Programas de ajuda financeira oficial só são bem-sucedidos quando extintos

O sucesso desses programas é seu fim ou sua redução a níveis mínimos

Por Cláudio Barros,

No dia 10 de janeiro de 2010, escrevi o texto que segue abaixo, sob o título “O sucesso do Bolsa Família é a sua extinção”.
Por necessário e em razão do que ocorre 12 anos depois, penso que reler esse texto pode ser um bom modo de compreender como o Brasil tem vocação para ser como a vela, que até tem brilho e luz, mas morre sem se mexer.

Foto: Divulgação

Programas de ajuda financeira oficial só são bem-sucedidos quando extintos
Programas de ajuda financeira oficial só são bem-sucedidos quando extintos

Segue o texto publicado na edição de 10 de janeiro de 2010 na coluna Frente Ampla, que era publicada aos domingos pelo jornal Meio Norte.

“O sucesso do Bolsa Família é a sua extinção”.

O Programa Bolsa Família, em ano eleitoral, vai ser engordado em mais 500 mil famílias. Para petistas, esquerdistas e pensadores vermelhos de aluguel isso é a glória, o êxito supremo, um extraordinário esforço de transferência de renda. Para Frente Ampla, a certeza de que este programa é um dos grandes fiascos do Estado brasileiro, incapaz de tirar gente da miséria.

O êxito de programas de transferência de renda ou quaisquer outros esforços de assistência não pode ser medido pela sua expansão. O sucesso desses programas é seu fim ou sua redução a níveis mínimos. Quanto mais há gente pobre a ser ajudada, mais claramente se evidencia o fracasso dos esforços no sentido de reduzir a pobreza.

Neste sentido, o Bolsa Família está carimbado pelo fracasso. Sucesso deveria ser a retirada de 500 mil famílias – cerca de 1,775 milhão de pessoas ou duas vezes a população de Teresina. Seriam brasileiros deixando a linha de pobreza que os coloca em um programa de transferência de renda.

Muitas pessoas haverão de discordar do fato bastante evidente de que, se são ampliados programas de socorro financeiro aos mais carentes, a pobreza cresceu em vez de diminuir. É legítimo que discordem, posto que é da natureza da democracia ter pontos de vista contrários. Mas a estes, recomenda-se a leitura de um artigo de Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt, do Freaknomics, traduzido para o português e publicado na UOL em 14 de abril de 2008.

O artigo, "Menino do Futebol" é uma excelente lição sobre como se devem portar investidores sociais. Lição passada por de Brian Mullaney, membro da “Operação Sorriso” – que também atua no Brasil. Ele percebeu que organizações como a “Operação Sorriso” precisavam urgentemente de um novo modelo de administração - ou, na realidade, de qualquer modelo de administração - e então começou a inventar um.

E qual foi a grande sacada de Mullaney? Que seu sucesso seria o fim de sua organização de ajuda humanitária. Em vez de levar médicos para operar crianças com fissuras labiais em países pobres, ele resolveu treinar esses profissionais em seus países de origem, reduzindo em 75% o custo das cirurgias e ampliando o número de pacientes atendidos. Criou, com isso, a “Smile Train” – “Trem Sorriso”.
Entre 2002 e 2008, a Smile Train fez mais de 280 mil cirurgias em 74 dos países mais pobres do mundo, e levantou US$ 84 milhões em 2007. Tudo isso empregando uma equipe mundial de apenas 30 pessoas.

Que resultados melhores esperar? O artigo de de Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt dá uma boa resposta: o Smile Train está próximo de atingir uma virada histórica: vai realizar mais operações por ano do que o número de crianças que nascem nos países em desenvolvimento com fissuras labiais. “Isso significa que a Smile Train pode estar no caminho de tirar a si mesma do negócio”, dizem os autores do texto.

O Programa Bolsa Família poderia seguir os trilhos do sucesso do “Smile Train”, retirando famílias de seu amplo guarda-chuvas. Estaria, assim, decretando a sua extinção ou redução drástica de sua cobertura, mas coroando o êxito que se espera de programas de transferência de renda.
 

Fonte: Portal AZ

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