Marcelo Paz fala sobre futebol brasileiro pós-pandemia: "a bola vai rolar diferente"
O presidente do Fortaleza demonstra preocupação com o cenário que se desenhará quando a crise for superada
A pandemia do coronavírus tem impactado o futebol mundial de diversas formas. É fato que o esporte será diferente após este momento histórico que é vivido pela sociedade. O presidente do Fortaleza, Marcelo Paz, escreveu artigo de opinião sobre as consequências que a pandemia terá no futebol brasileiro, e faz uma afirmação: a bola vai rolar diferente.
Marcelo Paz, presidente do Fortaleza - Foto: Rodrigo Gadelha
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O futebol é um esporte secular, global, apaixonante e muito tradicional. Ao ponto de não existir, ao longo desses últimos anos, mudanças tão drásticas em um único momento no contexto geral do jogo. As evoluções costumam acontecer de forma lenta e pontual. No entanto, com a pandemia causada pela COVID-19, ouso dizer que o 'novo normal' do futebol brasileiro também regressará com muitas nuances diferentes.
Gostaria de relacionar abaixo meu ponto de vista diante dos movimentos que tenho observado. Acredito que eles vão causar impacto direto na gestão técnica dos clubes e sobretudo dentro do que acontece em campo, tornando o espetáculo diferente e ainda mais imprevisível.
1 - Atletas com pelo menos 70 dias ou mais de inatividade: nunca um grupo de jogadores parou por tanto tempo. Isso causa perda da condição física e da massa muscular, ganho de peso, entre outras variáveis, que influenciam negativamente na capacidade atlética para o alto rendimento. Será necessário uma nova pré-temporada, de no mínimo 21 dias. Será a segunda preparação em um espaço de seis meses. Como esses músculos vão reagir? Veremos no retorno.
2 - Certamente teremos um número menor de contratações no futebol brasileiro devido ao impacto financeiro nos clubes. Até as agremiações que estavam acostumadas a ter um patamar financeiro mais equilibrado devem entrar em dificuldade. Isso impacta na formação dos elencos, no dia a dia e no ambiente. Temos que levar em consideração também que o mercado europeu pode comprar jogadores do futebol brasileiro devido ao poder da moeda, dificultando ainda mais a reposição.
3 – A questão do calendário, que terá menos tempo para a realização de mais jogos, também trará um efeito adverso. A tendência é ter várias semanas com jogos de quarta e domingo e isso afetará o desempenho físico e coletivo dos profissionais. Os clubes que precisam viajar mais serão ainda mais afetados. Vão acontecer mais lesões e certamente as reposições não serão no mesmo nível.
4 – O fato de ter cinco substituições também trará uma incidência, já que isso nunca existiu no futebol. As estratégias serão outras e iremos ter uma mudança na forma de fazer rodízio no elenco. Isso vai trazer uma transformação até no número de jogadores relacionados pelo treinador e quem ele irá utilizar. O técnico poderá fazer substituições ofensivas e defensivas ao mesmo tempo. Considero um abalo profundo dentro do que é desempenhado no futebol.
5 – E, por fim, a ausência do torcedor no estádio também proporcionará uma diferença gritante. Não há uma previsão, em curto e médio prazo, de jogos com venda de ingressos. Com portões fechados a mudança será direta, já que historicamente os clubes mandantes vencem mais os seus jogos. Esse fator pesará mais para as instituições que possuem torcida presente e usam o fator casa como trunfo. Podemos citar como exemplo a Bundesliga, que voltou com portões fechados e os visitantes têm tido um aproveitamento melhor. Além disso, o ambiente sem público influenciará na arbitragem, já que é diferente para o juiz apitar em estádio vazio. Ele pode ter mais tranquilidade para tomar as decisões e ser menos impactado positivamente ou negativamente.
São diversas alterações que, somadas, vão fazer uma partida de futebol ser diferente. Ainda mais no caso específico do Campeonato Brasileiro, que começará do zero com esse novo formato e regras. É diferente das competições europeias, que já tinham um direcionamento dos clubes que brigavam por títulos, vagas nos torneios continentais ou rebaixamento,e isso pode causar um impacto significativo nas posições finais do torneio.
Encerro aqui com esse célebre pensamento: 'Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças".
Marcelo Paz, presidente do Fortaleza