Crônica: "Deixe-me ir, preciso andar..."

Entre a fé e a política, a história revela nossas contradições

Por Márcio Felipe | Jornalista | Portal AZ,

Cristo ensinou a amar o próximo, acolher os pobres, perdoar e estender a mão a quem a sociedade abandonava. Não prometeu uma vida sem sofrimento. Ensinou, porém, que a dor do outro não deveria ser motivo de indiferença. Mesmo assim, foi traído, humilhado e condenado à morte. Aquele que ofereceu amor recebeu violência. Hoje, milhões de pessoas se ajoelham diante de sua imagem, emocionam-se com sua história e pronunciam seu nome. Mas quantas conseguem enxergar, no rosto de quem sofre, a mesma humanidade que dizem reconhecer em Jesus?

Foto: ReproduçãoOk

É impossível olhar para essa contradição sem pensar no Brasil. O povo vai às urnas carregando esperanças, medos, convicções e, muitas vezes, a expectativa de uma vida melhor. Escolhe o presidente e os representantes do Congresso, onde a direita tem presença expressiva. Cada voto é um direito conquistado, mas também produz consequências. Quando a eleição termina, a vida continua para quem precisa alimentar os filhos, pagar as contas, encontrar trabalho e preservar a própria dignidade. A política pode parecer distante dos sentimentos, mas suas decisões chegam à mesa das famílias e interferem no futuro de milhões de brasileiros.

Lula conhece uma parte dessa história. Saiu de uma origem operária, chegou à Presidência e se tornou uma figura incontornável da política nacional. Sua trajetória desperta admiração, rejeição e controvérsia. Como qualquer governante, deve ser julgado pelo que fez, pelos resultados de suas decisões e também pelos erros que lhe possam ser atribuídos. Mas há algo que ultrapassa a disputa partidária: a história de um país não é feita apenas por aqueles que vencem eleições, mas pelas mudanças que suas ações provocam na vida das pessoas. É por isso que alguns nomes atravessam gerações, enquanto outros desaparecem quando deixam o poder.

Talvez seja essa a maior tristeza de quem ainda acredita na política como instrumento de transformação: perceber que a esperança de uns pode ser tratada com desprezo por outros e que, tantas vezes, a disputa pelo poder parece valer mais do que o sofrimento de quem espera por respostas. Não se exige que todos pensem da mesma maneira, nem que concordem com Lula. Exige-se apenas que a consciência não seja substituída pelo ódio e que a fé, quando invocada, não se transforme em adorno vazio. Afinal, de que vale venerar Jesus se não conseguimos reconhecer a dor do próximo? De que vale conquistar o poder se não houver algo relevante a fazer com ele?

“Deixe-me ir, preciso andar, vou por aí, a procurar, rir pra não chorar.” Esses versos parecem traduzir o sentimento de quem observa o país, guarda as próprias convicções e, mesmo decepcionado, se recusa a desistir de compreender. Lula continuará nas páginas dos livros de História, com suas realizações, controvérsias e contradições. Outros políticos também poderão permanecer, desde que deixem contribuições que justifiquem sua presença na memória coletiva. Os que se limitarem a ocupar cargos, sem produzir algo que ultrapasse os próprios interesses, correm o risco de cair no esquecimento — ou, como diz a expressão popular, no lixo da História. Porque os mandatos terminam, as fotografias oficiais amarelam e os discursos perdem a voz. O que fica é aquilo que cada um fez com a oportunidade de servir. E talvez a pergunta mais dolorosa não seja quem será lembrado, mas quantas vidas poderiam ter sido melhores se o poder tivesse sido exercido com mais humanidade.

Fonte: Portal AZ

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