Os candidatos invisíveis da eleições de 2026

Pesquisa revela o desafio de quem ainda busca espaço político

Por Marcio Felipe | Jornalista especializado em marketing político,

A pesquisa Data AZ para o Governo do Piauí confirmou a liderança de Rafael Fonteles (PT), colocou Joel Rodrigues (Progressistas) na segunda posição e revelou outro cenário que merece atenção. Enquanto a disputa entre os dois principais candidatos domina o debate político, um grupo de concorrentes permanece praticamente invisível aos olhos do eleitor.

Foto: ReproduçãoOk

Na pesquisa estimulada, Eliseu Aguiar (Novo) aparece com 0,83% das intenções de voto. Ravenna Castro (Democrata) registra 0,33%. José Maia Filho, o Mainha (Podemos), soma 0,25%. Geraldo Carvalho (PSTU), Jesus Rodrigues (Cidadania) e Toni Rodrigues (PL) alcançam 0,17% cada. Francisco Juriti (DC) e Lúcia Santos (PSDB) não pontuaram.

Esses números levantam uma questão importante: esses candidatos realmente não despertam interesse do eleitor ou simplesmente ainda não conseguiram chegar até ele?

Essa diferença muda completamente a forma de interpretar uma pesquisa eleitoral.

No marketing político, intenção de voto não nasce do acaso. Ela é resultado de um processo que começa pelo conhecimento do candidato. O eleitor precisa saber quem ele é, conhecer sua trajetória, ouvir suas propostas e criar algum nível de identificação. Sem esse caminho, dificilmente haverá intenção de voto.

Por isso, candidatos que aparecem abaixo de 1% enfrentam um desafio que vai muito além das urnas. Antes de disputar votos, precisam disputar atenção.

A própria pesquisa oferece pistas sobre esse comportamento. Na modalidade espontânea, 53,33% dos entrevistados disseram não saber em quem votar ou preferiram não citar espontaneamente qualquer candidato. Isso demonstra que boa parte do eleitorado ainda não consolidou sua escolha.

Ao mesmo tempo, Rafael Fonteles é lembrado por 38,25% dos entrevistados e Joel Rodrigues por 6,92%. Os demais candidatos permanecem abaixo de 1%.

Esse quadro revela uma realidade conhecida pelos profissionais de marketing político: quem é visto, normalmente é lembrado; quem não consegue espaço para apresentar suas ideias encontra enormes dificuldades para crescer.

Mas surge outro questionamento.

Todos os candidatos disputam uma eleição nas mesmas condições?

Do ponto de vista legal, sim. Todos possuem o direito de registrar candidatura, participar da campanha e pedir votos. Entretanto, quando a análise passa para o campo prático, as diferenças tornam-se evidentes.

Partidos maiores contam com estruturas mais robustas, equipes especializadas, maior presença institucional e acesso proporcionalmente superior aos recursos públicos destinados às campanhas. Também costumam reunir maior número de lideranças políticas, prefeitos, vereadores e militantes distribuídos pelos municípios.

Já partidos menores enfrentam uma realidade diferente. Muitas vezes, precisam desenvolver campanhas com orçamento reduzido, equipes pequenas e menor capacidade de comunicação. Isso limita o alcance das propostas e dificulta ampliar o conhecimento do eleitor sobre seus candidatos.

Esse cenário leva a outra reflexão.

O eleitor vota em quem considera mais preparado ou em quem conhece melhor?

A resposta não é simples.

Pesquisas sobre comportamento eleitoral mostram que o reconhecimento do nome exerce forte influência na decisão do voto. Um candidato amplamente conhecido parte de uma posição mais confortável do que aquele que ainda precisa apresentar sua própria identidade política.

Isso não significa que um seja mais competente do que o outro. Significa apenas que um conseguiu ocupar espaço na memória do eleitor antes da disputa.

A história política do Piauí oferece um exemplo interessante dessa relação entre comunicação e convencimento.

O ex-governador e ex-senador Alberto Silva transformou a apresentação de projetos em uma de suas principais marcas políticas. Engenheiro de formação, utilizava rádio e televisão para explicar obras, investimentos e planos de governo com linguagem acessível. Em vez de concentrar seus discursos nas disputas entre adversários, procurava dedicar grande parte do tempo à exposição de propostas.

Alberto Silva compreendia que comunicar também era governar. Muitos piauienses lembram que suas entrevistas tinham um caráter quase didático. Falava como quem ensinava. Explicava como uma obra seria executada, quais benefícios traria para a população e quais problemas pretendia resolver. Independentemente das posições políticas, sua capacidade de transformar assuntos técnicos em uma linguagem compreensível tornou-se uma característica reconhecida de sua trajetória pública.

Essa experiência continua atual.

O eleitor deseja conhecer propostas, entender prioridades e avaliar soluções para os problemas do Estado. Entretanto, para que isso aconteça, o candidato precisa conseguir chegar até a população.

É justamente nesse ponto que muitos concorrentes encontram sua maior dificuldade.

Sem estrutura partidária, com recursos limitados e menor presença na comunicação política, torna-se muito mais difícil romper a barreira do desconhecimento.

Outro comportamento também influencia esse cenário.

Muitos eleitores preferem concentrar seus votos nos candidatos que aparecem melhor posicionados nas pesquisas. É o chamado voto estratégico. O raciocínio é simples: parte do eleitorado entende que votar em um candidato pouco conhecido representa menor possibilidade de vitória e acaba migrando para nomes considerados mais competitivos.

Esse movimento cria um ciclo difícil de romper. Quem lidera recebe mais atenção. Quem recebe mais atenção torna-se ainda mais conhecido. Quem permanece pouco conhecido encontra maior dificuldade para crescer.

Isso explica, em parte, por que candidatos posicionados abaixo de Joel Rodrigues aparecem com índices tão reduzidos.

Naturalmente, pesquisas não medem apenas popularidade. Elas registram a preferência do eleitor no momento em que são realizadas. Esse cenário pode sofrer alterações durante a campanha, especialmente quando debates, entrevistas, propaganda eleitoral e redes sociais ampliam o espaço de exposição dos candidatos.

Ainda assim, os números da Data AZ mostram que os candidatos situados abaixo da segunda colocação enfrentam um desafio que antecede a própria disputa eleitoral: conquistar visibilidade.

Em marketing político, nenhuma ideia, por melhor que seja, convence alguém antes de ser conhecida. Nenhuma proposta ganha apoio antes de ser apresentada. Nenhum projeto transforma votos se não alcançar o eleitor.

Talvez essa seja a principal reflexão deixada pela pesquisa. A democracia garante o direito de todos concorrerem. O grande desafio continua sendo criar condições para que todos tenham a oportunidade de apresentar suas ideias e disputar, em condições mais equilibradas, a atenção do eleitor. Afinal, nenhuma candidatura pode ser escolhida antes de ser conhecida.

Fonte: Portal AZ

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