Prestes a disputar o Campeonato Baiano pela segunda vez, Valéria analisa nova fase e cenário do futebol feminino

Atleta veio a União para passar dez dias com a família antes de se apresentar ao novo clube

Por Jade Araujo,

Do Piauí para o mundo. Essa é a frase que Valéria fala com um sorriso no rosto. Aos 20 anos, a atleta natural de União veio a Teresina para mostrar o que faria com a bola nós pés. Mostrou não só para o Piauí. Foi artilheira no Campeonato Brasileiro Série A2 e despertou olhares curiosos por times de fora. Não demorou e em 2018 começou a trilhar carreira no Audax onde disputou o Brasileiro A1 e o estadual. 

Hoje Valéria retorna ao Nordeste para atuar no Vitória, clube com o qual tinha um namoro desde o ano passado. A mudança, após sete meses no futebol paulista, deixou em Valéria experiências e amizades. 

- Eu digo que sempre é uma experiência que temos que levar e guardar pelo resto da vida. Não só pelo lado do trabalho, mas pelo lado pessoal também. Foi uma experiência única, tive muitos aprendizados e várias amizades novas também. Foi muito bom ter participado e jogado no Audax onde tem muita visibilidade. Fui lá, fiz o meu trabalho, fui bem reconhecida e por esse motivo o Vitória me viu já

E de futebol nordestino, Valéria tem domínio e o futebol baiano não será uma novidade para ela. Em 2016, com 17 anos, a atleta disputou o campeonato pelo São Francisco do Conde. Como de costume foi vice artilheira da competição, mas na época, como ela mesma disse “ninguém conhecia a Valéria ainda”. Hoje Valeria é esperada para fazer a diferença e levar o time ao título do campeonato. 

- Estou indo para o Vitória a fazer um bom campeonato baiano e também para ajudar a equipe nessas necessidades que sempre tem. Estou indo para Bahia para fazer um bom campeonato e quem sabe levantar o Vitória também. Acho que no Nordeste sempre tem mais dificuldades e é com elas que a gente consegue superar e crescer na vida. Creio que com essas dificuldades eu possa crescer e ir mais longe

Tão longe que Valéria acabou chegando a França. Esse ano ela se tornou a primeira piauiense a disputar uma Copa do Mundo. A seleção não passou da primeira fase, mas no último jogo, Valéria foi titular e se destacou na partida. Para ela, se soma mais uma experiência a quem ainda tem muito a oferecer ao mundo. 

- Foi uma experiência muito boa, uma sensação incrível disputar o Mundial. Eu nem acreditei na hora que eu estava lá, passou várias cenas pela minha cabeça e eu sou muito grata. Saio de cabeça erguida. Vieram me perguntar por que a seleção tinha saído na primeira fase, se o grupo não estava fechado. O grupo estava mais que fechado. Mas isso acontece no futebol. Quando sai do jogo contra a Coreia eu fiquei muito feliz com o povo me parabenizando e não tem nada melhor que isso, a pessoa sair com a sensação de dever cumprido. Por mais que para gente não tenha saído da forma que a gente queria, eu sai como eu queria

Assim como Marta é hoje um exemplo dentro do futebol feminino, Valeria já começa a sentir a mesma responsabilidade dentro do Piauí. Ela foi a primeira atleta a ter um contrato profissional e também a primeira a disputar uma Copa do Mundo. Toda essa visibilidade deu a ela mais motivos para agradecer. Consciente do seu papel como atleta ela já olha para melhor do mundo como uma meta a ser alcançada um dia. 

- Com certeza. Eu creio que se não fosse o Tiradentes eu não estaria aqui hoje. Por que o Tiradentes abriu a porta para mim e por causa disso, eu estou. De ter ido para seleção, artilheira pelo Tiradentes, passado pelo Audax e agora indo para o Vitória, eu creio que muitas meninas já se espelham em mim e sou muito grata por isso. E quem sabe um dia ser melhor do mundo como a Marta.

Valéria tem contrato com Vitória até o final do ano para disputar o Campeonato Baiano. O time nordestino recentemente conseguiu acesso para a primeira divisão do Campeonato Brasileiro. Mesmo com a possibilidade de permanecer no clube baiano, Valeria ainda pensa na família em primeiro lugar. Recentemente ela teve sondagens de times da Espanha e China. A decisão de para onde irá deve acontecer apenas no final do ano. 

- Para a seleção a visibilidade é melhor na Europa, mas a China é para ajudar a família. Mais valorizado. Mas a que surgir primeiro eu vou ver ai. Sei que fora do Brasil é melhor para mim, pois como eu quero ajudar minha família, é o lugar onde eu posso ir, desenvolver um bom futebol e ajudar a família

A família sempre foi o suporte da atleta. Os dez dias de volta a sua casa a fizeram olhar para trás e avaliar a mudança que o futebol vem causando na sua vida. 

- Depois que eu comecei a jogar mudou tudo na minha vida. Eu já passei por muitas coisas e eu me sinto com o dever de ajudar minha família. E enquanto eu não conseguir isso, eu não vou me aquietar. Minha mãe foi criada sem pai e muitas outras coisas. Melhorou muito minha vida, não só financeira, mas em relação ao que eu era antes. Até por que o futebol feminino não é essas mil maravilhas, mas melhorou muito a minha vida. Quando eu chego faço compra para minha mãe e pretendo crescer cada dia mais para ajudar minha família

Com passagens por clube e seleção Valéria começa a somar experiências. Nova vida, novas metas e novas experiência. Tudo isso dá a ela hoje a chance de analisar as dificuldades que o futebol feminino passa para ter reconhecimento. 

- Se eu estou no Piauí a valorização é totalmente diferente, se eu estou em São Paulo é diferente. Essa diferença do futebol masculino para o feminino, os caras mesmo dos clubes desvalorizam a gente, ficam falando, mas eu creio que um dia isso vai mudar e a gente vai chegar onde a gente quer, avaliou. 

Com muita fé e vontade de correr com a bola nos pés, Valéria vai fazendo a diferença no futebol a cada dia. Se hoje ela só pensa em ajudar a família e o seu atual clube, o Piauí agradece. Do Piauí para o mundo. 

 

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