Kátia Tapety — a trajetória da primeira transexual eleita no Brasil

Do sertão do Piauí à memória pública Kátia é referência histórica da política local e da luta pela visibilidade trans

Por Samuel Duarte e Alexandrino da Rocha,

Kátia Tapety (nascida José Nogueira Tapety, Oeiras‑PI) é referência histórica da política local e da luta pela visibilidade trans no Brasil. Parteira e agente de saúde, líder comunitária, vereadora por mandatos sucessivos e vice‑prefeita, sua vida reúne resistência pessoal, engajamento comunitário e pioneirismo político — uma história que atravessa preconceitos, reconhecimento nacional e avanços jurídicos como o direito ao nome social.

Foto: ReproduçãoKátia Tapety
Kátia Tapety

Raízes e formação humana
Nascida no sertão piauiense, Kátia cresceu em um lar de contradições: um pai rígido que negava sua identidade e uma mãe acolhedora que lhe deu suporte. Ainda jovem, atuou como parteira e agente de saúde, aproximando‑se da comunidade e construindo uma reputação de cuidado e confiança — a base do capital político que viria a consolidar.


A entrada na política e a construção de um mandato pioneiro
Em 1992 Kátia fez sua primeira candidatura registrada sob o nome civil José Nogueira Tapety. A partir dali conquistou mandatos como vereadora em Colônia do Piauí (em pleitos posteriores) e chegou a assumir funções de destaque na Câmara Municipal e a vice‑prefeitura. Esses mandatos, obtidos em contexto conservador e em épocas de pouca visibilidade para questões de gênero, representam um marco de representatividade.


O percurso eleitoral contado como história
Cada eleição contou um capítulo distinto: a vitória inaugural representou o triunfo de uma liderança de base; reeleições consolidaram sua presença; e oscilações de votação refletiram tanto a dinâmica local quanto composições e coligações regionais. Em 2020, Kátia passou a figurar publicamente com o nome social Kátia Tapety, simbolizando a tensão entre o registro formal e o reconhecimento da identidade. 


Filiações, coligações e oscilações de votação
As filiações e coligações acompanharam a lógica do jogo político municipal: adesões a legendas locais e composições regionais que influenciaram resultados. Picos de votação ocorreram em pleitos com forte mobilização comunitária; em eleições mais competitivas, houve retrações — padrões típicos da política do interior que serão ilustrados numericamente na tabela de resultados.


A cobertura midiática e o rótulo de “exótica”
A trajetória de Kátia ganhou alcance nacional por meio de entrevistas e reportagens em programas de grande audiência. Parte da cobertura adotou tom sensacionalista, rotulando‑a como “exótica” — expressão que citamos entre aspas para criticar a estigmatização. Ao mesmo tempo, a exposição ajudou a levar a discussão sobre identidade a audiências mais amplas e a humanizar sua história.


Nome social e enquadramento jurídico
O reconhecimento do nome social em espaços públicos avançou com iniciativas administrativas e legislativas; no âmbito federal, o Decreto nº 8.727/2016 disciplinou o uso do nome social na administração pública federal. No campo eleitoral, a adoção do nome social dependeu de orientações e procedimentos dos cartórios e tribunais, num processo gradual. A opção de Kátia por utilizar seu nome social em 2020 é marco simbólico de um direito que se consolida.


Reconhecimento, legado e homenagens
O legado de Kátia transcende mandatos: sua história inspirou documentários, reportagens e homenagens — entre elas a nomeação de uma escola no Rio de Janeiro — e alimenta a memória de movimentos LGBTQIA+. Sua trajetória dialoga com a de parlamentares trans contemporâneas, como Érika Hilton e Duda Salabert, na ampliação da representatividade política.


Saúde, vida atual e cuidados diários
Hoje, residente em Colônia do Piauí, Kátia convive com labirintite e limitações de saúde, mas mantém forte presença simbólica na comunidade. Está sempre aos cuidados de sua fiel escudeira “Filó”, que a auxilia nos afazeres diários e no cuidado pessoal — uma parceria que sustenta sua rotina e possibilita que continue sendo referência local. A imagem de Kátia como “sobrevivente do sertão” traduz a persistência que marcou sua trajetória política e social.


Por que a história de Kátia importa
A trajetória de Kátia Tapety ilumina debates centrais: a presença de pessoas trans na política, a importância do reconhecimento do nome social, a forma como a mídia trata corpos dissidentes e a necessidade de políticas públicas de inclusão. Sua vida demonstra que avanços institucionais têm origem em trajetórias individuais de coragem e resistência.


Felicitações pelo aniversário — 24 de abril
No dia 24 de abril a comunidade de Colônia do Piauí e ativistas em todo o país celebram mais um ano de vida de Kátia Tapety. A data é oportunidade para reconhecer sua trajetória de resistência, cuidado comunitário e pioneirismo. Mensagens de respeito e reconhecimento reforçam o valor da representatividade política que sua trajetória simboliza.

Samuel Duarte e Alexandrino da Rocha
são advogados e pesquisadores em direito eleitoral

Fonte: Portal AZ

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