Ideb: números e a realidade das escolas piauienses

Avanços convivem com desafios estruturais

Por Márcio Felipe,

Os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2025 consolidaram o Piauí e Teresina entre os destaques nacionais da educação pública. Segundo dados oficiais divulgados em 5 de agosto de 2026 pelo Ministério da Educação (MEC) e pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), a rede municipal de Teresina alcançou nota 6,9 nos anos iniciais do ensino fundamental, dividindo a liderança entre as capitais brasileiras, e 5,9 nos anos finais, ocupando a primeira colocação nesse segmento. No âmbito estadual, o Piauí registrou nota 5,0 no ensino médio, ficando atrás apenas do Paraná (5,1) e acima da média nacional, de 4,5.

Foto: ReproduçãoOk

Os resultados justificam reconhecimento. Mas eles refletem, por si só, a realidade encontrada diariamente nas escolas públicas? Essa é uma pergunta que merece ser feita antes de qualquer conclusão.

Criado em 2007 pelo Inep, o Ideb é considerado o principal indicador da educação básica brasileira. Seu cálculo combina o desempenho dos estudantes no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) com os indicadores de fluxo escolar, especialmente as taxas de aprovação. Trata-se de uma ferramenta importante para acompanhar a evolução da educação, mas que possui limitações metodológicas. O índice não mede fatores como infraestrutura das escolas, acesso à internet, disponibilidade de recursos pedagógicos, condições de trabalho dos profissionais, inclusão escolar, saúde mental ou o contexto socioeconômico em que vivem os estudantes.

Por isso, interpretar o Ideb apenas pela posição ocupada em rankings nacionais pode conduzir a uma leitura incompleta da realidade.

Os números mostram que a educação piauiense avançou. Entretanto, eles não significam que os problemas históricos da rede pública tenham sido superados.

Quem acompanha o cotidiano das escolas encontra uma realidade que nem sempre aparece nas estatísticas. Ainda existem unidades com limitações na infraestrutura, dificuldades de acesso à internet de qualidade, insuficiência de equipamentos tecnológicos e carência de espaços adequados para o desenvolvimento das atividades pedagógicas.

As equipes pedagógicas também convivem com obstáculos diários. Em algumas escolas, coordenadores e pedagogos não dispõem de salas apropriadas para atendimento individualizado, planejamento ou reuniões técnicas. Há unidades que ainda enfrentam problemas relacionados à climatização, situação particularmente sensível em Teresina, onde as temperaturas frequentemente ultrapassam os 40 °C.

Outro desafio importante permanece na educação inclusiva. A legislação brasileira assegura atendimento educacional especializado aos estudantes com deficiência, transtornos do espectro autista e outras condições do neurodesenvolvimento. Entretanto, em parte da rede pública, a estrutura disponível ainda não acompanha a demanda existente. Há escolas em que um único profissional especializado atende simultaneamente vários estudantes, realidade que amplia a complexidade do acompanhamento pedagógico e exige constante articulação entre professores, coordenadores e famílias.

Esses desafios não diminuem a importância dos resultados alcançados. Eles apenas demonstram que a qualidade da educação não pode ser analisada exclusivamente pelos indicadores estatísticos.

A literatura das Ciências da Educação aponta que o desempenho educacional resulta da interação entre diferentes fatores, como continuidade das políticas públicas, gestão escolar, formação continuada dos profissionais, financiamento adequado, infraestrutura, participação das famílias e condições sociais dos estudantes. Nenhum desses elementos, isoladamente, explica os avanços ou as dificuldades de uma rede de ensino.

Sob essa perspectiva, os resultados do Ideb 2025 sugerem que o desempenho alcançado pelo Piauí decorre de um conjunto de fatores. Entre eles estão a continuidade das políticas educacionais, o acompanhamento pedagógico das redes de ensino e o trabalho desenvolvido diariamente por professores, gestores escolares, coordenadores pedagógicos, técnicos administrativos e demais profissionais da educação.

Ao mesmo tempo, os próprios indicadores mostram que ainda existe espaço para aperfeiçoamentos. Investimentos em infraestrutura, conectividade, educação inclusiva, equipes multiprofissionais, formação continuada e valorização dos profissionais permanecem como desafios para consolidar os avanços registrados.

Essa interpretação também encontra respaldo na cobertura realizada por diferentes veículos nacionais. Reportagens publicadas pelo UOL, pela CNN Brasil e pelo Metrópoles, todas baseadas nos dados oficiais divulgados pelo MEC e pelo Inep, destacam que o Brasil apresentou avanço modesto no Ideb 2025. A meta nacional foi alcançada apenas nos anos iniciais do ensino fundamental. Nos anos finais e, principalmente, no ensino médio, o país permanece abaixo das metas estabelecidas pelo Plano Nacional de Educação (PNE).

O cenário nacional reforça que o desempenho do Piauí merece destaque, mas também evidencia que os desafios observados no estado não são isolados. Eles fazem parte de um contexto mais amplo da educação brasileira.

Os resultados do Ideb 2025 merecem reconhecimento. Ao mesmo tempo, representam um convite à reflexão. Bons indicadores demonstram que a educação pública do Piauí avançou, mas também evidenciam que ainda há desafios que não aparecem nas estatísticas. Consolidar esse desempenho dependerá menos da celebração dos rankings e mais da capacidade de transformar investimentos, planejamento e gestão em melhores condições de ensino, aprendizagem e trabalho dentro das escolas.

Márcio Felipe da Rocha e Silva é jornalista e relações-públicas pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI), especialista em Jornalismo Político pelo Instituto de Educação do Piauí (IEMPI) | Instituto Camillo Filho (ICF), bacharel em Turismo pela Faculdade Piauiense (FAP) /UNINASSAU, mestre em Ciências da Educação e doutorando em Ciências da Educação pela Universidad Tecnológica Intercontinental (UTIC)

Fonte: Portal AZ

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