADORA E INDICADA MAIS UMA VEZ. NINGUÉM FOI TÃO INDICADA...
- A primeira vez foi em 2003, 2004. E daí foram vários anos seguidos. Novamente estamos lá, eu estou supercontente com tudo isso. É fruto do meu trabalho que comecei ano passado com o Orlando Pride. Estou dando continuidade esse ano com a seleção feminina também. Tivemos bons resultados, classificamos para a Copa e Olimpíada. É uma trabalho que muitos falam assim: "Ela melhor jogadora". Mas não é um prêmio individual, é parte de um trabalho de muitas pessoas.
O QUE O PRÊMIO AINDA REPRESENTA PARA VOCÊ?
- Estou nervosa do mesmo jeito! (risos) Então, tipo assim, não muda muita coisa por ter ganhado várias vezes, a emoção é a mesma, a ansiedade é a mesma, porque é uma coisa que tipo...é minha vida. Eu vivo isso no meu dia a dia. Tento buscar ser a melhor todos os dias. Aí quando você recebe notícias dessa natureza é motivacional demais. É gratificante.
VAI RENOVAR COM O ORLANDO?
- Não posso te responder isso, mas aprendi a gostar pela cidade. Me adaptei muito rápido. Orlando tem muitos brasileiros, e quando a gente tem saudade da comidinha do Brasil, a gente encontra com muita facilidade, então eu estou me sentindo em casa.
TIMES DO BRASIL, SUÉCIA, TIME INGLÊS QUERENDO VOCÊ...VOCÊ TEM VONTADE DE EXPLORAR NESSE PONTO DA SUA CARREIRA UM MERCADO NOVO?
- Ah...tem time inglês. Outros aí, mas beleza (risos). Não sei nesse momento. Não tenho como responder, mas é lógico que quando você escuta comentários, especulações, você fica feliz porque o que você está fazendo está atraindo positivamente.
MAS VOCÊ TEM VONTADE? JOGAR NA INGLATERRA, POR EXEMPLO?
- Não é uma má ideia. Porque Inglaterra é um país que, tanto feminino e masculino crescem bastante. Tem futebol forte, de alto nível, grandes atletas. Então assim. Não é uma coisa que eu não penso, que nunca vai acontecer. Eu jamais direi que não. Então, deixa aí em aberto (risos).
COPA DO ANO QUE VEM. JÁ COLOCOU NA SUA CABEÇA QUE VAI SER A ÚLTIMA? OU PENSA DIA A DIA?
- Eu antigamente pensava assim: "ah, vou jogar só mais uma Olimpíada". E daí dava continuidade. Então agora eu parei de fazer planos assim, falei, vou jogar dia após dia, treino após treino, jogo após jogo, ano após ano e aí eu vou ver até quando meu corpo vai responder. E até lá eu vou descobrir o segredo da Formiga que ela nunca fala então (risos). Se eu descobrir antes, quem sabe não pode acontecer um milagre e eu continue jogando por mais alguns anos.
A FORMIGA VAI JOGAR ANO QUE VEM? VADÃO CONVENCEU?
- Deus queira! Contamos com isso.
COMO É TER A FORMIGA DO LADO AOS 40 ANOS?
- Formiga é um exemplo de pessoa e dedicação, pessoa do bem, ela motiva né. Você vê ela treinando lá todos os dias, quando temos a oportunidade de jogar junto na seleção. Vê o vigor dela, na idade que ela tem, a vontade de querer ganhar todas as bolas, chegar primeiro. Motiva muito é é um grande exemplo pra mim e para todas as meninas.
O QUE AINDA TE FALTA?
- Você sempre almeja vencer grandes competições, como Copa e Olimpíada, mas é algo que vai acontecer se tiver que acontecer, não é uma coisa que eu botei na minha cabeca: "Ah tenho que viver para isso, preciso ganhar isso, caso isso não aconteça eu vou me sentir uma fracassada". Isso jamais, porque o futebol me deu muitas coisas e continua me dando. Oportunidade de mudar a vida de muitas pessoas. Já me sinto vencedora independente de título da seleção. Até mesmo me tornar embaixadora, não tem preço, foi através do futebol que cheguei onde cheguei. Eu adoro o Cristiano Ronaldo, admiro como ele conduz o trabalho dele, a dedicação, e ele jogou uma Copa e nao ganhou. A gente não sabe se ele estará em uma próxima. O próprio Messi que é ídolo de todo mundo também não ganhou Copa e jamais vai deixar de ser um craque, de ser bom no que ele faz, de ser exemplo. Tanto Cristiano quanto Messi. A gente tem que viver uma coisa de cada vez, e as coisas vão acontecer se tiverem que acontecer. E se no final não acontecer, é porque não era. Mas eu quero chegar lá na frente e olhar para trás e ver que mudou alguma coisa. Ver que está melhor do que quando eu cheguei. Então vou ficar contente.
ACHA QUE ESTÁ MELHOR MESMO?
- Esta melhor, mas muita coisa também tem que partir da gente, querer. Eu sinto que a gente, de alguma maneira nessa momento, as meninas que estão nessa nova geração, elas precisam querer mais. Precisam almejar chegar em uma seleção sub-20 e já pensar em uma seleção adulta. Já pensar em jogar no meu lugar, no lugar da Formiga, eu vejo que hoje a gente perdeu o foco nas redes sociais. Ela é legal para você divulgar coisas legais para as pessoas que gostam de você acompanharem o dia a dia, mas muitas vezes ela atrapalha e tira o foco do que realmente a gente precisa fazer. A gente percebe que "ah.. só por estar em uma seleção tá ótimo, ah, fui para um clube de nome, vou tirar uma selfie e está ótimo". Eu quero sentir que elas realmente querem chegar em algum lugar, mas chegar fazendo as coisas, dentro de Copa. A coisa acontecendo e querer mais, porque quando eu comecei, era uma querendo derrubar a outra, no bom sentido. Tipo assim, Vasco fazer um teste físico e querer ser a melhor. Não querer perder essa vontade de querer mesmo se mostrar que é competente, que consegue. Acho que perdemos isso e espero que a gente acorde e coloque em prática isso. Falo dessa maneira porque você me perguntou quanto mais eu vou jogar e eu não sei. Então me preocupo com quem está vindo. Eu quero que o trabalho continue. Quero olhar para trás e dizer, está ótimo! Pode melhorar! Mas está muito melhor do que estava quando eu cheguei.
O BRASIL GANHOU A COPA AMÉRICA E VAI JOGAR A COPA DO MUNDO ANO QUE VEM EM QUAL SITUAÇÃO?
- De renovação. Tem muita coisa que mudou. Mudamos treinador, Vadão voltou, tem atletas novas que não participaram das Olimpíadas e agora estão no grupo. Então assim, é uma equipe mista. Temos a mais velhinhas, eu me incluo nisso (risos). Quer dizer, quero estar lá, vou trabalhar para estar. Tem a Formiga também, Cristiane. Mas tem muitas meninas novas que estão chegando na equipe que têm potencial e é justamente essa vontade que a gente quer que permaneça. Sabe? Querer mostrar. Eu quero perder o lugar para um atleta, desde que ela mereça, quero sentir que tem alguém me perturbando, porque essa motivação tanto me motiva quanto motiva ela também. De querer ultrapassar. Então, estamos com uma equipe nova, é trabalhar nesse pensamento de evoluir sempre.
TE SURPREENDEU O MESSI NÃO ESTAR ENTRE OS 3?
- Todo mundo se assusta um pouco né porque ele é fora do normal. Não tem outro Messi. É único, mas aí você vai olhar.. tipo, o desempenho dos outros jogadores e realmente os três que estão lá mereceram estar. O Modric fez uma grande Copa, o Cristiano fez uma grande temporada, eu até acho que ele foi bem na Copa, Portugal talvez pudesse ir um pouco mais longe, mas enfim. E o Salah... Ele foi muito bem na temporada, não chegou tão bem na Copa, acho que a lesão acabou atrapalhando um pouco, mas não tira o mérito dele na temporada com o Liverpool.
E O NEYMAR NÃO ESTAR ENTRE OS 10?
- Pesa um monte de coisas, o Neymar tem potencial para estar sempre lá. E a gente torce para que isso possa conter mais breve, que ele possa estar lá e ganhar porque o menino tem talento, potencial, acho que nós brasileiros às vezes somos muito exigentes e pegam muito no pé, mas só nós atletas sabemos o que a gente passa. É muita coisa às vezes na cabeça e isso influencia, lógico, mas a torcida é muito grande para que ele possa muito em breve, quem sabe ano que vem, estar lá e ganhar esse prêmio.
Fonte: Globo Esporte