Editorial | Reeleição não é atestado de boa gestão

Transformar favoritismo em certificado de excelência administrativa é um erro

Por Redação do Portal AZ,

A vantagem do governador Rafael Fonteles nas pesquisas de intenção de voto é um fato político relevante. Os levantamentos divulgados até aqui, em sua maioria, apontam um cenário confortável para o atual governador, inclusive com possibilidade de reeleição ainda no primeiro turno, embora existam pesquisas que indiquem disputa mais equilibrada. 

Foto: ReproduçãoOk
Rafael Fonteles 

Mas transformar favoritismo eleitoral em certificado de excelência administrativa é um erro de análise.

O clima da eleição, até o momento, é morno. A oposição ainda não conseguiu imprimir o ritmo esperado à campanha. Joel Rodrigues, principal nome oposicionista, permanece distante de uma movimentação capaz de alterar significativamente o cenário político. A impressão é que a disputa pelo Governo ainda não encontrou sua narrativa.

Nesse ambiente de baixa temperatura política, a liderança de Rafael Fonteles pode significar muitas coisas. Pode refletir aprovação do governo. Pode refletir a força da máquina administrativa. Pode refletir a fragmentação da oposição. Pode refletir, ainda, o receio de parte do eleitorado de trocar o governo atual por uma alternativa considerada incerta.

Nenhuma dessas hipóteses, entretanto, autoriza concluir automaticamente que a gestão estadual seja um sucesso.

Ao contrário, persistem críticas relevantes sobre diferentes áreas da administração pública. Há questionamentos sobre o aumento do endividamento do Estado, sobre a condução da gestão financeira e sobre episódios administrativos que alimentam a percepção de dificuldades na execução de políticas públicas. 

Na segurança pública, por exemplo, opositores apontam problemas relacionados à valorização das forças policiais. Na saúde, há críticas ao modelo de gestão por organizações sociais e pedidos por maior transparência em contratos e resultados. Milhões (ou bilhões) jorram por uma torneiro que o bom senso não consegue fechar. 

São temas que merecem debate público e fiscalização, independentemente do cenário eleitoral.

O episódio do Porto de Luís Correia ilustra essa discussão. O governo comemorou o início das operações, mas ainda existem questionamentos sobre atrasos, planejamento, custos e coordenação institucional. Em vez de responder a essas dúvidas com informações detalhadas, a comunicação oficial optou por uma estratégia que acabou gerando novas críticas.

Outro aspecto que chama atenção é a crescente insatisfação de parte das lideranças políticas do interior com a forma de relacionamento adotada pelo Palácio de Karnak. Nos bastidores, esse tema aparece com frequência e ajuda a explicar movimentos políticos que podem influenciar a composição da Assembleia Legislativa e da própria base governista.

Em política, vencer eleições e governar bem não são sinônimos.

Governadores já foram reeleitos administrando mal. Outros perderam eleições mesmo após realizarem boas gestões. O voto é resultado de um conjunto complexo de fatores, que inclui comparação entre candidatos, rejeição, capacidade de articulação política, força das campanhas e percepção de risco do eleitor.

Por isso, reduzir o debate público às pesquisas é um equívoco.

Se Rafael Fonteles caminha para a reeleição, isso é um dado político relevante. Mas a qualidade de seu governo deve continuar sendo avaliada pelos resultados entregues, pela transparência da administração e pela capacidade de enfrentar os problemas do Estado. Ignorar críticas legítimas apenas porque as pesquisas são favoráveis não fortalece a democracia; enfraquece o debate público. E, por favor, vista uma roupinha melhor quando sair por aí representando o Estado e seu povo.

Fonte: Portal AZ

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