Separar o Brasil? Melhor entregar a lua aos lunáticos
Proposta separatista após vitória de Lula expõe a dificuldade de aceitar as diferenças políticas
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais voltou a expor uma dificuldade preocupante da política brasileira: aceitar que o resultado das urnas não precisa corresponder às preferências de todos. Em vez de reconhecer a alternância de poder como parte da democracia, há quem prefira alimentar ressentimentos e transformar divergências eleitorais em projetos de ruptura nacional.
É nesse contexto que o deputado Bruno Souza, do PL de Santa Catarina, defende a realização de um plebiscito sobre a independência da Região Sul. A proposta foi noticiada pelo InfoMoney, em reportagem de Marina Verenicz publicada em 26 de outubro de 2026, sob o título “Deputado quer separar Sul do Brasil após vitória de Lula; proposta é constitucional?”. O parlamentar sustenta que diferenças políticas e de valores justificariam consultar a população sobre a separação regional.
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A ideia, porém, esbarra na Constituição e no próprio sentido de pertencimento nacional. O artigo 1º da Constituição Federal estabelece a união indissolúvel dos estados, municípios e do Distrito Federal. Uma consulta popular regional não tem poder para romper esse vínculo. O direito de defender mudanças políticas não significa que qualquer projeto possa ser executado à margem das regras constitucionais.
O mais inquietante é a motivação política atribuída à iniciativa. Desde quando a escolha de um presidente autoriza alguém a questionar a unidade territorial de um país? O eleitor pode apoiar Lula, Bolsonaro ou qualquer outro candidato, mas nenhum resultado eleitoral transforma uma região em propriedade de um grupo político. O Brasil não é um condomínio no qual os moradores insatisfeitos podem levar consigo uma parte do território.
As diferenças entre o Sul e o Nordeste, assim como entre quaisquer outras regiões brasileiras, existem e merecem ser compreendidas sem preconceitos. São diferenças históricas, econômicas, culturais e sociais, não justificativas para alimentar hostilidades. A identidade nacional foi construída por gerações de brasileiros que, mesmo com interesses distintos, compartilham uma história comum. Reduzir essa complexidade à preferência eleitoral é uma demonstração de pobreza política.
Aos que insistem em dividir o país porque não aceitam a vontade expressa nas urnas, talvez a melhor sugestão seja outra: entreguemos a Lua aos lunáticos. Lá poderão desenhar fronteiras imaginárias e fundar repúblicas à medida de suas próprias convicções, sem pretender transformar frustrações eleitorais em projetos de desagregação nacional.
O Brasil continua lindo como está, com suas contradições, sua diversidade e a pluralidade de seu povo. Não precisa ser repartido para acomodar a intolerância de quem confunde adversários com inimigos. Uma democracia exige mais do que vencer eleições: exige compreender que o país permanece sendo de todos, inclusive daqueles que votaram no candidato derrotado. Quem não aceita essa realidade deveria rever suas ideias sobre democracia, em vez de tentar mudar o mapa do Brasil.
Fonte: Portal AZ