Satélites da NASA revelam mais incêndios do que registros oficiais na Amazônia
Pesquisadores identificam cerca de 40% mais focos na região de Santarém do que os sistemas convencionais.
A seca associada ao fenômeno climático El Niño tem deixado a Floresta Amazônica mais vulnerável a incêndios, e cientistas alertam que a região pode enfrentar uma temporada de queimadas longa e severa. Desde setembro de 2026, satélites registram crescimento da atividade do fogo e das emissões de fumaça nas porções central e oriental da Amazônia, em uma área que se estende das proximidades de Manaus e Santarém até a foz do rio Amazonas.
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Em 12 de outubro, imagens captadas pelo satélite Aqua, da Agência Espacial Americana (NASA), mostraram fumaça proveniente de incêndios nas duas margens do rio Amazonas. Naquele dia, Manaus enfrentou condições críticas de qualidade do ar. Segundo a prefeitura, a concentração de partículas finas, conhecidas como PM2,5, ultrapassou 135 microgramas por metro cúbico, nível classificado entre os mais graves no índice regional de qualidade do ar.
A fumaça prejudicou a rotina da capital amazonense, que tem mais de 2 milhões de habitantes. Escolas foram fechadas, enquanto eventos públicos e competições esportivas infantis foram cancelados diante dos riscos à saúde da população.
Para Douglas Morton, cientista especializado em sistemas terrestres do Centro de Voos Espaciais Goddard, da NASA, os incêndios na região fazem parte de uma sequência de ocorrências associadas às alterações no regime de chuvas provocadas pelo El Niño. Esse padrão começa com períodos de seca e incêndios em áreas de turfa na Indonésia e, posteriormente, avança para partes da Amazônia.
O pesquisador e colegas de outras instituições já haviam descrito essa sequência em um estudo publicado em 2017, após a intensa temporada de incêndios registrada durante o El Niño de 2015 e 2016. O mesmo comportamento também foi observado em 2023. Neste ano, a sequência voltou a se repetir: a Indonésia enfrenta incêndios e fumaça desde agosto, com centenas de casas destruídas em outubro, enquanto os focos de queimadas começaram a se intensificar nos estados brasileiros do Pará e do Amazonas.
A previsão dos pesquisadores é que uma nova onda de incêndios alcance áreas mais ao norte em novembro e dezembro, incluindo Roraima, o norte do Pará e o Amapá, além de regiões da Venezuela, da Guiana e do Suriname. Mais adiante, entre agosto e setembro de 2027, o risco deverá atingir seu ponto mais elevado no sul da Amazônia, em áreas do Brasil e do Paraguai.
Morton afirma que a repetição dos incêndios preocupa especialmente porque algumas das florestas atingidas agora já sofreram queimadas em anos anteriores. Como a maioria das espécies da floresta tropical não está adaptada ao fogo, os danos ecológicos podem ser graves. Além disso, árvores parcialmente queimadas em temporadas anteriores podem ter deixado a vegetação mais degradada e suscetível a novos incêndios, favorecendo a propagação das chamas com maior intensidade.
Na região de Manaus e Santarém, os incêndios podem continuar até a chegada da estação chuvosa, esperada para dezembro de 2026 ou janeiro de 2027. Por isso, o cientista defende que medidas preventivas sejam adotadas desde já, principalmente para evitar queimadas que possam sair do controle.
Embora a Amazônia seja uma região úmida, a estiagem deste ano reduziu drasticamente as chuvas. Dados do Instituto Nacional de Meteorologia indicam que Manaus registrou, em agosto, um volume de precipitação 95% inferior à média habitual. Em setembro, a redução foi de 60%.
Segundo Morton, menos de 1% dos incêndios na Amazônia brasileira é provocado por raios. A maior parte tem origem humana. Muitos dos focos atuais começaram como queimadas controladas, utilizadas para limpar pastagens ou preparar áreas agrícolas, mas acabaram escapando e se espalhando pela vegetação seca no sub-bosque da floresta, a camada de plantas e árvores menores situada abaixo das copas mais altas.
O pesquisador Shane Coffield, da Universidade de Maryland e também ligado à NASA Goddard, estima que entre 50 e 70 incêndios fora de controle estejam queimando somente na região de Santarém. Com o uso de observações de satélite, ele identificou focos que não atingiram os critérios necessários para aparecer nos registros oficiais de monitoramento.
A análise apontou cerca de 40% mais incêndios na área de Santarém do que aqueles contabilizados pelas ferramentas convencionais de detecção de focos ativos. Segundo Coffield, fumaça densa, nuvens e a cobertura das copas das árvores podem bloquear os sensores infravermelhos dos satélites, dificultando a identificação das chamas. O problema é particularmente relevante nos incêndios de menor intensidade, que se espalham pela vegetação rasteira e podem permanecer ocultos sob a copa da floresta.
O pesquisador pretende compartilhar os locais desses focos adicionais com especialistas da rede MapBiomas, que reúne universidades, organizações não governamentais e empresas de tecnologia para mapear queimadas e mudanças no uso da terra na Amazônia.
Fonte: Portal AZ