Escola de samba carioca homenageia a escrava piauiense Esperança Garcia

Depois de sua morte, Esperança recebeu o título da OAB-PI de primeira advogada do Estado

Por Adriana Oliveira,

A escola de samba Mangueira, que desfilou na noite desta terça-feira (05), levou para a avenida no Carnaval do Rio de Janeiro, a trajetória da escrava piauiense Esperança Garcia. Esperança escreveu uma das cartas de denúncias de maus-tratos contra negros mais antigas da história do Brasil. 

A denúncia foi escrita em 1770 e entregue ao governador da província do Piauí, onde resultou na libertação de inúmeros escravos. Depois de sua morte, Esperança Garcia recebeu o título da Ordem dos Advogados do Piauí (OAB) de primeira advogada do Piauí. 

A primeira advogada piauiense foi retratada pela rainha de bateria da Mangueira, Evelyn Bastos, que levou o estandarte de ouro do grupo especial. 

Memorial 

O Memorial Zumbi dos Palmares passou a chamar Esperança Garcia, ganhou ampla reforma e modernização. Além de adequação das salas para funcionamento de várias oficinas, o local serve como ponto de visitação e referência da cultura negra. O muro também foi grafitado com frases e fotos de grandes personalidades.

Esperança Garcia( Foto: Ícones da História) 

O novo nome do espaço faz homenagem à Esperança Garcia, escrava piauiense que viveu na região de Oeiras no século XVIII. Aprendeu a ler e a escrever com os padres jesuítas e escreveu uma carta ao governador da província denunciando os maus tratos que sofria. Na entrada do memorial, a imagem de Esperança Garcia foi grafitada junto com o texto da sua carta original. A obra custou R$ 104 mil do tesouro estadual e foi feita sob os cuidados da equipe da Coordenação de Registro e Conservação da Secult.

Memorial Esperança Garcia( Foto:divulgação) 

O Memorial Zumbi dos Palmares foi inaugurado no dia 25 de julho de 2007. A antiga Unidade Escolar Domingos Jorge Velho, pertencente na época à Secretaria de Educação do Estado, foi totalmente restaurada, com o objetivo de ser um espaço de divulgação e difusão da cultura negra. Hoje é coordenado pela Secretaria Estadual de Cultura – Secult e pelo Conselho Administrativo do Memorial, formado por entidades do movimento negro, organizações governamentais e sociedade civil.

Carta Versão léxico atualizado:

“Eu sou uma escrava de V.Sª. administração de Capitão Antonio Vieira de Couto, casada. Desde que o Capitão lá foi administrar, que me tirou da Fazenda dos Algodões , onde vivia com meu marido, para ser cozinheira de sua casa, onde nela passo tão mal. A primeira é que há grandes trovoadas de pancadas em um filho nem, sendo uma criança que lhe fez extrair sangue pela boca; em mim não posso explicar que sou um colchão de pancadas, tanto que caí uma vez do sobrado abaixo, peada, por misericórdia de Deus escapei. A segunda estou eu e mais minhas parceiras por confessar a três anos. E uma criança minha e duas mais por batizar. Pelo que peço a V.Sª. pelo amor de Deus e do seu valimento, ponha aos olhos em mim, ordenando ao Procurador que mande para a fazenda onde ele me tirou para eu viver com meu marido e batizar minha filha.

De V.Sª. sua escrava, Esperança Garcia”

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