Crônica: O difícil ofício de criar em um mundo célebre

Criar exige tempo e silêncio em um mundo que confunde ócio com preguiça

Por Márcio Felipe Rocha, jornalista,

Quantas ideias são criadas, mas nem todo mundo gosta de quem cria?

Foto: Imagem/ReproduçãoToda criação nasce de tempo, silêncio, estudo e pensamento.
Toda criação nasce de tempo, silêncio, estudo e pensamento.

Cito como exemplo Thomas Edison. Ele passou anos experimentando antes de aperfeiçoar uma lâmpada elétrica. Alexander Graham Bell ficou associado à invenção do telefone. Martin Cooper liderou a equipe da Motorola que apresentou o primeiro telefone celular portátil. Johannes Gutenberg revolucionou a reprodução de textos com a imprensa de tipos móveis. Nikola Tesla abriu caminhos decisivos para o desenvolvimento da corrente alternada e de dezenas de outras invenções.

No mundo acelerado em que vivemos, quase ninguém para para pensar no tempo que essas pessoas dedicaram aos estudos, às experiências e às pesquisas. Também é preciso considerar que o processo criativo exige momentos de pausa e reflexão. O celular na mão parece ter nascido ali, do nada. Não. Foram necessários dedicação, conhecimento e tempo de pesquisa. O livro sobre a mesa esconde as tentativas, os erros e as noites de trabalho de quem o escreveu.

A criação costuma esconder o criador. E muitos deles nem sequer fazem questão de aparecer como donos de uma ideia.

Foto: Imagem/ReproduçãoO mundo vê a criação, mas quase nunca enxerga o esforço do criador.
O mundo vê a criação, mas quase nunca enxerga o esforço do criador.

Na tradição cristã, o Gênesis apresenta Deus como princípio da criação do mundo. A própria narrativa introduz o diabo como figura de oposição. A imagem atravessa séculos e pode ser lida também como uma representação simbólica da resistência que frequentemente acompanha aquilo que rompe com o conhecido.

Criar incomoda.

Leonardo da Vinci desenhava máquinas que pareciam pertencer a outro tempo. Marie Curie dedicou a vida à pesquisa da radioatividade. Albert Einstein alterou a maneira como a ciência compreendia o espaço, o tempo e a gravidade. Santos Dumont insistiu em experiências que ajudaram a colocar o homem no ar.

Na literatura, Machado de Assis construiu uma obra que continua sendo estudada. Clarice Lispector transformou a linguagem em investigação da existência. Fernando Pessoa multiplicou vozes dentro da própria literatura.

Nenhum deles produziu conhecimento sentado diante de uma linha de montagem, com uma picareta nas mãos.

Havia estudo. Havia silêncio. Havia leitura. Havia tentativa. Havia, sobretudo, tempo para pensar.

É justamente aí que aparece o velho preconceito contra o ócio.

Há quem veja uma pessoa lendo, pesquisando ou simplesmente afastada do movimento cotidiano e conclua que ela não está trabalhando. Já houve até político chamando de “vagabundos” aqueles que dedicavam a vida à docência e ao trabalho em sala de aula. Pessoas que formam outras pessoas e dedicam a própria vida ao ensino.

A criação intelectual tem esse problema: seu esforço não é imediatamente visível nem facilmente mensurável. Tanto faz se o trabalho é de um artista, músico, poeta, professor ou pesquisador.

Um professor prepara uma aula durante horas para falar durante cinquenta minutos. Um pesquisador passa meses diante de uma pergunta que pode não produzir resposta. Um escritor pode passar dias tentando encontrar uma frase. Um engenheiro pode alterar dezenas de vezes um projeto antes de chegar a uma solução.

O resultado aparece. O caminho desaparece.

E, quando a criação dá certo, quase ninguém pergunta quantas vezes o criador errou.

Talvez seja por isso que criar seja um ofício tão difícil. Não basta ter uma ideia. É preciso suportar a dúvida, a crítica, o silêncio e, muitas vezes, a incompreensão.

A sociedade utiliza diariamente invenções, livros, pesquisas, obras de arte, tecnologias e conhecimentos produzidos por pessoas que, em algum momento, precisaram parar para pensar.

A lâmpada não surgiu porque alguém estava ocupado demais para imaginar a luz.

O telefone não nasceu da pressa.

A ciência não avança sem pesquisadores.

A literatura não existe sem escritores.

E nenhuma dessas criações teria surgido se seus autores fossem obrigados a provar, a cada minuto, que estavam trabalhando.

Foto: Imagem/ReproduçãoPensar também é trabalho. Criar exige tempo, pesquisa e liberdade.
Pensar também é trabalho. Criar exige tempo, pesquisa e liberdade.

Pensar também é trabalho.

E talvez seja um dos trabalhos mais difíceis de explicar justamente para quem nunca precisou criar alguma coisa do zero.

Explicar para quê?

Fonte: Portal AZ

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