Daniel Ortega declara que não haverá mais eleições na Nicarágua
Há quase 20 anos no poder, ditador afirma que não permitirá que a oposição capture o governo.
O líder da Nicarágua, Daniel Ortega, afirmou que o país não voltará a realizar eleições que permitam à oposição conquistar o governo. A declaração foi feita no domingo (21), durante um evento em Manágua que marcou o 47º aniversário da Revolução Sandinista.
"Não voltará a haver eleições para que por aí tentem eles capturar o governo, capturar o poder", declarou Ortega, ao se referir aos opositores que vivem no exílio. Segundo ele, o governo pretende trabalhar com o Parlamento e outras instituições para criar leis que impeçam a atuação de adversários políticos.
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A Nicarágua é governada por Ortega desde 2007. O ex-guerrilheiro sandinista, de 80 anos, divide o comando do país com a esposa, Rosario Murillo, de 75 anos. Em fevereiro de 2025, uma reforma constitucional estabeleceu a figura de copresidente, cargo atribuído a Murillo.
Durante o discurso, Ortega também acusou opositores de buscar o poder para obter benefícios financeiros e afirmou que eles não conseguirão retornar ao governo com apoio dos Estados Unidos.
A declaração ocorre em meio a um cenário de forte concentração de poder nas mãos do casal Ortega-Murillo. A reforma constitucional aprovada em 2025 ampliou o período presidencial de cinco para seis anos, criou a copresidência e alterou a estrutura institucional do país. A medida também deu ao governo maior controle sobre os demais órgãos estatais.
Com as mudanças, o calendário eleitoral da Nicarágua também foi alterado. As eleições gerais, inicialmente previstas para novembro de 2026, foram adiadas para 2027 em razão da ampliação do mandato presidencial. Agora, a declaração de Ortega coloca em dúvida a realização de um processo eleitoral capaz de permitir uma eventual alternância no poder.
O governo nicaraguense é alvo de críticas de organizações internacionais e de países que questionam a condução política do país. Em janeiro, o Departamento de Estado dos Estados Unidos afirmou que a criação do cargo de copresidente não teria resultado de uma eleição e acusou o governo de buscar impedir uma disputa eleitoral livre.
As relações entre Nicarágua e Brasil também se deterioraram nos últimos anos. Em 2024, Ortega expulsou o embaixador brasileiro do país. Em resposta, o governo brasileiro determinou a saída da embaixadora nicaraguense.
A reforma constitucional também criou uma força denominada "polícia voluntária", apresentada pelo governo como órgão auxiliar das forças de segurança. A oposição, porém, afirma que o grupo pode atuar como uma estrutura paramilitar voltada à repressão de dissidentes.
A situação dos direitos humanos também permanece no centro das críticas ao governo. Em maio, o líder indígena Brooklyn Rivera morreu após quase três anos de prisão. Ex-deputado e dirigente do partido indígena Yatama, Rivera foi detido em setembro de 2023. Segundo organizações internacionais, as acusações contra ele não foram divulgadas publicamente.
Entidades como a Human Rights Watch afirmam que há dezenas de presos políticos na Nicarágua. Organizações de defesa dos direitos humanos também denunciam a retirada da cidadania de centenas de pessoas e o fechamento de milhares de organizações não governamentais, além de universidades e veículos de comunicação.
Fonte: Dw