No dia do rock é bom lembrar que a revolução da música está em curso

Muito além do barulho

Por José Ribas,

“É só barulho.” Essa foi, por décadas, a acusação preferida dos conservadores de alma morna e espíritos domesticados quando o assunto era rock. E talvez fosse mesmo. Mas que barulho. Um som que vinha para incomodar, sacudir estruturas, empurrar para fora da zona de conforto tudo aquilo que cheirava a hipocrisia, autoridade cega ou moralismo barato. No Dia Mundial do Rock, celebrado em 13 de julho, não se homenageia apenas um gênero musical, mas um espírito. E, sejamos honestos: se o rock hoje anda domesticado, empacotado em playlists melancólicas ou trilhas sonoras de comerciais de carro, ainda assim seu DNA continua sendo o da ruptura. É o som de quem diz “não” — e não pede desculpas por isso.

Foto: ReproduçãoLondond Calling
Londond Calling

O rock nasce da contradição

O rock é filho bastardo da América. Mistura de blues negro, country branco, gospel sagrado e batida profana. Elvis Presley foi o primeiro a escandalizar, sim, mas a faísca já havia sido acesa por Chuck Berry, Sister Rosetta Tharpe e Little Richard. O que o rock fez foi pegar a angústia do negro escravizado, o lamento do trabalhador explorado, o grito do jovem alienado e transformá-los numa linguagem universal. Guitarras e amplificadores como armas contra o tédio burguês.

É uma música que nasceu da tensão racial, da transgressão sexual e da rebeldia juvenil. Logo, o rock jamais poderia ser só entretenimento. Ele carrega em seu DNA uma potência de revolta, de inconformismo, de desobediência estética. No palco, ele faz barulho. Mas, fora dele, ele mexe com a política, com os costumes, com a lógica da autoridade.

Estilo é conteúdo

Não é só som. É também atitude. É pose, sim. Mas uma pose que desafia. A jaqueta de couro é uma armadura contra o conformismo. O cabelo desgrenhado, um dedo médio para as expectativas sociais. A batida pesada, um chacoalhão na apatia cotidiana. O rock sempre entendeu que a forma é parte da mensagem. E isso o tornou uma linguagem poderosa de identidade, pertencimento e resistência.

David Bowie não apenas cantava, ele encarnava. Kurt Cobain não fazia acordes, ele exorcizava a angústia de uma geração. Patti Smith, com seus versos furiosos, mostrou que poesia e distorção podiam andar de mãos dadas. O rock não é feito só para ser ouvido — ele deve ser sentido, vivido, carregado no corpo como um manifesto ambulante.

Revolução em três acordes

Sim, houve um tempo em que se acreditava que três acordes e a verdade bastavam para mudar o mundo. E talvez não fosse delírio. O punk, com sua crueza, sua fúria lo-fi e sua recusa ao virtuosismo, foi mais do que música — foi uma bomba jogada contra o establishment. O rock psicodélico, por sua vez, expandia consciências enquanto questionava a moral, a guerra, a alienação. E o metal, tão demonizado por pregadores, era uma ópera da dor, da existência humana levada ao seu limite. Cada subgênero do rock, à sua maneira, tentou dizer o indizível. E quando não soube como, gritou.

O rock foi a trilha sonora das lutas civis nos EUA, do Maio de 68 na França, das Diretas Já no Brasil. Em cada revolução social das últimas décadas, havia ao fundo uma guitarra distorcida e uma juventude dizendo “não aguentamos mais”.

O rock morreu? Não, foi cooptado

Mas, como toda revolução, o rock também foi vencido pelo mercado. Transgredir passou a dar lucro. O sistema aprendeu a vender rebeldia em camisetas, a transformar protesto em identidade de marca, a sugar a energia subversiva e devolvê-la pasteurizada. O roqueiro virou garoto-propaganda. O punk foi parar em desfile de moda. O grunge virou trilha sonora de comercial de perfume.

E, no entanto, o rock não morreu. Ele apenas foi empurrado para a margem. Onde, aliás, sempre esteve melhor. Longe das rádios pop, fora do streaming chiclete, ele ainda pulsa em garagens, em selos independentes, em bandas suadas que tocam para vinte pessoas com mais verdade do que mil artistas de arena. O rock, hoje, sobrevive como sempre viveu: na contramão.

O que o rock ainda pode ensinar

Num mundo anestesiado por likes e algoritmos, o rock ainda tem muito a ensinar. Ele mostra que vale a pena desafinar o coro dos contentes. Que não se deve confiar em quem tem certeza demais. Que a vida é melhor com algum ruído, alguma raiva, alguma arte desajustada.

Mais do que um estilo musical, o rock é uma forma de existir: desconfiada, desobediente, inconformada. E, por isso mesmo, profundamente humana. O rock nos ensina que o mundo não precisa ser aceito como está — ele pode, e deve, ser questionado. Que não há autoridade que não mereça ser desafiada. Que não há silêncio que não mereça ser rompido.

Ouça alto, pense mais alto ainda

Celebrar o Dia do Rock é lembrar que, em algum lugar entre o grito de Janis Joplin, a doideira de Syd Barrett, o niilismo dos Sex Pistols e a melancolia de Jeff Buckley, ainda pulsa um desejo: o de não aceitar o mundo como ele é. E de gritar, cantar, berrar contra tudo que nos reduz a peças obedientes de uma máquina cinzenta.

O rock não é só nostalgia. É possibilidade. É desafio. E, quando toca como deve, não apenas estremece os tímpanos — estremece o mundo.

Long live rock. Mas não o rock que vende cerveja ou tênis da moda. O outro. O perigoso. O mal-vestido. O desajustado. O que ainda acredita que, com três acordes e a verdade, se pode incendiar um sistema inteiro.

Fonte: Portal AZ

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