Lixão em São Raimundo Nonato configura crime contra o meio ambiente
Ministério Público deve agir de imediato para evitar maiores prejuízos para o município
A gestão da jovem prefeita Carmelita de Castro Silva, 52 anos, uma das maiores lideranças do Progressistas no município de São Raimundo Nonato (525 km de Teresina), já foi comparada com uma maquiagem: quando as ruas e praças da cidade são pintadas, iluminadas e limpas, além do lixo ser regularmente recolhido na zona urbana. Tudo fica bonito.
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Lixão em São Raimundo Nonato configura crime contra o meio ambiente (Foto: André Pessoa)
O problema começa quando a maguiagem vai se apagando até ficar borrada. Aí a verdade vem à tona e o que parecia exemplar se transforma numa vergonha. Pior. Até mesmo em crime contra o meio ambiente colocando humanos que sobrevivem do trabalho no lixão em riscos.
Procurado pela população que fez uma série de denúncias, nossa reportagem esteve ontem (17-08-2020), in loco, no lixão, ou como a Prefeitura prefere chamar, Aterro Sanitário de São Raimundo Nonato, na zona rural, proximidades do Morro do Mel.
Ministério Público deve agir de imediato para evitar maiores prejuízos para o município (Foto: André Pessoa)
Escândalo
A situação no local é vergonhosa, criminosa, absurda e revoltante. Exige de forma imediata que o Ministério Público, através da Promotoria do Meio Ambiente, faça algo com urgência. A situação é tão calamitosa que seria o caso de uma interdição imediata. Crimes estão em andamento no local.
O chamado “Aterro Sanitário”, que na verdade não passa de um lixão à céu aberto, é um escândalo pedindo para ganhar destaque. Literalmente aberto, sem porteira, sem nenhum controle de quem entra ou sai. Caprinos, ovinos e equinos se alimentam do lixo livremente ao lado de humanos que recolhem reciclados.
As cercas do local, forradas por sacos de lixo, se transformaram num estandarte do descaso, da inoperância administrativa e da forma criminosa como o meio ambiente vem sendo tratado em São Raimundo Nonato.
(Foto: André Pessoa)
Os humanos que trabalham e sobrevivem da coleta do lixo parecem zumbis, largados a própria sorte. No local não existe um ponto de apoio para os trabalhadores, uma sombra, uma guarita, água para consumo humano, sequer a Prefeitura disponibiliza um banheiro, nem mesmo um desses banheiros químicos, ao contrário, ao sentir necessidade fisiológica os trabalhadores, homens, mulheres e crianças correm para o mato.
Até hoje a Prefeitura, apesar das inúmeras promessas, não instalou um galpão no local para a separação do material reciclado, o maior desejo, sonho e esperança dos trabalhadores.
(Foto: André Pessoa)
O descaso e até mesmo os crimes se repetem de forma escancarada. Nenhum trabalhador usa EPI’s (Equipamentos de Proteção Individual), muito menos máscaras ou luvas, mesmo em período de pandemia. A Prefeitura se mantém totalmente ausente do local. Nem fiscal nem vigia trabalham na área.
Os caminhões que recolhem o lixo em São Raimundo Nonato simplesmente chegam, derramam os entulhos e vão embora. Tudo sem o menor critério, sem controle, sem fiscalização, sem orientação. Os veículos chegam, escolhem a vala, despejam os dejetos e vão embora.
Até mesmo o lixo hospitalar está sendo misturado com o lixo cotidiano. “Antes tinha uma vala para o lixo dos hospitais, hoje fica tudo misturado”, diz o presidente da Cooperativa Ecológica dos Catadores de Materiais Reciclados do Morro do Mel (Copereco), Ronivaneri Soares.
(Foto: André Pessoa)
Soares acusa o secretário municipal do meio ambiente, André Landim, de descaso e falta de respeito com os trabalhadores. “Tem três anos que eles prometem construir o galpão e nada. Criamos a Cooperativa, tiramos o CNPJ, doamos o terreno e a Prefeitura vem só enganando nossos associados”, disse o presidente da Cooperativa.
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A professora da Universidade Federal do Vale do São Francisco, campus Serra da Capivara, Fátima Barbosa, até tentou mobilizar os seus alunos para fazer um projeto no lixão.
Entusiasmada com o “apoio” e trabalho do secretário municipal do Meio Ambiente, André Landim (Progressistas), que é biólogo por formação, eles estiveram no lixão elaborando mil planos. No entanto, mais de 1 ano depois nada saiu do papel, ou pelo menos não chegou no lixão.
Ao contrário, a UNIVASF como instituição educacional e independente agora se vê envolvida como cúmplice indireta de um crime ambiental de graves proporções. Fátima Barbosa chegou inclusive a defender o secretário em redes sociais e grupos de WhatsApp, quando o mesmo estava sendo acusado de desleixo com a questão sanitária em São Raimundo Nonato.
Lixo na rodovia
Para quem deixa São Raimundo Nonato em direção a Caracol ou chega em São Raimundo vindo de São Braz, a cena é constrangedora. Da entrada do povoado do Fechadão até a entrada do povoado Pé do Morro, a rodovia é a cara da atual administração. O lixo está espalhado de um lado e outro da estrada. Parece uma decoração sinistra que mostra como a questão do lixo é tratada no município.
Do que adianta recolher o lixo na zona urbana se no transporte parte da carga vai ficando no meio do caminho? De que adianta fazer propaganda que a cidade é limpa se, ao sair da zona urbana, o lixo toma conta do município?
Desinteresse político
Mesmo Carmelita Castro sendo irmã da deputada federal Margarete Coelho (PP), parece que nada adiantou. Mesmo Castro sendo irmã da atual secretária estadual do Meio Ambiente, Sádia Castro, nada mudou. Carmelita é cônjuge do secretário de Transportes do Piauí e deputado estadual Hélio Isaías, também de nada serviu. O senador Ciro Nogueira, réu no STF, líder do Centrão e presidente nacional do Progressistas, parece que também não se interessou pelo caso. E, para finalizar, até o governador Wellington Dias (PT), aliado de Carmelita não teve competência para resolver esse drama.
Enquanto isso, mesmo com toda essa força política, Carmelita Castro se vê chamuscada com as cinzas desse novo escândalo. Suja de lixo com tanta podridão. Envergonhada ao perceber que a maquiagem, por melhor que seja, uma hora desaparece e fica a realidade.
Desde que a irmã da prefeita de São Raimundo Nonato, jornalista Sádia Castro assumiu a Secretaria Estadual do Meio Ambiente (SEMAR), o município passou à receber quase R$ 1 milhão por mês de ICMS ecológico, quando a questão da destinação do lixo é um pré-requisito para receber esses recursos.
Privatização do lixo
Poucas pessoas de São Raimundo Nonato sabem, mas a coleta do lixo foi “privatizada” pela Prefeitura de São Raimundo Nonato. Por essas coincidências da política, a empresa que ganhou o certame é de Oeiras, mesma cidade do marido da prefeita. Só coincidência mesmo. O valor do contrato até hoje não teve publicidade. Nem mesmo o nome da empresa é conhecida. Só se sabe que parte da coleta é feita por funcionários do município e outra parte por essa empresa, inclusive vários caminhões coletores não pertecem a São Raimundo Nonato, mas sim a empresa de Oeiras. Existem denúncias ainda não confirmadas que, apesar do recolhimento do lixo ser privatizado, a Prefeitura paga todas as despesas da empresa em SRN, do abastecimento dos veículos a gratificações.
Demissão
Depois de tamanho escândalo não resta outra alternativa ao atual secretário municipal de Meio Ambiente, André Landim, renunciar ao cargo. Ficou vergonhoso para a sua história. Hoje, André é um secretário no papel, ganha salário, mas não resolve as principais questões ambientais de São Raimundo Nonato. Ao contrário, de cidade turística agora São Raimundo Nonato passa a ser conhecida como a cidade do escândalo do lixo.