O eleitor cansou do teatro político
Nas redes, eleitor cobra menos briga e mais resultados
O brasileiro chega à eleição de 2026 acompanhando política por diferentes canais, mas também demonstrando uma desconfiança expressiva em relação aos partidos e às instituições políticas. As pesquisas realizadas neste ano mostram um eleitor que continua interessado, porém mais exigente com aquilo que recebe dos seus representantes. A reclamação não está restrita à ideologia ou à disputa entre grupos. Ela alcança a capacidade dos políticos de apresentar soluções para problemas que afetam diretamente a vida cotidiana.
Pesquisa Datafolha realizada entre 3 e 5 de março de 2026, com 2.004 brasileiros de 16 anos ou mais, em 137 municípios, mostrou que 54% utilizam redes sociais para obter informações sobre política e eleições. A televisão aparece com 58%, enquanto sites de notícias registram 26% e YouTube, 21%. A margem de erro máxima foi de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. O resultado mostra que as redes já ocupam posição central na formação da percepção política do eleitor.
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A utilização das plataformas varia conforme o eleitorado. Entre aqueles que declararam ter votado em Jair Bolsonaro no segundo turno de 2022, 61% apontaram as redes sociais como fonte de informação política. Entre os que votaram em Luiz Inácio Lula da Silva, o percentual foi de 47%. Os números não significam que esses eleitores formem grupos homogêneos, mas demonstram que a internet ocupa espaço diferente na estratégia de informação de segmentos distintos do eleitorado.
A confiança, entretanto, apresenta um quadro menos favorável aos políticos. O Índice de Confiança Social 2026 da Ipsos-Ipec, realizado entre 4 e 8 de julho, ouviu 2 mil brasileiros em 130 municípios. Os partidos políticos receberam apenas 30 pontos em uma escala de zero a 100, enquanto o Congresso Nacional ficou com 34. O presidente da República registrou 42 pontos e o governo federal, 46. O sistema eleitoral alcançou 48.
A comparação com outras instituições é reveladora. O Corpo de Bombeiros alcançou 86 pontos, as escolas públicas 68 e a Polícia Federal 66. A diferença indica que a confiança social está mais elevada em instituições percebidas pelo cidadão como prestadoras de serviços concretos do que nas estruturas partidárias e parlamentares.
A agenda de preocupações também ajuda a explicar essa insatisfação. No levantamento Ipsos What Worries the World de julho de 2026, 43% dos brasileiros apontaram crime e violência entre suas principais preocupações. Corrupção apareceu com 36%, saúde com 35%, pobreza e desigualdade com 33% e impostos com 30%. Inflação foi mencionada por 24% e desemprego por 19%. Em junho, crime e violência haviam chegado a 47% e corrupção a 39%.
Quando a pergunta muda de preocupação para prioridade presidencial, a resposta continua concentrada em questões concretas. Pesquisa Datafolha realizada em 12 e 13 de maio de 2026 apontou a saúde como prioridade para 34% dos entrevistados. Educação apareceu com 15%, segurança pública com 12% e economia com 11%. Combate à corrupção e combate à fome e à miséria registraram 7% cada, enquanto o desemprego ficou com 6%.
Há ainda uma cobrança relacionada à própria comunicação eleitoral. Pesquisa CNT/MDA realizada entre 5 e 9 de agosto de 2026, com 2.002 entrevistados, mostrou que 49,8% defendem a proibição de qualquer vídeo ou propaganda eleitoral produzido com inteligência artificial. Outros 34,3% defendem a proibição de conteúdos produzidos com IA quando envolverem notícias falsas. Somados, os dois grupos representam 84,1% favoráveis a algum tipo de restrição. A pesquisa teve margem de erro de 2,2 pontos percentuais.
O dado é importante porque a disputa eleitoral de 2026 acontece em um ambiente no qual o eleitor pode receber, em poucos segundos, uma declaração verdadeira, uma informação distorcida ou um conteúdo completamente fabricado. O político que utiliza as redes para alcançar o eleitor também precisa lidar com a desconfiança que o próprio ambiente digital produz.
A questão central, portanto, não é saber se o brasileiro quer ou não saber de política. Os números mostram que ele está acompanhando. A questão é saber o que ele espera encontrar quando acompanha.
Os dados de 2026 apontam para uma população preocupada com segurança, saúde, corrupção, desigualdade, impostos, educação, inflação e emprego. Ao mesmo tempo, partidos políticos e Congresso aparecem entre as instituições de menor confiança. A combinação é desconfortável para quem pretende disputar uma eleição baseada apenas em slogans, confrontos e presença digital.
O eleitor pode até assistir à briga política nas redes, mas sua vida continua acontecendo fora delas. É no posto de saúde, na escola, no trabalho, no comércio, no transporte e dentro de casa que ele percebe se uma política pública funcionou.
A eleição de 2026 coloca os políticos diante dessa contradição. Eles conseguiram entrar no celular do brasileiro. O desafio agora é conseguir entrar na sua confiança.
E os números mostram que essa confiança não será conquistada apenas com publicação, vídeo, discurso ou ataque ao adversário. Será preciso apresentar propostas, explicar como serão executadas e, principalmente, entregar resultados que possam ser percebidos e conferidos pelo eleitor.
Fonte: Portal AZ