Depois da promessa, vem a conta

O eleitor decide, mas também responde pela escolha

Por Márcio Felipe | Jornalista | Portal AZ,

O voto é secreto, mas suas consequências não são. Cada escolha feita diante da urna produz efeitos sobre a vida de milhares ou milhões de pessoas. Por isso, chama atenção ver cidadãos passarem quatro anos reclamando da corrupção, dos privilégios, dos serviços públicos precários e dos políticos que decepcionaram e, na eleição seguinte, devolverem o poder a quem carrega na trajetória fatos e questionamentos que deveriam ser considerados.

Foto: Imagem gerada por IA.OK

Em 4 de outubro de 2026, mais de 158 milhões de brasileiras e brasileiros estarão aptos a votar. Serão milhões de decisões individuais que, somadas, definirão os ocupantes da Presidência da República, dos governos estaduais e das casas legislativas. O Tribunal Superior Eleitoral contabiliza 158.765.543 eleitores aptos no país. É um contingente que mostra o tamanho da responsabilidade de cada escolha. O eleitor decide sozinho diante da urna, mas o resultado alcança toda a sociedade.

O eleitor não precisa assumir o papel de juiz. Uma acusação não equivale a uma condenação, e uma investigação não produz, por si só, culpa. Mas o cidadão também não precisa esperar uma sentença para formar sua opinião política. Fatos públicos, decisões judiciais, investigações, alianças, promessas cumpridas ou abandonadas e a conduta de um político durante o exercício do cargo fazem parte de sua trajetória. Tudo isso pode ser levado em conta na hora do voto.

A memória tem valor político. O eleitor precisa lembrar quem prometeu e não entregou, quem mudou de posição por conveniência, quem usou o cargo para atender interesses particulares e quem demonstrou compromisso com aquilo que é público. A eleição não deveria servir para apagar quatro anos de história.

O problema fica ainda mais evidente quando o voto passa a depender de uma vantagem pessoal. Um emprego, um contracheque, uma nomeação ou uma promessa podem pesar na decisão de quem precisa sobreviver. A dificuldade econômica explica muita coisa, mas não elimina a pergunta sobre o resultado coletivo dessa escolha. Quando milhares de votos são orientados apenas por interesses particulares, o espaço para discutir políticas públicas diminui.

Também é preciso olhar para quem oferece esse tipo de vantagem. Cargo público não deveria funcionar como instrumento de fidelização eleitoral. O dinheiro usado para pagar salários, contratar serviços ou manter a máquina administrativa pertence à sociedade. Nenhum político pode apresentar como favor pessoal aquilo que é custeado pelo contribuinte.

Há uma diferença importante entre votar porque alguém ajudou e entregar a própria consciência política em troca de um benefício. A primeira situação pode nascer da gratidão. A segunda transforma a relação entre eleitor e político em dependência. E dependência costuma cobrar um preço alto quando o governante deixa de atender ao interesse público.

A cada eleição, os candidatos reaparecem com novas fotografias, discursos renovados e promessas cuidadosamente escolhidas. A memória do eleitor é o contraponto. Ela permite comparar o discurso com a prática e a promessa com o resultado.

Lembrar também exige equilíbrio. O eleitor não deve transformar suspeita em certeza, nem acusação em condenação. Da mesma forma, não deveria ignorar fatos apenas porque gosta do candidato ou porque recebeu algum benefício dele. A escolha democrática amadurece quando informação e senso crítico pesam mais que a conveniência do momento.

Votar é entregar poder. Quem recebe esse poder passa a tomar decisões que interferem na vida de pessoas que sequer participaram daquela escolha. Por isso, amizade, simpatia, promessa de favor ou expectativa de um contracheque não deveriam ser suficientes para decidir quem governará em nome de todos.

O eleitor tem liberdade para escolher quem quiser. Mas também precisa assumir a responsabilidade pela escolha. Antes de votar, talvez bastasse uma pergunta simples: o que esse político fez quando teve poder e o que provavelmente fará se voltar a tê-lo?

A resposta começa pela memória.

Fonte: Márcio Felipe | Jornalista | Portal AZ

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