Quem será o culpado depois de Lula?
A história do Brasil ajuda a compreender a disputa sobre mérito e fracasso
- Participe do nosso grupo de WhatsApp
- Participe do nosso grupo de Telegram
- Confira os jogos e classificação dos principais campeonatos
Há uma parte da história brasileira que costuma desaparecer quando a política é reduzida à disputa entre governos e adversários. Antes de Lula chegar à Presidência, em janeiro de 2003, o país já enfrentava problemas econômicos e sociais acumulados durante décadas. Conhecer esse passado não significa absolver governos, mas compreender de onde o Brasil partiu e o que mudou ao longo do tempo.
Entre 1985 e 1994, diferentes governos tentaram controlar a inflação com planos econômicos que não conseguiram resolver o problema de forma duradoura. O Plano Cruzado, lançado em fevereiro de 1986, perdeu eficácia; os planos Bresser, em 1987, e Verão, em 1989, também não estabilizaram os preços. Em março de 1990, o Plano Collor incluiu o bloqueio de ativos financeiros, uma medida que atingiu as economias de milhões de brasileiros.
A dimensão da crise pode ser medida pelos dados do Banco Central: em 1993, a inflação anual medida pelo IPCA chegou a 2.477,15%. O Plano Real, implantado durante o governo Itamar Franco, entrou em vigor em 1º de julho de 1994 e mudou esse quadro. A estabilização da moeda foi uma conquista anterior aos governos petistas e precisa ser reconhecida como parte da história econômica do país.
Fernando Henrique Cardoso assumiu a Presidência em 1995 e governou até 2002. Seu governo manteve a estabilidade monetária, mas enfrentou crises internacionais, dificuldades econômicas e problemas no mercado de trabalho. Segundo o Atlas Histórico do Brasil, da Fundação Getulio Vargas, o PIB cresceu 1,93% em 2002. Naquele ano, a renda média do trabalhador teve variação negativa de 0,6%, conforme a mesma publicação.
Foi nesse cenário que Lula assumiu a Presidência em 1º de janeiro de 2003. Durante seus dois primeiros mandatos, o Brasil registrou avanços sociais importantes, embora os resultados também tenham dependido da conjuntura econômica, das políticas públicas e de condições externas favoráveis em parte do período.
Um exemplo está nos indicadores de pobreza. Estudo publicado pelo Ministério do Desenvolvimento Social, com base na PNAD, apontou que a proporção de pessoas pobres caiu de 23,7% em 2003 para 8,2% em 2013, segundo a linha de pobreza adotada na pesquisa. A proporção de pessoas em extrema pobreza recuou de 8% para 3,3% no mesmo intervalo. Esses números documentam uma mudança expressiva nas condições de vida, embora devam ser interpretados conforme os critérios utilizados pelo estudo.
Os resultados não eliminam os problemas dos governos do PT, nem tornam dispensável a avaliação de suas decisões. Casos de corrupção, dificuldades fiscais, erros de gestão e resultados econômicos negativos precisam ser examinados com o mesmo rigor aplicado a qualquer administração. A história não pode ser usada apenas para celebrar conquistas ou selecionar fracassos.
É justamente por isso que a discussão sobre meritocracia exige coerência. Há quem atribua exclusivamente ao esforço individual o sucesso de uma pessoa e explique as dificuldades dos outros pela falta de empenho. Quando os próprios resultados não correspondem às expectativas, porém, a análise passa a incluir o governo, a economia e as circunstâncias.
O problema desse raciocínio está na aplicação desigual dos critérios. O esforço individual importa, mas as oportunidades não são distribuídas igualmente. A qualidade da educação, a renda familiar, o acesso ao emprego e as condições econômicas influenciam o percurso de cada pessoa. Reconhecer esses fatores não significa negar a responsabilidade individual; significa avaliar os resultados sem ignorar as condições em que foram produzidos.
Também é preciso separar a responsabilidade de um governo da responsabilidade pessoal. Um presidente deve responder pelas decisões de sua administração, e a oposição tem o dever de fiscalizá-las. Mas atribuir todos os problemas nacionais a Lula, assim como atribuí-los integralmente a qualquer outro governante, impede a compreensão das causas e das responsabilidades envolvidas.
A pergunta, então, permanece: quando Lula deixar de ocupar o centro da política brasileira, quem será responsabilizado pelas frustrações de seus adversários? Os Bolsonaro? Nikolas Ferreira? O próximo presidente? Outro partido?
A mudança de liderança não apaga a história nem resolve, por si só, os problemas econômicos e sociais. O Brasil de antes de Lula tinha dificuldades concretas; o país que surgiu depois de seus primeiros mandatos também acumulou avanços, crises e contradições. Uma avaliação séria precisa considerar esse conjunto, sem transformar a memória em instrumento de propaganda.
Quem defende a meritocracia deve estar disposto a examinar tanto o esforço quanto as condições que influenciam os resultados. E quem critica um governo precisa demonstrar quais decisões produziram determinado efeito, em vez de atribuir a um único nome tudo o que desagrada.
A história brasileira oferece dados para reconhecer mudanças e identificar erros. O que ela não permite é substituir a análise por um culpado permanente. Se Lula deixar de ser o alvo preferencial, a pergunta continuará válida: os críticos estarão dispostos a examinar as causas dos problemas com o mesmo rigor que exigem dos outros?
Fonte: Portal AZ