Editorial - quando o ruído dos poderosos silencia a alegria dos invisíveis
O que se observa é um embate entre forças políticas e institucionais na tentativa de afirmar o poder
Há momentos em que a política perde a medida, e os limites do razoável. Ao perdê-la, expõe com nitidez desconfortável a inversão de prioridades que marca boa parte da vida pública brasileira.
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A decisão judicial que suspende a realização de evento com o artista Alok em Teresina insere-se exatamente nesse tipo de cenário: um episódio em que o conflito entre atores institucionais se sobrepõe ao interesse e anseio da coletividade.
Não se trata aqui de ignorar a legalidade, nem de minimizar a relevância das motivações jurídicas ou administrativas que possam ter embasado a decisão. O Estado de Direito exige, por definição, o respeito às normas e aos procedimentos. Mas há uma diferença essencial, frequentemente negligenciada, entre a aplicação da lei e a sensibilidade na sua aplicação. Especialmente, como no caso concreto, em que a teoria do fato consumado foi deixada de lado, a visão política se sobrepôs ao conjunto de situações que envolve o caso em concreto.
O que se observa, à distância, é um embate entre forças políticas e institucionais que, na tentativa de afirmar o poder, acabam produzindo um efeito colateral previsível: a supressão de um raro momento de fruição coletiva. Para uma parcela significativa da população, especialmente aquela que vive à margem dos circuitos formais de lazer e cultura, eventos gratuitos não são mero entretenimento. São válvulas de escape, espaços de pertencimento, ocasiões em que o cotidiano duro cede lugar, ainda que por algumas horas, à celebração.
Há, porém, um dado adicional que não pode ser ignorado: o econômico. Experiências recentes demonstram que grandes eventos públicos, quando bem estruturados, não são apenas despesas, e se tornam investimentos com retorno mensurável. No Rio de Janeiro, por exemplo, a iniciativa do Revellion de 2025, envolveu aportes públicos da ordem de 30 milhões, mas resultaram em uma movimentação econômica superior a 600 milhões de reais, com impacto direto sobre turismo, comércio, serviços e arrecadação indireta.
A proporção, mais do que os números absolutos, é o que importa. O raciocínio é simples: a injeção inicial, quando orientada por planejamento e capacidade de mobilização, gera um ciclo virtuoso que beneficia a cidade como um todo. Não há razão estrutural para supor que Teresina estaria imune a esse efeito. Ao contrário, em contextos onde a oferta de grandes eventos é mais escassa, o impacto tende a ser ainda mais perceptível.
Nesse sentido, discutir cifras como um aporte do governo estadual, aproximado de 1,8 milhão, dentro de um contexto global que ultrapassa a casa dos 6 milhões em custos, é desconsiderar o potencial de retorno econômico e social, é reduzir o debate a uma contabilidade de superfície. O custo isolado, sem a análise de seus efeitos multiplicadores, diz pouco, e, em certos casos, induz a conclusões equivocadas
Há uma dimensão simbólica que não pode ser ignorada. Quando uma festa pública é interrompida ou inviabilizada em meio a disputas políticas, a mensagem transmitida, ainda que involuntariamente, é a de que o conflito entre os “grandes” tem precedência sobre as necessidades mais simples dos “pequenos”. E isso corrói, silenciosamente, a já fragilizada confiança nas instituições.
Não se trata de romantizar o descontrole ou de defender a realização de eventos à revelia da ordem pública. Trata-se de ponderar que a política, em seu sentido mais elevado, deveria ser instrumento de mediação, não de supressão. De equilíbrio, não de demonstração de força.
O povo, muitas vezes, não participa dos bastidores dessas disputas. Não compreende suas motivações técnicas, tampouco seus desdobramentos jurídicos. Mas sente, com precisão quase intuitiva, seus efeitos. Caminha quilômetros sem ônibus e no meio do lixo que nem vê, enfrenta dificuldades logísticas, organiza sua rotina para usufruir de algo que lhe é oferecido como bem público, mas, ao final, esse acesso é interrompido por razões que lhe parecem distantes, quando não incompreensíveis.
É nesse ponto que se impõe uma reflexão mais ampla: a quem serve a política quando ela se fecha em si mesma? E qual o custo social de decisões que, embora juridicamente fundamentadas, desconsideram o impacto humano imediato?
A maturidade institucional não se mede apenas pela capacidade de impor decisões, mas pela habilidade de calibrá-las. De reconhecer que, entre a estrita formalidade e a realidade concreta, existe um espaço onde o bom senso e a responsabilidade social devem prevalecer.
Porque, ao fim, a disputa passa. Os protagonistas mudam. Os cargos se alternam. Mas permanece o sentimento, honesto e persistente, de uma população atônita que, mais uma vez, foi espectadora e vítima de um conflito que não era seu.
E talvez esse seja o ponto mais sensível de toda a equação: quando a política deixa de servir ao cotidiano das pessoas, deixa, pouco a pouco, de fazer sentido para elas. É nessas horas que o voto em branco ou nulo evidenciam o tamanho do protesto.
Fonte: Portal AZ