Rafael dança, Silvio silencia e o povo cobra
No interior, quem dança é quem espera por serviços públicos
Na política, gestos comunicam. Um vídeo nas redes sociais, uma coreografia descontraída ou o silêncio diante das críticas fazem parte das estratégias de comunicação. A discussão surge quando essas imagens são comparadas à realidade enfrentada por milhares de piauienses que ainda aguardam atendimento médico, convivem com dificuldades no transporte coletivo e enfrentam problemas na prestação de serviços públicos.
O governador Rafael Fonteles voltou a chamar atenção nas redes sociais ao publicar vídeos em tom descontraído. O prefeito de Teresina, Sílvio Mendes, por outro lado, mantém uma postura mais discreta diante das críticas direcionadas à administração municipal. Enquanto um aparece dançando, o outro prefere o silêncio. Em comum, ambos convivem com cobranças crescentes da população.
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O contraste torna-se ainda mais evidente fora da capital. Em grande parte dos municípios piauienses, hospitais contam basicamente com clínicos gerais. Conseguir consulta com neurologistas, ortopedistas, otorrinolaringologistas, pediatras, psiquiatras e outras especialidades continua sendo um desafio diário. Em muitos casos, pacientes percorrem centenas de quilômetros até Teresina para realizar consultas, exames e cirurgias indisponíveis em suas cidades.
Os números reforçam essa realidade. O estudo Demografia Médica no Brasil 2024, elaborado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), Associação Médica Brasileira (AMB) e Faculdade de Medicina da USP, mostra que aproximadamente 79% dos médicos do Piauí estão concentrados em Teresina, enquanto os outros 223 municípios dividem cerca de 21% dos profissionais. A capital apresenta uma relação de médicos por habitante cerca de 11 vezes superior à registrada no interior. Esse desequilíbrio ajuda a explicar por que milhares de pessoas precisam deixar suas cidades para buscar atendimento especializado.
O próprio Governo Federal reconheceu essa necessidade ao lançar, em 2026, novos editais do programa Mais Médicos Especialistas, ampliando vagas destinadas ao Piauí para reforçar a assistência especializada e reduzir filas no Sistema Único de Saúde (SUS).
Os desafios, entretanto, vão além da quantidade de profissionais. Moradores do interior relatam limitações na estrutura hospitalar, falta de equipamentos para exames, demora nos encaminhamentos e necessidade frequente de transferência para Teresina, o que aumenta custos e prolonga o sofrimento de pacientes e familiares.
Na capital, as reclamações seguem outro caminho. O transporte coletivo permanece entre os principais motivos de insatisfação dos usuários. Praças e equipamentos públicos aguardam manutenção em diversos bairros. Servidores municipais também manifestam críticas relacionadas a procedimentos administrativos envolvendo o Instituto de Previdência dos Servidores do Município de Teresina (IPMT). Embora a Prefeitura anuncie investimentos e novos projetos, parte da população afirma que os resultados ainda são insuficientes diante das necessidades cotidianas.
A discussão proposta por este editorial não gira em torno de um vídeo do governador ou da postura reservada do prefeito. O centro da questão está na percepção das prioridades administrativas. Para muitos piauienses, permanece a expectativa de respostas mais rápidas para problemas históricos da saúde, da mobilidade urbana e da infraestrutura pública.
Governar exige comunicação, mas também requer resultados concretos, perceptíveis por quem depende do SUS, aguarda exames, utiliza diariamente o transporte coletivo ou busca atendimento eficiente nos serviços públicos.
Nesse cenário, quem realmente "dança" não é o governador nem o prefeito. Dança o cidadão que acorda antes do amanhecer para viajar em busca de atendimento médico; a mãe que espera meses por uma consulta especializada para o filho; o trabalhador que perde horas em deslocamentos; e o aposentado que enfrenta procedimentos burocráticos para garantir direitos.
Na democracia, vídeos publicados nas redes sociais passam. Discursos também. O que permanece é a qualidade dos serviços públicos oferecidos à população. É sobre esses resultados que gestores estaduais e municipais continuarão sendo avaliados pelos cidadãos.
Fonte: Portal AZ