O mundo acelera para a morte

Vivemos com pressa enquanto o tempo nos atravessa

Por Márcio Felipe | Jornalista | Portal AZ,

Às vezes, paro para refletir que há dias em que a vida parece ter adquirido pressa. Os ponteiros do relógio já não marcam apenas as horas; parecem persegui-las. Acordamos com compromissos, atravessamos o dia entre cobranças, mensagens, tarefas, trânsito, trabalho e preocupações. Quando percebemos, a aragem do silêncio da noite chegou junto ao orvalho. E, muitas vezes, chegamos junto dela, exaustos demais para compreender onde estivemos durante o dia. Ora, veja: a que ponto chegamos!

Foto: ReproduçãoOk

A morte, enquanto possibilidade, parece distante quando somos jovens. Ela pertence aos outros, aos mais velhos, às histórias que ouvimos, aos velórios para os quais somos chamados. Com o passar dos anos, porém, percebemos uma verdade simples e inevitável: ela sempre se aproxima, de forma insistente e silenciosa, enquanto continuamos vivendo. Fingimos não vê-la.

Cada pessoa viva morre um dia por vez. Mas, no catálogo da vida, ela pode vir inesperadamente. Só precisamos estar vivos. Tétrico.

A frase pode parecer dura, mas há nela uma espécie de precisão. Cada amanhecer acrescenta um dia à nossa história e, simultaneamente, retira um dia do tempo que ainda temos. Vivemos acrescentando datas ao calendário sem perceber que o calendário também vai diminuindo diante de nós.

Talvez o mais inquietante seja perceber que o mundo contemporâneo parece ter escolhido a velocidade como método de existência.

Tudo precisa ser rápido. A resposta precisa ser imediata. O trabalho precisa produzir mais. A comunicação precisa acontecer o tempo inteiro. O descanso tornou-se uma espécie de intervalo entre duas obrigações. Até o silêncio parece incomodar.

E então chegamos em casa.

O corpo atravessou o dia, mas a cabeça ainda está presa às exigências que ficaram para trás. Há pessoas que chegam tão cansadas que dormem o restante do dia. Dormem porque o corpo pede. Dormem porque a pressão acumulada finalmente encontra uma brecha para se manifestar. Dormem, às vezes, sem sequer perceber que o dia terminou.

E existe uma ironia silenciosa nisso.

Passamos boa parte da vida trabalhando para ter condições de viver melhor, mas frequentemente trabalhamos tanto que já não encontramos tempo para viver aquilo que conquistamos.

Ganhamos dinheiro, perdemos tempo. Ganhamos produtividade, perdemos presença. Ganhamos velocidade, perdemos contemplação. Acumulamos compromissos enquanto diminuem os espaços destinados àquilo que não produz nada além de felicidade.

Uma conversa demorada.

Um café tomado sem pressa.

Uma caminhada sem destino.

Uma tarde olhando a chuva.

Um livro aberto sobre a mesa.

Um abraço que não precisa de explicação.

Pequenas coisas que não aparecem nas planilhas, não geram indicadores e não costumam produzir resultados mensuráveis. Ainda assim, talvez sejam justamente elas que dão sentido aos dias.

A morte não precisa nos ensinar a ter medo. Pode nos ensinar a perceber o valor do tempo.

Porque o tempo não volta para buscar aquilo que deixamos para depois.

O mundo continuará acelerando. Novas tecnologias surgirão, as cidades ficarão mais rápidas, os dispositivos disputarão nossa atenção e o trabalho encontrará novas maneiras de ocupar nossos pensamentos. A máquina do cotidiano dificilmente diminuirá o ritmo por nossa causa.

Talvez sejamos nós que precisemos aprender a parar.

Parar não significa abandonar responsabilidades. Significa lembrar que existe uma pessoa por trás delas. Uma pessoa que sente, envelhece, se cansa, ama, perde, recorda e, inevitavelmente, caminha para o fim.

A morte fica cada vez mais perto porque estamos vivos.

Essa é uma das contradições essenciais da existência: cada dia vivido é uma conquista, mas também é um dia a menos no calendário.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja quanto tempo ainda temos.

Talvez seja outra:

O que estamos fazendo com o tempo que ainda temos?

Afinal, ninguém consegue parar o relógio. Mas ainda podemos decidir se viveremos correndo atrás dele ou se, em algum momento do dia, teremos coragem de simplesmente sentar e escutar o próprio coração.

Porque o mundo pode continuar acelerando.

Nós, entretanto, precisamos lembrar que a vida não é uma corrida.

É o caminho.

E todo caminho, algum dia, termina.

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Tempo

De: Márcio Felipe Rocha

Sou o tempo

Sentido existencial fantasmagórico que questiona

A evolução humana.

O tempo de Fernando Pessoa

E Mário Quintana

Que te deixa estático,

Cara de paisagem.

Sou o verbo que se impõe,

O ser e o existir,

Régua cronológica,

Gregoriana, judaica,

Um salto no universo.

Das emoções eu sei que sou.

Sou apenas o tempo incerto,

Súbito,

Os ponteiros do relógio

Do poeta Carlos Drummond de Andrade.

O verso versado nas madrugadas,

Expressões e angústias,

O eu lírico das falésias,

Dos devaneios humanos,

O front da Primavera Árabe,

O game over de Roger Waters, do Pink Floyd,

Que reverbera

The time of my life.

Eu sei que sou.

O nada sei que sou.

A linha em desalinho do horizonte,

O sinal na penumbra,

A existência efêmera.

Eu sei que sou o tempo

Que caminha a passos largos...

A construção fria que rompe

Os ponteiros dos segundos,

Sentenciado de forma precisa.

Eis-me aqui com o tempo,

O senhor e compositor do destino,

Como diria Caetano...

E aqui decreto ao degredo,

Na ordem do silêncio explícito,

A malícia do tempo,

O quão escravos somos dele,

Como o Sapiens de Sartre,

Vazios.

(Do poeta e jornalista do fim do mundo, Márcio Felipe | 16/11/2022, às 20h30, Brasília/DF).

Fonte: Portal AZ

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