IA e TikTok podem prejudicar preparação para Enem, alertam professores
Uso de respostas prontas e vídeos curtos pode reduzir prática de interpretação e argumentação
Professores e especialistas alertam que o uso excessivo de inteligência artificial e vídeos curtos, como os do TikTok e Reels, pode prejudicar a preparação de estudantes para o Enem e vestibulares. O problema não estaria na tecnologia em si, mas na substituição do esforço de raciocínio por respostas prontas, fórmulas decoradas e conteúdos rápidos.
Segundo educadores, esse hábito pode criar uma falsa sensação de domínio, na qual o estudante consegue reproduzir uma resposta, mas encontra dificuldades quando precisa resolver um problema novo ou desenvolver um raciocínio próprio.
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Respostas prontas podem mascarar dificuldades
O fenômeno é associado à chamada terceirização cognitiva, quando parte do processo de pensamento é transferida para ferramentas externas. Em provas que exigem interpretação, resolução de problemas e argumentação, a dependência desses recursos pode se tornar um obstáculo.
Um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), citado no levantamento, chama o fenômeno de “miragem da falsa maestria”. A ideia é que uma resposta produzida pela IA pode parecer demonstrar domínio do conteúdo, embora o estudante não tenha necessariamente desenvolvido o conhecimento necessário para chegar àquele resultado sozinho.
Um estudo realizado com mais de mil alunos do ensino médio na Turquia também apontou diferenças no desempenho de estudantes conforme a forma de utilização da inteligência artificial. Os alunos que tiveram acesso irrestrito à ferramenta apresentaram desempenho superior nos exercícios, mas tiveram resultado inferior na avaliação final.
Já estudantes que utilizaram uma versão com recursos pedagógicos, voltada a oferecer dicas em vez de respostas prontas, apresentaram melhora durante os exercícios sem registrar a mesma queda na avaliação.
Vídeos curtos também exigem atenção
O consumo intenso de conteúdos rápidos é outra preocupação apontada por educadores. Revisões recentes sobre vídeos curtos indicam associação entre o uso frequente de plataformas como TikTok e Reels e dificuldades relacionadas à atenção sustentada.
A capacidade de permanecer concentrado por períodos mais longos é especialmente importante para provas como o Enem, que exigem a leitura de textos extensos e a resolução de grande quantidade de questões.
O impacto pode ser ainda maior na redação e em questões discursivas, nas quais não basta identificar uma alternativa correta. O estudante precisa interpretar a proposta, organizar as ideias e construir uma resposta própria.
Como usar a tecnologia sem prejudicar os estudos?
Para Denise Canal, diretora do Colégio Virgem Poderosa, da Rede Santa Catarina, a questão não é simplesmente restringir a inteligência artificial, mas orientar seu uso.
A ferramenta pode ajudar a aprofundar conteúdos e organizar os estudos, desde que não substitua o esforço intelectual do aluno.
Entre as estratégias indicadas estão:
- utilizar a IA para tirar dúvidas, em vez de simplesmente copiar respostas;
- resolver questões inicialmente sem consulta;
- revisar os erros e tentar entender onde ocorreu a falha;
- produzir redações e textos autorais;
- usar vídeos curtos como complemento, não como principal forma de estudo;
- testar o conhecimento sem auxílio de ferramentas digitais;
- pedir à IA explicações, perguntas e pistas que estimulem o raciocínio.
A proposta é fazer com que a tecnologia funcione como ferramenta de apoio, enquanto a interpretação, a escrita e a resolução de problemas continuam sendo exercitadas diretamente pelo estudante.
Fonte: CNN Brasil