Depressão materna persistente pode afetar atenção e memória de adolescentes

Estudo da USP relaciona sintomas maternos contínuos à criação severa e prejuízos cognitivos

Por Dominic Ferreira,

Um estudo liderado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) identificou uma associação entre trajetórias persistentes de sintomas depressivos maternos e dificuldades em funções executivas de adolescentes. A pesquisa acompanhou 1.949 crianças nascidas em Pelotas (RS) em 2004 e avaliou as mães em diferentes momentos, desde os primeiros meses de vida dos filhos até os 11 anos. Aos 15 anos, os jovens foram submetidos a testes cognitivos digitais que avaliaram habilidades como atenção e memória. Os resultados reforçam a importância do diagnóstico e do acompanhamento da saúde mental materna ao longo da infância.

Foto: MagnificEstudo reforça a importância do cuidado parental e do apoio à saúde materna.
Estudo reforça a importância do cuidado parental e do apoio à saúde materna.

Segundo os pesquisadores, mães que apresentam depressão persistente têm maior probabilidade de adotar práticas parentais mais severas, caracterizadas por controle excessivo, punições físicas ou verbais e menor abertura ao diálogo. Entre os adolescentes cujas mães apresentaram sintomas graves e contínuos, foram observados os piores resultados nos testes de atenção sustentada, relacionada à capacidade de manter o foco, e de memória episódica, responsável pela lembrança de fatos e situações. O estudo aponta que o ambiente familiar mais estressante pode interferir no desenvolvimento de habilidades relacionadas ao autocontrole e à concentração.

Os impactos sobre a memória também apareceram entre jovens cujas mães apresentaram sintomas moderados ou que diminuíram ao longo do tempo, indicando que o cuidado com a saúde mental não deve se limitar ao período pós-parto. Para Alicia Matijasevich, professora associada do Departamento de Medicina Preventiva da FMUSP e orientadora do estudo, dificuldades de atenção e memória durante a adolescência podem repercutir no desempenho escolar, na entrada no mercado de trabalho e em diferentes trajetórias de vida. Os pesquisadores ressaltam, porém, que a magnitude dos efeitos observados foi modesta e não permite aplicação clínica imediata dos resultados em nível individual.

Os achados indicam a necessidade de estratégias que combinem tratamento da depressão materna com suporte às práticas parentais. No âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), os pesquisadores defendem o fortalecimento da identificação precoce e do acompanhamento contínuo dos sintomas, além de ações como acompanhamento longitudinal, visitas domiciliares e programas de orientação parental. A proposta é ampliar o cuidado para além do tratamento da doença, considerando também a relação entre pais e filhos e possíveis impactos sobre o desenvolvimento. O estudo integra a tese de doutorado de Júlia de Souza Rodrigues, realizada em dupla titulação pela FMUSP e pela Universidad Miguel Hernández de Elche, na Espanha, e foi publicado na revista European Child & Adolescent Psychiatry.

Fonte: Ascom FMUSP

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