Fanatismo: e se sua certeza for o problema?

Não questionar aquilo em que você acredita pode dificultar o reconhecimento dos próprios erros

Por Márcio Felipe | Jornalista | Portal AZ,

Ao analisar uma fala do professor e filósofo Leandro Karnal, pensei em escrever este texto em um período tão conturbado da política e da informação, a partir de uma questão aparentemente simples: o que é, afinal, um fanático?

Foto: ReproduçãoOk

A resposta começa na própria história da palavra. “Fanático” vem do latim "fanaticus", derivado de "fanum", termo que designava um templo ou lugar sagrado. No mundo romano, "fanaticus" podia referir-se àquilo que pertencia ao templo e, posteriormente, à pessoa tomada pelo entusiasmo religioso, pela inspiração ou pelo êxtase associado ao culto.

Há, nessa origem, uma imagem que atravessou os séculos: a de alguém que parece estar sob o domínio de uma força superior a si mesmo. O sentido moderno da palavra ampliou-se, mas preservou algo essencial dessa antiga ideia: o fanático é aquele cuja crença pode ocupar de tal maneira o campo da consciência que reduz sua capacidade de questionar, ponderar e julgar.

É importante distinguir fanatismo de convicção. Ter uma crença profunda, defender uma ideia ou dedicar-se intensamente a uma causa não constitui, por si só, fanatismo. O problema surge quando a convicção deixa de dialogar com a razão e passa a rejeitar qualquer possibilidade de questionamento. O fanático não olha para aquilo em que acredita para reconhecer também seus limites; olha para encontrar confirmação.

Aqui começa o problema filosófico. Sócrates fez da pergunta um instrumento contra a falsa certeza. Reconhecer que não sabemos é, para ele, uma condição para pensar. O fanatismo realiza o movimento contrário: transforma a certeza em uma espécie de blindagem. Já não se pergunta se a própria crença pode estar equivocada; pergunta-se apenas como defendê-la.

O filósofo Nietzsche nos permite avançar um pouco mais. Suas críticas às verdades tomadas como absolutas lembram que nossas convicções também carregam perspectivas e valores que precisam ser examinados. Pensar não é simplesmente possuir uma posição, mas ser capaz de voltar o pensamento contra aquilo em que nós mesmos acreditamos. Nesse sentido, a crítica não é inimiga da convicção; é aquilo que impede que ela se transforme em dogma.

Hannah Arendt, filósofa e pensadora alemã, também ajuda a entender essa questão ao refletir sobre o pensamento e a capacidade de julgar. Julgar exige parar, pensar, considerar as circunstâncias e olhar para diferentes pontos de vista. O fanatismo enfraquece justamente essa capacidade: a pessoa passa a enxergar apenas aquilo que confirma o que pensa. Quem ela admira não pode ter defeitos; quem ela rejeita não pode ter razão. O admirador pode chegar ao ponto de transformar seu ídolo em uma espécie de deus, perdendo o bom senso, a coerência e o discernimento.

É por isso que o fanatismo pode ser compreendido como uma falha no exercício do julgamento. Ele não significa apenas acreditar demais, mas perder a capacidade de avaliar criticamente aquilo em que se acredita. A pessoa, o líder, a religião, a ideologia ou a causa deixam de ser objetos de reflexão e passam a ocupar o lugar de uma verdade protegida contra a realidade.

Karl Popper acrescenta uma exigência fundamental ao pensamento racional: nossas ideias devem permanecer abertas à crítica. Uma convicção que não admite ser confrontada deixa de funcionar como hipótese racional e passa a exigir adesão.

Talvez esteja aí a diferença essencial entre pensar e simplesmente acreditar. Pensar não significa abandonar convicções, mas permitir que elas sejam examinadas. Significa conseguir reconhecer defeitos naquilo que admiramos e alguma razão naquilo que rejeitamos.

O contrário do fanatismo, portanto, não é a ausência de fé, de paixão ou de convicções. É a capacidade de julgar. É permanecer intelectualmente livre diante daquilo que acreditamos ser verdadeiro.

Neste sentido, quando uma crença nos impede de enxergar seus próprios limites, já não somos nós que a possuímos: é ela que começa a nos possuir.

Fonte: Portal AZ

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