Mercado prevê corte de juros, mas vê cenário incerto para os próximos meses

Copom deve reduzir a Selic em 0,25 ponto percentual, mas eleições, clima e petróleo dificultam projeções.

Por Redação do Portal AZ,


O mercado financeiro considera praticamente certa uma redução de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para terça-feira (15) e quarta-feira (16). Dados da B3 apontam probabilidade de 94,25% para o corte. Apesar da expectativa consolidada, economistas avaliam que o cenário para os próximos meses permanece incerto, diante das eleições de 2026, dos efeitos climáticos sobre os preços dos alimentos e das cotações do petróleo em meio às tensões no Oriente Médio.

Foto: Marcello Casal Jr/Agência BrasilBanco Central

A perspectiva de redução dos juros ocorre em um momento de sinais de desaceleração da economia brasileira. O Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre apresentou uma composição considerada fraca, com queda inesperada de 0,4% no consumo das famílias. A inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) também perdeu força em agosto, acompanhada por melhora de alguns núcleos e dos preços industriais.

Para o economista Claudio Ferraz, da Galapagos Capital, os dados sustentam a expectativa de corte de 0,25 ponto percentual nesta semana. O cenário, porém, não garante a continuidade da redução dos juros nas reuniões seguintes. Segundo ele, a deterioração das expectativas de inflação, especialmente para 2027, pode levar o Banco Central a interromper o ciclo para avaliar os efeitos das medidas adotadas.

A equipe da 4Intelligence também considera que há espaço para uma redução dos juros, mas avalia que a continuidade do movimento dependerá da consolidação da desinflação, do comportamento das expectativas e da evolução dos riscos internos e externos.

Economistas divergem sobre os próximos passos
A possibilidade de novos cortes depois da reunião de setembro divide as avaliações do mercado. Parte dos economistas espera que o Banco Central interrompa o ciclo de redução da Selic e mantenha os juros em 13,75% ao ano até o fim de 2026.

Essa é a projeção de Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados. Para ele, o Banco Central deve adotar uma postura de espera diante das incertezas relacionadas às eleições e ao futuro das contas públicas.

Felipe Salles, economista-chefe do C6 Bank, também prevê uma Selic de 13,75% ao fim do ano e avalia que a taxa deve permanecer nesse nível nas últimas reuniões de 2026. Augusto Parente, especialista em investimentos e sócio-fundador da AW Capital, igualmente trabalha com a possibilidade de um corte seguido por uma pausa.

Na avaliação desses economistas, o Banco Central deverá observar tanto os indicadores domésticos quanto o ambiente internacional antes de decidir pela retomada das reduções. O cenário externo inclui conflitos geopolíticos e mudanças nas políticas monetárias de outros países.

O Itaú também considera que o ambiente exige cautela. O banco avalia que as expectativas de inflação não pioraram recentemente, mas continuam acima da meta perseguida pelo Banco Central. Ao mesmo tempo, a pressão sobre os juros nos Estados Unidos e a escalada das tensões no Oriente Médio aumentam a volatilidade dos mercados e dos preços do petróleo.

Outra parcela do mercado, no entanto, vê espaço para que o ciclo de redução continue ainda neste ano.

Jeferson Bittencourt, head de macroeconomia do ASA, avalia que os indicadores recentes de atividade econômica permitem a continuidade dos cortes. A instituição passou a projetar reduções de 0,25 ponto percentual até o fim de 2026, levando a Selic para 13,25% ao ano.

Arnaldo Lima, economista da Polo Capital, também espera mais um corte em novembro, além da redução prevista para setembro. Nesse cenário, a taxa básica terminaria 2026 em 13,5% ao ano.

Para Lima, as futuras decisões sobre a política fiscal e as regras de reajuste do salário mínimo terão papel importante na trajetória dos juros em 2027. A projeção da Polo Capital é de que a Selic termine aquele ano em 11,5%.

Entre os principais fatores de incerteza no cenário doméstico está a situação das contas públicas. A preocupação com a sustentabilidade fiscal mantém os juros de longo prazo pressionados e pode limitar o espaço para uma redução mais rápida da Selic.

Bittencourt avalia que uma definição mais clara sobre o cenário fiscal deverá ocorrer somente após as eleições, quando o próximo governo apresentar suas primeiras medidas e prioridades econômicas. Segundo ele, os candidatos ainda não detalharam propostas capazes de enfrentar a pressão provocada pelas despesas obrigatórias.

Arnaldo Lima também considera que o resultado eleitoral poderá determinar mudanças importantes na condução da política econômica. Entre as possibilidades estão alterações nas regras fiscais, mudanças na política de valorização do salário mínimo e uma eventual revisão do tratamento dado às despesas com saúde e educação.

Além da política fiscal e das eleições, o comportamento dos preços dos alimentos também preocupa os economistas. A possibilidade de ocorrência de um El Niño forte chegou a 97%, segundo as estimativas citadas no mercado, aumentando a preocupação com os efeitos do fenômeno climático sobre a produção agrícola.

Hortaliças e outros produtos de ciclo curto estão entre os itens mais suscetíveis aos impactos das condições climáticas. Para Claudio Ferraz e Arnaldo Lima, esses fatores podem contribuir para manter a inflação pressionada ao longo do ano.

As projeções citadas pelos economistas apontam para um IPCA de 5,2% no encerramento de 2026, acima da meta de inflação.

Petróleo acrescenta pressão ao cenário internacional
No exterior, a escalada das tensões no Oriente Médio tornou o comportamento do petróleo um dos principais riscos para a economia brasileira. As cotações chegaram ao patamar de US$ 100 por barril, criando pressão adicional sobre as projeções de inflação no curto prazo.

O cenário também é influenciado pela reprecificação das curvas de juros nas principais economias, especialmente nos Estados Unidos. A combinação de petróleo mais caro, juros internacionais e conflitos geopolíticos pode provocar maior volatilidade nos mercados emergentes.

Para o Brasil, uma alta prolongada do petróleo pode pressionar combustíveis e outros preços, dificultando o trabalho do Banco Central no controle da inflação.

Banco Central deve manter comunicação cautelosa
Diante das incertezas, a expectativa entre os economistas é de que o Copom adote uma comunicação cuidadosa após a reunião desta semana, sem indicar antecipadamente os próximos passos da política monetária.

A avaliação predominante é de que o Comitê deverá manter a percepção de que os riscos para a inflação são maiores no sentido de alta. Ao mesmo tempo, a autoridade monetária tende a reforçar que suas decisões dependerão da evolução dos indicadores econômicos.

Fonte: Infomoney

Fonte: Infomoney

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