O que restou do Bolsonarismo

A política nacional vive como um epifenômeno reativo à esquerda

O fenômeno político representado por Jair Bolsonaro ainda provoca debates intensos sobre sua real dimensão e seu futuro. Há quem aposte em sua dissolução, reduzindo-o a uma “anomalia” da história republicana; outros o enxergam como ameaça latente às instituições. Mas, passados mais de dois anos do fim do governo, o que de fato sobrevive do bolsonarismo?

Foto: ReproduçãoJair Bolsonaro
Jair Bolsonaro

O equívoco das análises apressadas está em tratá-lo apenas como a biografia de um presidente ou como a narrativa de um mandato turbulento. O bolsonarismo, na verdade, consolidou-se como algo mais profundo: uma mentalidade social, uma intelectualidade alternativa e uma força política organizada. Esses três aspectos explicam por que o movimento sobrevive à figura de seu líder e se projeta como parte estrutural do debate brasileiro contemporâneo.

O bolsonarismo como mentalidade

O primeiro legado do bolsonarismo é de ordem subjetiva, mas não menos política: uma mentalidade coletiva. Ao contrário do que ocorreu em ciclos anteriores, como o lulismo — marcado pela promessa de ascensão social via consumo —, o bolsonarismo instaurou uma atitude de desconfiança permanente em relação ao establishment político, midiático e judicial.

Trata-se de uma forma de resistência. Resistência ao monopólio da esquerda sobre a moralidade pública, resistência ao controle da linguagem e à imposição do “politicamente correto” como filtro de legitimidade social. Para milhões de brasileiros, a experiência do bolsonarismo significou a ruptura com o estado anterior de obediência às narrativas oficiais.

Mesmo com derrotas institucionais e com a perseguição judicial a lideranças ligadas ao movimento, essa mentalidade persiste. O eleitor que incorporou essa visão não retorna facilmente ao conformismo. Ao contrário, tornou-se permanentemente crítico às versões oferecidas pela grande imprensa, pelo Supremo Tribunal Federal e pela burocracia estatal. Essa disposição crítica é o que sustenta a ideia de que a democracia deve significar, antes de tudo, voz real ao povo — e não a submissão passiva ao sistema.

O bolsonarismo como intelectualidade

A segunda dimensão do fenômeno é a mais subestimada. Costuma-se acusar o bolsonarismo de anti-intelectualismo, como se fosse expressão apenas de ressentimento e irracionalidade política. No entanto, o que ocorreu foi a formação de uma intelectualidade paralela, deslocada do eixo tradicional das universidades.

Enquanto a esquerda consolidou sua influência por meio da academia e de organismos culturais, o bolsonarismo construiu uma rede de ideias vindas das redes sociais, dos púlpitos religiosos, dos quartéis e até das conversas cotidianas. Autores antes restritos a círculos eruditos — como Olavo de Carvalho, Roger Scruton, Friedrich Hayek, Thomas Sowell — foram traduzidos em linguagem acessível e incorporados ao vocabulário de uma parcela significativa da sociedade.

Essa é uma intelectualidade orgânica, de caráter insurgente, que não depende de currículos acadêmicos ou de chancela editorial para se legitimar. Seu critério de validade é a capacidade de mobilizar consciências, oferecer um contraponto ao pensamento único e fornecer ferramentas conceituais para o debate público. Trata-se, em última instância, de um deslocamento do centro de gravidade cultural: uma produção de sentido que escapa aos espaços tradicionais de consagração.

O bolsonarismo como política

O terceiro aspecto é o mais visível: o bolsonarismo como força política. Apesar das tentativas de deslegitimação e das derrotas judiciais impostas a Jair Bolsonaro, o movimento segue sendo a maior oposição organizada do país. A referência ao ex-presidente permanece central, mas o movimento sobrevive porque se ancora em valores que transcendem sua liderança pessoal: defesa da família, patriotismo, combate à corrupção, liberdade de expressão, crítica ao globalismo, apoio às Forças Armadas e fé cristã.

No plano institucional, sua força já foi demonstrada em bancadas expressivas no Congresso, em governadores eleitos e em prefeitos influentes. No plano extra-institucional, mantém vigor nas ruas e nas redes sociais, consolidando-se como movimento de massa que não depende exclusivamente de cargos públicos. É uma política que resiste nas margens do poder formal, mas que se mantém central no debate público nacional.


A história das ideias e a ideologia 

O que restou do bolsonarismo não são vestígios ou resquícios, mas um legado ativo. A esquerda tentou reduzi-lo a um episódio transitório, mas, ao confrontá-lo com perseguições e tentativas de criminalização, acabou por reforçar sua identidade.

Se o lulismo pode ser descrito como um ciclo de inclusão pelo consumo, o bolsonarismo representa um ciclo de resistência pelo espírito. E esse espírito é mais difícil de capturar ou dissolver. Ele não se encerra em sentenças judiciais nem se limita a derrotas eleitorais. Permanece como mentalidade popular, como intelectualidade paralela e como força política organizada.

Independentemente de se gostar ou não do fenômeno, ignorar sua persistência seria um erro de análise. O bolsonarismo sobrevive porque tocou dimensões profundas da sociedade brasileira: o desejo de autonomia frente ao establishment, a busca por novos referenciais intelectuais e a necessidade de uma alternativa política consistente. Mais do que um acidente, tornou-se parte do cenário estrutural da democracia brasileira.

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