Empresário piauiense pagou R$ 30 milhões pela bet de Deolane Bezerra
Empresário do Piauí era diretor-executivo da Esportes da Sorte e amigo próximo da influenciadora; empresa comprada opera sem aprovação definitiva do governo federal
Enquanto as câmeras acompanham Deolane Bezerra, presa pela segunda vez, agora na Operação Vérnix, do Ministério Público de São Paulo, por suspeita de lavagem de dinheiro ligada ao PCC, uma figura permanece relativamente longe dos holofotes: o empresário piauiense José Daniel Carvalho Saturnino, mais conhecido como Daniel Trajano. Foi ele quem desembolsou R$ 30 milhões pela ZEROUMBET Plataforma Digital Ltda., empresa de apostas criada pela influenciadora em julho de 2024 e que teve o pedido de autorização negado pelo governo federal antes mesmo da conclusão da venda.
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Trajano construiu carreira na área de marketing do setor de apostas esportivas. Sua passagem mais conhecida foi como diretor-executivo da Esportes da Sorte, bet pernambucana que patrocina clubes de futebol e é alvo de investigação por suspeita de lavagem de dinheiro ligada ao jogo do bicho. A empresa é controlada por Darwin Henrique da Silva Filho, filho de Darwin da Silva, apontado pelas autoridades como proprietário das bancas Caminhos da Sorte, no Recife.
A Esportes da Sorte informou que Trajano não possui mais vínculo com a empresa. Ainda assim, a negociação com Deolane chama atenção porque a influenciadora também foi investigada por movimentações financeiras suspeitas relacionadas à mesma operadora, incluindo a compra de um carro de luxo que pertencia a Darwin Filho. O episódio foi um dos elementos que aproximaram seu nome das suspeitas investigadas pelas autoridades. Segundo apuração do Estadão, investigadores de Pernambuco acompanham a transação e possuem informações sobre negociações envolvendo veículos de luxo entre Trajano e Darwin Filho.
Compra de empresa sem licença
A Zeroum foi aberta em julho de 2024 com assinatura da advogada Adélia de Jesus Soares, investigada pela Polícia Federal e pela CPI das Bets por suspeita de facilitar a operação ilegal de apostas por grupos chineses no Brasil, em um esquema que pode ter movimentado bilhões de reais.
Em outubro, a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), do Ministério da Fazenda, negou formalmente a autorização para funcionamento da empresa. A decisão citou tanto o inquérito de Pernambuco quanto uma investigação em São Paulo na qual Deolane foi alvo de busca e apreensão por suspeita de crime contra a economia popular.
Mesmo com a negativa já formalizada, Trajano comprou a empresa em novembro, apenas quatro meses após sua criação. Os advogados justificaram o negócio pelo alcance de Deolane nas redes sociais, com mais de 20 milhões de seguidores. Pelo contrato de compra e venda, ela permaneceu vinculada à plataforma como influenciadora.
Amizade pública e disputa judicial
As redes sociais registram a proximidade entre os dois. “Obrigada pela parceria, pela amizade e por nunca ter soltado a minha mão”, escreveu Deolane em uma publicação. Trajano respondeu: “Se o Esportes dá Sorte, a vida deu à minha família Deolane”.
Mesmo após a venda, o site principal da Zeroum continuou fazendo referências à influenciadora. No mesmo dia em que a transferência da empresa foi assinada, a equipe jurídica de Deolane ingressou na Justiça para tentar reverter o veto da SPA.
Atualmente, a ZEROUMBET opera por força de uma liminar concedida pela 14ª Vara Federal Cível de São Paulo. A empresa controla três marcas — Zeroum, Energia e SportVip — e está entre as duas únicas operadoras nacionais autorizadas a funcionar nessa condição entre as 85 listadas no país.
A Advocacia-Geral da União tenta derrubar a decisão judicial e acusa a empresa de utilizar ações paralelas em São Paulo e no Distrito Federal para buscar decisões favoráveis. Graças à liminar, a operadora também deixou de pagar a outorga de R$ 30 milhões exigida das demais empresas do setor.
Além disso, o governo federal ainda não possui registro formal da mudança de controle da companhia. Como o pedido administrativo original foi arquivado por falta de resposta às notificações da SPA, uma eventual regularização junto ao Ministério da Fazenda exigiria a abertura de um novo processo, com prazo estimado de análise de até 150 dias.
Fonte: Portal AZ