Ceará e Fortaleza esperam fim de férias para decidir futuro de elencos

Clubes acertaram redução salarial dos atletas para os meses de abril e maio. No entanto, as indefinições quanto ao retorno do futebol brasileiro podem resultar em implementação de licença remunerada para os elencos

Por Diário do Nordeste,

O cenário do futebol nacional é incerto com o novo coronavírus. De consenso, apenas a diminuição de receitas dos clubes com a suspensão do calendário de jogos. Por isso, os representantes da Série A do Campeonato Brasileiro, inclusive Ceará e Fortaleza, ampliaram as férias dos elencos até o fim de abril. Mas a medida é paliativa.


Elenco do Ceará está de férias até o fim de abril (Foto: Kid Junior)

No acordo de redução dos salários, do qual Vovô e Leão foram pioneiros no Brasil, era previsto a ampliação das férias em 10 dias - se os treinos não retornassem. O dilema das diretorias então é decidir outra diretriz quando o prazo for encerrado.

E mesmo os equilibrados financeiramente, como os cearenses, são afetados. Apesar da manutenção de todos os funcionários e dos pagamentos integrais das despesas de março, há um limite nas receitas. Logo, uma nova rodada de negociações se aproxima.

A necessidade de conversar com atletas se explica no gasto salarial. Protagonistas do espetáculo, os jogadores envolvem folha mensal de R$ 3,5 milhões em um cenário com ausência de lojas, cotas de TV e oscilação do sócio-torcedor. Um estudo do GloboEsporte.Com sugere impacto no orçamento dos times entre R$ 500 milhões e R$ 2 bilhões.

Em entrevista ao programa Esporte Executivo, da revista Exame, o presidente tricolor Marcelo Paz ressaltou o histórico de salários em dia da equipe como ponto positivo na relação com os jogadores.

"Se você sempre honrou com tudo, o atleta está contigo. Lido com jogadores desde 2015 e a credibilidade é assim. Fizemos um primeiro acordo porque acertamos abril e maio, mas vamos ter que conversar de novo se a situação permanecer. Sem dúvidas que a credibilidade vale muito", afirma.

O panorama é similar em Porangabuçu. Referência fiscal, o Ceará lida com um planejamento estratégico mensal para superar a crise econômica. As decisões futuras dependem também do retorno das competições.

"O coronavírus afetou o calendário, o orçamento, a cidade e a economia, macro e micro. Vamos mês a mês para pensar nas escolhas", aponta o presidente Robinson de Castro, que revelou a expectativa de retorno aos treinos a partir da 2ª quinzena de maio.

No entanto, o mandatário alvinegro ressalta que será preciso aprovação da CBF para que isso ocorra. "Na realidade, não existe ainda previsão de quando a gente vai retornar aos treinos, que seria a primeira etapa da liberação".


Jogadores do Fortaleza também estão de férias. Solução para o pos-férias (Foto: Camila Lima)

Licença remunerada

Nas reuniões da Comissão Nacional de Clubes (CNC), uma solução imediata seria a licença remunerada. A oferta mantém o empregado com salário, mas há possibilidade de redução com gasto mensal. Caso não haja possibilidade de retorno de treinos ou competições, o pós-férias vai ditar os próximos capítulos do futebol brasileiro e das finanças.

O Diário do Nordeste conversou com Daniel Arêa, chefe de fiscalização do trabalho no Estado do Ceará. O especialista foi categórico ao afirmar que a licença remunerada traz ônus ao empregador, mas é um gesto de solidariedade diante da crise financeira.

"Há várias modalidades de licença e, para quem pode pagar, é um ato solidário, não são todas as empresas que conseguem. Isso porque não pagar nada com contrato vigente acarreta em atraso dos vencimentos, questão trabalhista e judicial", explica.

Pelo viés econômico, a perspectiva positiva é a curto prazo. Daniel Arêa reforça que a ruptura total do vínculo implica em quitação dos direitos do trabalhador previstos na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), um gasto imensurável quando o panorama dos times é diminuição de receitas.

"Romper um contrato é caro. Tem 40% de FGTS, aviso prévio e, no caso do jogador, tem uma negociação com o staff, luvas, a verba rescisória que tem todo jogador, proporcional de férias, 13º, então sai pesado. As nuances do jogador são diferentes do regime civil. Já pensou pagar tudo isso de uma vez e só depois receber a verba da bilheteria, que está paralisada agora? Teria que antecipar os direitos de TV e tentar renegociar com patrocinadores, que não estão pagando", declara.

A aposta da CNC é conseguir reduzir os custos salariais até a retomada do calendário de jogos. Segundo Arêa, como os vencimentos de um jogador de futebol são pagos entre CLT e direito de imagem, uma diretriz civil, a licença permite renegociação dos valores e até abatimento de uma parte do montante.

"Depende da especificidade do contrato, mas se não há como diluir a marca naquele produto, isso se tratando do direito de imagem do jogador pago com o atleta em casa, sem entrar em campo, então não é justo repassar essa parcela do valor, o que pode gerar economia aos times. É uma medida legal porque há comprovação da queda de receita do time, mas é algo que necessita de diálogo com os funcionários", finaliza.

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