Sala de 28 m² na Paulista abriga 108 empresas usadas pelo PCC, aponta Piauí
Escritório servia de fachada para apostas, holdings e firmas de lavagem de dinheiro ligadas a Mohamad Mourad, foragido desde agosto
Uma sala comercial de apenas 28 metros quadrados, localizada no 15º andar do edifício Patrimônio, na Avenida Paulista, em São Paulo, virou sede oficial de 108 empresas que, no papel, somam capital social de R$ 530 milhões. A revelação foi feita em reportagem da revista piauí, assinada pelos jornalistas Allan de Abreu e Juliana Faddul.
A sala 1513 chama a atenção já na entrada: ao contrário das demais, tem a porta pintada de cinza e uma folha de sulfite colada com fita adesiva anunciando um suposto coworking. Funcionários do prédio, no entanto, afirmam que o espaço passa a maior parte do tempo fechado e vazio.
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Segundo o Ministério Público de São Paulo, o pequeno escritório abriga um “hub” empresarial usado pela facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) para lavar dinheiro e blindar patrimônio. A investigação, batizada de Operação Carbono Oculto, identificou que parte das empresas ali registradas pertence ao empresário Mohamad Hussein Mourad, apontado como um dos principais operadores financeiros da facção e hoje foragido desde agosto, após pedido de prisão da Polícia Federal.
Entre as companhias registradas na sala está a B3T4 International Group, responsável por três casas de apostas online — Bet4, Aposta Bet e Faz o Bet. Criada em agosto de 2024 com investimento de R$ 35 milhões, a empresa tem sócios no Brasil e no exterior. Para o MP, a B3T4 mantém conexões diretas com Mourad por meio de empresas usadas para ocultar bens e movimentar recursos ilegais.
As firmas Urban Prime, Stellar, Horizon, Vitality, Orbit e Scotia Holdings, ligadas a Mourad, foram usadas para blindar patrimônio imobiliário e operar uma frota de caminhões de transporte de etanol. Todas elas migraram para a sala 1513 em um curto intervalo de tempo, no fim de 2024, após deixarem um endereço em Pinheiros, zona oeste da capital.
Outro nome citado na investigação é o advogado Walter Silva Souza, atual chefe de gabinete do vereador paulistano Major Palumbo (PP). Ele aparece como sócio da Virginia Holdings e de outras empresas suspeitas de integrar o esquema. Questionado pela piauí, Souza negou ligação com Mourad ou com a B3T4 e disse ter renunciado a cargos societários após tomar conhecimento da apuração.
A reportagem lembra que o uso de casas de apostas já havia sido detectado em outras investigações sobre o PCC. Em 2024, a Polícia Federal encontrou indícios de ligações entre duas bets no Ceará e familiares de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder máximo da facção. Investigadores afirmam que o setor é considerado propício para lavagem de dinheiro, já que testas de ferro podem simular apostas milionárias para dar aparência legal a recursos do tráfico.
Apesar das conexões apontadas, nem os sócios da B3T4 nem o advogado Walter Souza foram alvos de mandados de busca na Operação Carbono Oculto. A defesa de Mourad nega as acusações.
Fonte: Portal AZ