Teresina tem um “divo pop”: conheça Lutasi, dono do hit “Shukarulê”
O artista piauiense viralizou nas redes sociais ao apresentar um trabalho musical diferente do convencional no estado.
Aos poucos, o nome de Lutasi começa a ultrapassar as fronteiras do Piauí. Cantor pop independente de Teresina, o artista viu a música “Shukarulê” ganhar espaço nas redes sociais e transformar uma estratégia pensada para viralizar em novas oportunidades profissionais.
Em entrevista exclusiva ao Portal AZ, o artista explicou de onde surgiu o hit do momento. Lutasi afirma que o sucesso não aconteceu por acaso, mas foi resultado de planejamento, produção de conteúdo e insistência.
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"Eu esperava, sim. Ela é a mais curtinha do EP, tem 1 minuto e 45. Então, assim, ela foi a música aposta que eu fiz. Essa é a música pra viralizar, pro TikTok, pras redes sociais, pra fazer dancinha. Essa, as outras eu posso ter uma pegada mais artística, algo mais diferente, mais profundo. Mas essa eu quero que ela seja leve, divertida, curta", explicou.
A faixa faz parte do EP "Mesopoty", lançado em setembro pelo cantor nas plataformas digitais.
O artista conta que, antes de a música começar a ganhar grande alcance, já havia publicado mais de 100 vídeos relacionados à faixa. Ele testou diferentes formatos, participou de tendências e observou quais conteúdos funcionavam melhor.
“Não foi um vídeo que eu postei e viralizou do nada. Foi realmente uma consistência de um trabalho para que isso acontecesse”, afirmou.
A estratégia começou a trazer resultados. Além do crescimento nas redes, Lutasi passou a ser convidado para entrevistas, programas de televisão e apresentações em diferentes pontos de Teresina. Entre os locais citados pelo artista estão a Ponte Estaiada e o Parque da Cidadania.
De uma música romena a um hit piauiense
Apesar de ter se tornado conhecida na versão de Lutasi, “Shukarulê” nasceu de uma melodia estrangeira. O cantor explica que a faixa utiliza a melodia de uma música romena chamada “Zanamea Prinsetsamea”, do cantor Nicolai Guter.
Lutasi, por sua vez, escreveu uma nova letra para a música, sem fazer uma tradução. O termo “Shukarulê”, segundo o artista, vem do romeno e pode ser associado a “beleza” e “açúcar”.
“Shukarulê é uma palavra romena e a tradução dela é beleza. Pode ser tanto beleza quanto açúcar. O açúcar é essa coisa boa e bonita. Então, quando você canta a música, ‘Shukarulê, Shukarulê, esse é meu poder', você tá falando 'beleza, beleza, esse é meu poder! Então, é um mantra aí pra você atrair magnetismo pessoal, brilho, mais beleza", explicou.
A nova versão ganhou uma produção com uma sonoridade mais brasileira, feita em parceria com Mia Araújo. O resultado acabou adquirindo uma característica próxima do carnaval, embora essa não tenha sido a intenção inicial da produção.
Artista começou a escrever músicas ainda adolescente
A relação de Lutasi com a arte começou muito antes da carreira musical. Segundo ele, desde criança já demonstrava interesse por performance, teatro, moda e produção visual.
Ele conta que começou a escrever músicas por volta dos 12 ou 13 anos, mas demorou alguns anos até ganhar confiança para se apresentar profissionalmente. Antes disso, chegou a cursar Letras em Inglês, mas deixou o curso após um semestre e posteriormente se formou em Moda pela Universidade Federal do Piauí.
A formação acadêmica também passou a influenciar a maneira como ele constrói seus projetos musicais, especialmente na parte visual.
"A academia traz muito esse senso de pesquisa, de construção visual. Que para você construir um visual não é só o que está ali. Você tem que construir toda uma história, que quem vê não sabe que tem aquela história atrás, mas você precisa construir para criar aquele mundo ali", explicou
Durante a graduação, o artista revela que continuou escrevendo músicas, mas ainda tinha inseguranças sobre a própria voz. O incentivo para transformar a vontade de cantar em profissão veio de uma conversa com a cantora Elaine Leonel, ex-integrante da banda Mary Jane.
A partir do conselho, Lutasi passou a estudar canto, teoria musical e piano. Foram cerca de dois anos e meio de formação, período que, segundo ele, também ajudou a desenvolver sua confiança como cantor.
A estreia oficial aconteceu em 2023, com o lançamento da música “Só Vou Te Usar” e de um videoclipe. Desde o início, o artista buscou incorporar elementos visuais e cenários de Teresina ao trabalho.
‘Meu trabalho é muito feito na pesquisa’
A identidade artística de Lutasi também passa pela construção visual. No projeto “Mesopoty”, ele conta que pesquisou referências relacionadas às primeiras civilizações, religiões antigas, dança do ventre e ao que define como resgate da ancestralidade e do sentimento de pertencimento cultural piauiense.
O cantor afirma que, apesar de admirar nomes como Lady Gaga e Luiz Gonzaga, não procura reproduzir diretamente o trabalho de outros artistas.
"Eu sou muito fã da Lady Gaga, sou muito fã do Luiz Gonzaga. Mas, assim, pra minha arte, eu separo o artista do fã. Eu, como artista, não busco referência em nenhum outro artista pra minha arte, senão eu acabo virando uma cópia dele, um cover", explicou.
Para ele, as possíveis semelhanças com outros artistas surgem de pesquisas e interesses que podem ser compartilhados.
"A gente parte de um local semelhante de pesquisa. Todo o meu trabalho é muito feito na pesquisa. Eu trouxe isso mesmo comigo da academia, da universidade", afirmou.
Formado em Moda, ele também é responsável pela maior parte da construção de seu próprio visual. Em vez de confeccionar as roupas, costuma fazer uma curadoria de peças compradas em brechós e lojas de diferentes cidades.
Cobra virou símbolo em videoclipe
Um dos elementos visuais que chamaram atenção no trabalho de Lutasi foi a presença de uma jiboia no videoclipe de "Meu Favorito", faixa que também faz parte do EP. A cobra, chamada Kauna, tem seis anos e vive em cativeiro.
Lutasi conta que encontrou o animal de maneira inesperada, depois de ver uma foto publicada por uma seguidora no Instagram.
"Na verdade ela que me encontrou. Foi muito doido. Eu sempre pensei que seria perfeito ter uma cobra no clipe. E aí eu tava no Instagram um dia, uma moça me seguia, uma seguidora. Aí eu fui ver o perfil dela, ela tinha uma foto com a cobra. Eu fiquei: 'Oxe, que cobra é essa?", relatou.
Lutasi explicou que a presença da cobra está relacionada ao conceito de ressignificação do animal dentro de seu trabalho, especialmente em relação às representações associadas ao poder feminino nas culturas antigas.
Segundo ele, a experiência também foi marcante por nunca ter tido contato próximo com uma cobra antes.
Expansão para fora do Piauí
O crescimento de “Shukarulê” também aumentou os planos de expansão da carreira. Lutasi afirma que já recebeu convites de produtores do Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e até de Portugal.
Mesmo com a perspectiva de expansão, ele diz que pretende manter o Piauí como base de sua trajetória.
"Eu estou no momento mesmo de estar no Piauí agora. Me aproveita enquanto eu estou aqui, enquanto o show ainda está gratuito, enquanto a gente tem um tipo pop, enquanto está por aqui. Sempre vão me ter, porque eu sempre vou estar voltando pra cá", disse.
O cantor revelou que foi convidado para o Rock In Rio 2026, mas recusou o convite por já ter uma apresentação marcada em Teresina na Ponte Estaiada.
“Shukarulê’ pode ser apenas o começo
Embora reconheça a força que “Shukarulê” ganhou nas redes, o cantor acredita que a música representa apenas uma primeira porta de entrada para seu trabalho.
Ele também aponta o crescimento de “Meu Favorito”, outra faixa do EP Mesopoty, que passou a receber atenção após o lançamento do videoclipe. Para o cantor, o investimento na parte visual é fundamental para apresentar ao público o universo construído em torno de cada música.
“Eu acredito que o visual ajuda a trazer o ouvinte para aquele universo e entender melhor por que eu vou ouvir isso”, afirmou.
Lutasi diz ter mais de 100 músicas escritas, embora nem todas devam ser lançadas. Para ele, algumas composições existem simplesmente como uma forma de colocar sentimentos para fora, enquanto outras já foram planejadas para futuros projetos.
‘O maior desafio é o financiamento’
O artista aponta o investimento financeiro como uma das principais dificuldades para manter uma carreira pop independente em Teresina. Segundo ele, a falta de remuneração em parte das apresentações faz com que o ele próprio precise financiar gravações, videoclipes e outras etapas da produção.
A dificuldade, de acordo com o cantor, também explica o intervalo entre seus primeiros lançamentos. Depois de lançar a primeira música em 2023, ele só conseguiu lançar uma nova faixa em 2025, após juntar recursos próprios.
"O maior desafio, sem dúvida, é o financiamento. Questão do dinheiro mesmo", afirmou.
O cantor também criticou a prática de apresentações sem remuneração adequada aos artistas. “Aqui no Piauí tem muito essa cultura de não pagar o artista, de achar que o artista não... ‘Eu vou dar um Centro de Salgado, um Guaraná e o artista tá pago'. Não é assim, gente. O artista aqui não é pago", declarou.
Para ele, a valorização financeira do trabalho artístico é necessária para que os profissionais possam permanecer produzindo no estado.
Mesmo com as dificuldades, o novo artista piauiense mantém como objetivo construir uma carreira nacional e, posteriormente, internacional.
“Meu maior sonho com certeza é levar o Piauí para o mundo. Mostrar o quanto que o Piauí tem belezas naturais. Esse é o meu maior propósito”, completou
Ao lembrar da fase em que ainda tinha insegurança sobre seu potencial como cantor, resume o que diria para si mesmo no início da trajetória: “Tu sabia que ia conseguir. Só não sabia como ainda.”
Fonte: Portal AZ