Em Teresina, ato de solidariedade ao Museu Nacional alerta para necessidade da preservação

O ato contou com estudantes, professores e pessoas sensibilizadas pela atual situação da falta de investimentos

Por Jade Araújo,

Fotos: Wilson Nanaia / Portal AZ

No Rio de Janeiro, diversas pessoas acompanharam as chamas consumindo a memória do mundo quando o prédio do Museu Nacional pegava fogo. Dois dias depois, em Teresina, um abraço no Museu de Arqueologia e Paleontologia da Universidade Federal do Piauí (UFPI) simbolizava uma perca sentida por todos. 

O ato em solidariedade ao Museu Nacional realizado nessa manhã (04) no Museu da UFPI foi também um espaço de conversas onde diversos membros da academia, alunos e apoiadores da causa puder am compartilhar opiniões sobre os problemas enfrentados no Brasil com relação à preservação da nossa memória. 

A perca sentida em todo Brasil despertou nos organizadores do ato um ponto de reivindicação para que o poder público possa abrir os olhos para os problemas que pesquisadores e arqueólogos sempre sofreram: a falta de investimentos. Uma das organizadoras do ato, a professora do Curso de Arqueologia da UFPI, Joina Freitas Borges, destacou a cultura como um ponto de importante na formação e preservação do que somos. 

- Emocionalmente tá todo mundo consternado mesmo. É um patrimônio, documentos, é uma história. Não tem a reconstrução que estão falando, não existe, é insubstituível. Se foi. A sensação é de luto e um luto que será revertido em alguma coisa. Não vamos ficar chorando, parados. Do luto vamos transformar no verbo lutar. E essa luta é por mais verbas, mais investimentos. Cultura não é supérfluo.

Um povo sem cultura é um povo fácil de acontecer o que aconteceu. Sermos manipulados, ficar sem educação, sem saúde, sem segurança, a cultura tem tudo isso envolvido. No país com tantas deficiências, a cultura também é uma deficiência e temos que lutar para aprendermos a valorizar nossas tradições e patrimônios. Se não vai acabar tudo. Está acabando. 

Entre muitas pessoas emocionadas no ato, uma delas tinha um nome e um sentimento especial. Luzia Carvalho é formada em Arqueologia pela UFPI e hoje é estudante de Mestrado na área na própria universidade. Estudante da área há oito anos, ela é uma das pessoas que acompanhou o processo de construção do atual museu da universidade. Mas antes disso, ela já vivia a experiência da falta de investimento aos patrimônios da humanidade. 

- Em questão de arqueologia, o museu do Homem Americano, que pouca gente conhece, é um museu de primeiro mundo. Fizemos estágios lá e vimos o sofrimento que a Niéde Guidon passou para estruturar o museu, para manter o museu. A maioria das pessoas não sabem que temos um museu de arqueologia com um acervo a disposição. É uma situação precária. Essa queima do Museu nacional destruiu parte da nossa identidade. Um acervo que era patrimônio da humanidade. Não era só nosso. E o que mais dói é saber que o ancestral mais antigo das Américas, a Luzia, foi junto. O meio ambiente preservou a Luzia intacta por 12 mil anos. Nós não conseguimos preservar por um século. Isso é vergonhoso. 

O ato contou ao final com um abraço, onde diversas pessoas deram as mãos e se posicionaram no entorno do Museu de Arqueologia e Paleontologia da Universidade Federal do Piauí (UFPI) uma das grandes conquistas da área dentro do estado. 

Alerta!

Museu, teatros, os casarões e o arquivo público em Teresina são parte da identidade cultural da cidade. Com uma espécie de alerta a professora Joina Freitas, destaca a necessidade de mais investimentos também no Estado para que situações como a do Museu Nacional não aconteçam também aqui. 

- A maioria absoluta, se não quase a totalidade, dos museus no Brasil não conseguem atender as normas de segurança. Não conseguem ter verbas para fazer os restauros necessários. Então assim, pode acontecer a qualquer momento. Todos os dias estamos perdendo esse patrimônio de outras formas. As crianças, os jovens se quer tem conhecimento do que a gente tem porque isso é desvalorizado. Então qual é a autoestima como piauiense que a gente vai construir se a gente não valoriza o que é nosso? Que povo sem autoestima consegue lutar por direito a educação, segurança, por direito a qualquer coisa? Nós não precisamos de mais armas, precisamos de mais cultura, mais arte. 

Próximos atos

Na tarde desta terça (04), o Museu de Arqueologia e Paleontologia da UFPI recebera uma mesa redonda sobre Museu e Memórias, às 14h. Pela cidade, outros movimentos acontecerão. Em comemoração aos 124 anos do Teatro 4 de Setembro, Luzia Amélia apresentará o espetáculo de dança “Luiza” (2013), inspirando no crânio de mesmo nome, encontrado nos sítios arqueológicos de Lagoa Santa-MG e danificado pelo fogo no Museu Nacional. No dia 7 de setembro, um ato denominado “o grito dos excluídos” estará na Avenida da Boa Esperança. Tanto a apresentação de Luzia como o ato da Avenida Boa Esperança já estavam planejados e serão agora símbolo da luta por melhores condições de preservação da memória. 

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