Série especial: A nota que não cabe no IDEB

Parte 1 — Além da nota, professores e escolas revelam outra realidade

Por Márcio Felipe | Jornalista | Portal AZ,

Na semana passada, o portal Folha de S.Paulo revelou o peso do fluxo; escolas, professores e sindicato questionam o que o ranking não mostra.

Foto: ReproduçãoReportagem especial do Portal AZ, analisa os resultados do Ideb e os fatores que os números não revelam sobre a realidade das escolas públicas de Teresina.
Reportagem especial do Portal AZ, analisa os resultados do Ideb e os fatores que os números não revelam sobre a realidade das escolas públicas de Teresina.

Educação como ela é. O Portal AZ aprofundou a investigação sobre a educação pública de Teresina por meio da pesquisa conduzida por este jornalista e doutorando em Educação, cruzando resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), informações sobre fluxo escolar, resultados individualizados das escolas e relatos de profissionais da rede municipal. A apuração parte dos números oficiais divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e avança sobre uma questão que a nota, sozinha, não consegue responder: o que acontece dentro da escola antes que o resultado apareça na tabela?

O Ideb 2025 foi divulgado pelo Inep em 5 de agosto de 2026. Teresina chegou a 6,9 nos anos iniciais do ensino fundamental e a 5,9 nos anos finais. Em 2023, os resultados haviam sido 6,4 e 5,8, respectivamente, conforme os dados oficiais apresentados pelo município após a divulgação nacional.

A evolução foi de 0,5 ponto nos anos iniciais e de 0,1 ponto nos anos finais. A diferença é significativa. Nos anos iniciais, o crescimento relativo foi de aproximadamente 7,8%. Nos anos finais, de 1,7%.

A primeira conclusão é objetiva: Teresina melhorou o resultado nas duas etapas. A segunda exige mais cuidado: o crescimento não ocorreu com a mesma intensidade.

E a terceira é a razão desta série especial: uma nota do Ideb não consegue contar sozinha toda a história da educação municipal.

O que existe dentro do 6,9 do Ideb não é uma simples média de uma prova.

Segundo o Inep, o indicador combina os resultados de aprendizagem do Saeb com informações de fluxo escolar obtidas pelo Censo Escolar. É uma combinação importante porque coloca lado a lado duas dimensões distintas da educação: o desempenho dos estudantes e sua trajetória de aprovação dentro do sistema.

Os resultados finais do Saeb 2025 foram disponibilizados pelo Inep em 6 de agosto de 2026. Na divulgação, o instituto informou que os resultados poderiam ser consultados por gestores, professores, pesquisadores e demais interessados.

A avaliação nacional envolveu 73.767 escolas, 247.744 turmas e aproximadamente 5,9 milhões de estudantes, segundo o Inep.

Isso permite compreender por que o Ideb precisa ser lido com cuidado. Uma escola pode melhorar seu fluxo escolar e, ao mesmo tempo, apresentar diferentes níveis de aprendizagem entre seus estudantes.

Não há contradição nisso.

A permanência do aluno na escola é um objetivo educacional importante. A aprovação também.

O ponto é que aprovação e aprendizagem não são a mesma coisa.

O peso do fluxo

Uma análise publicada pela Folha de S.Paulo após a divulgação dos resultados de 2025 acrescentou um dado relevante à discussão nacional.

Segundo o levantamento do portal de notícias, considerando o período entre 2005 e 2025, a redução da reprovação e do abandono respondeu por 54% do crescimento do Ideb da rede pública nos anos finais do ensino fundamental.

No ensino médio, a participação chegou a 67%.

O dado não significa que o crescimento do Ideb seja artificial. Também não significa que reduzir reprovação e abandono seja ruim. Ao contrário.

Manter o estudante na escola é uma conquista.

A questão é outra: o aluno que permanece e é aprovado também precisa aprender.

Essa distinção é fundamental para uma análise jornalística responsável do indicador.

O caso do Piauí

O próprio desempenho do Piauí demonstra que fluxo e aprendizagem podem avançar simultaneamente.

Segundo o Inep, entre 2005 e 2025, o Ideb do ensino médio piauiense passou de 2,3 para 4,9.

No mesmo período, a taxa de aprovação passou de 65% para 99,5%.

A participação das matrículas do ensino médio em tempo integral também cresceu: de 21% para 81%.

O desempenho em aprendizagem igualmente apresentou evolução. No período analisado, a proficiência acumulada cresceu 46,84 pontos em Matemática e 43,17 pontos em Língua Portuguesa, conforme os dados apresentados pelo Inep.

A experiência piauiense mostra que melhorar o fluxo não precisa significar reduzir a aprendizagem.

O desafio é fazer as duas coisas avançarem juntas.

Teresina não é apenas 6,9

Dentro da própria rede municipal, os resultados apresentam diferenças consideráveis.

Nos dados encaminhados à reportagem e reunidos no documento identificado como “IDEB TERESINA.pdf”, aparecem escolas com resultados superiores a 8. Citamos, como exemplo, a Escola Municipal Vereador Vieira Toranga, que registrou 8,8.

A Escola Municipal Parque Piauí aparece com 8,5.

A Escola Municipal Dona Izabel Pereira registra 8,4.

A Escola Municipal Jornalista João Emílio Falcão aparece com 8,0.

Também há unidades com 7,8, entre elas as escolas municipais Professor Oscar Olímpio Cavalcante, Planalto Ininga, Tio Benites, Padre Angelo Imperialli e Mario Quintana.

Na mesma relação, aparecem escolas com resultados de 7,7, 7,6, 7,5, 7,4, 7,3, 7,2, 7,1 e 7,0.

Esses resultados mostram que há experiências dentro da própria rede que merecem ser estudadas.

Mas também produzem uma pergunta inevitável:

o que uma escola que alcança 8,8 está fazendo — ou possui — que outra escola com resultado menor não possui?

A tabela não responde.

Docente diz ter preparado a turma durante todo o ano

Uma professora de Matemática do 5º ano da Secretaria Municipal de Educação de Teresina, que pediu anonimato, contou ao Portal AZ que trabalhou durante todo o ano letivo de 2025 com a preparação dos estudantes para a avaliação. Segundo ela, a escola em que trabalhava alcançou 7,2 no Ideb.

Foto: ReproduçãoPrint/Professora da SEMEC, em conversa com  o jornalista Márcio Felipe
Print/Professora da SEMEC, em conversa com o jornalista Márcio Felipe

“Trabalhei o ano passado todo para esta prova. Dei o mérito para a escola e não vou receber nada como agradecimento”, relatou. A declaração é apresentada pela reportagem como relato da profissional, e não como prova de que não houve qualquer forma de reconhecimento ou pagamento por parte da administração.

A professora também questionou a situação dos profissionais contratados.

“Deviam pagar aos professores substitutos que trabalharam o ano inteiro e foram desvinculados por conta dos contratos encerrados.”

Ela acrescentou:

“Eu era a professora de Matemática do 5º ano.”

O relato introduz uma dimensão que não aparece na tabela do Ideb.

O indicador registra o resultado da escola.

Não registra quantas horas um professor dedicou à preparação da turma.

Não registra a quantidade de exercícios aplicados.

Não registra reuniões pedagógicas. Não registra o trabalho individual realizado com alunos que apresentavam dificuldades. Não registra o esforço de professores contratados ou efetivos. E não registra as condições concretas em que todo esse trabalho foi realizado.

Foto: ReproduçãoO Ideb do Ensino Médio avançou de 3,4, em 2005, para 4,5, em 2025. Os números são oficiais, mas não mostram, sozinhos, a qualidade da aprendizagem, as condições de ensino e a realidade vivida por professores e estudantes.
O Ideb do Ensino Médio avançou de 3,4, em 2005, para 4,5, em 2025. Os números são oficiais, mas não mostram, sozinhos, a qualidade da aprendizagem, as condições de ensino e a realidade vivida por professores e estudantes.

A 2ª série desta reportagem, assinada por este jornalista, vai abordar a questão financeira, os rankings e as gratificações decorrentes de afastamentos, aspectos que colocam os professores da rede pública de ensino no centro de uma controvérsia que merece ser analisada com atenção.

Fonte: Portal AZ

Comente

Pequisar