Imigrantes lideram greve histórica na JBS dos EUA
Sindicato acusa multinacional brasileira de más condições de trabalho
A greve iniciada por cerca de 3,8 mil trabalhadores de uma unidade da JBS no estado do Colorado, nos Estados Unidos, trouxe à tona tensões estruturais na indústria de processamento de carne. O movimento, considerado o primeiro do tipo no setor em quase 40 anos, ocorre em meio a denúncias de baixos salários, condições de trabalho precárias e aumento da concentração de mercado.
A paralisação teve início em 16 de março na planta da Swift Beef Co., localizada em Greeley, uma das maiores unidades de abate do país. A decisão foi tomada após votação quase unânime dos trabalhadores, depois de meses de negociações sem acordo entre o sindicato e a empresa.
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Segundo representantes dos funcionários, a proposta apresentada pela empresa previa reajustes salariais inferiores a 2% ao ano, abaixo da inflação local, além de repassar aos trabalhadores o aumento dos custos com planos de saúde. Relatos também apontam intensificação do ritmo de trabalho e falhas no fornecimento de equipamentos de proteção.
Em comunicado, a funcionária Deborah Rodarte afirmou que os trabalhadores buscam condições mais dignas. A empresa, por sua vez, declarou ao jornal The New York Times que o sindicato rejeitou uma proposta que incluía aumento salarial, benefícios previdenciários e estabilidade financeira de longo prazo.
Com a paralisação, a empresa passou a redistribuir a produção para outras unidades. A planta de Greeley é responsável por cerca de 8% da carne bovina produzida nos Estados Unidos, o que amplia o impacto potencial da greve em um setor altamente concentrado.
Atualmente, quatro grandes कंपनhias — JBS, Tyson Foods, Cargill e National Beef — controlam entre 80% e 85% do processamento de carne bovina no país. Para especialistas, esse nível de concentração reduz o poder de negociação de trabalhadores e produtores, ao mesmo tempo em que amplia a influência das empresas sobre preços e condições do mercado.
A paralisação ocorre em um contexto de aumento expressivo nos preços da carne, que subiram mais de 70% desde a pandemia, e de restrições no mercado de trabalho, agravadas por políticas migratórias que afetam diretamente a oferta de mão de obra.
Levantamento da Morning Consult em parceria com a organização Physicians Committee aponta que 71% dos americanos apoiam o direito de greve no setor, mesmo diante de possíveis impactos na produção. Entre os mais jovens, cresce também o apoio a alternativas como proteínas vegetais.
Além das questões salariais, o movimento reacende preocupações com segurança no trabalho. A unidade de Greeley já foi alvo de críticas em episódios anteriores, incluindo acidentes fatais e condições que favoreceram a disseminação da covid-19 durante a pandemia.
Outro ponto de atenção é o perfil da força de trabalho. A planta reúne trabalhadores de diferentes nacionalidades, com mais de 50 idiomas falados, refletindo a forte presença de imigrantes. Especialistas apontam que a falta de estabilidade migratória aumenta a vulnerabilidade desses profissionais, que muitas vezes evitam denunciar abusos por receio de deportação.
A discussão também alcança o campo político. A atuação global da JBS e sua influência em negociações comerciais recentes levantam questionamentos sobre o poder das grandes corporações no setor. Propostas em tramitação no Congresso dos Estados Unidos buscam limitar essa concentração e ampliar a concorrência.
Fonte: DW