Governo deve aumentar etanol na gasolina para 32%

Especialistas alertam para risco em carros antigos e importados sem adaptação

Por Viviane Setragni,

O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) deve se reunir nesta terça-feira (14) para anunciar a ampliação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, passando de 30% para 32%. A proposta faz parte das discussões do governo sobre o uso de biocombustíveis, mas especialistas e representantes da indústria automotiva defendem cautela antes da adoção da medida.

Foto: Tomaz Silva/Agência BrasilOk

De acordo com engenheiros, a principal preocupação está relacionada à compatibilidade de motores mais antigos e de veículos importados desenvolvidos para funcionar com menores concentrações de etanol. Nesses casos, a nova composição do combustível pode acelerar o desgaste de componentes do sistema de alimentação e injeção.

O etanol anidro, utilizado na mistura com a gasolina, possui capacidade de absorver água do ambiente. Essa característica pode favorecer processos de corrosão em peças metálicas e afetar itens como tanque, bomba de combustível, bicos injetores, mangueiras, vedações e pistões, especialmente em veículos que não foram projetados para essa proporção.

Segundo especialistas, também há possibilidade de crescimento no consumo de combustível. Como o etanol possui menor poder energético do que a gasolina, os motores podem precisar de maior volume de combustível para manter o mesmo desempenho. Embora a diferença possa ser discreta no uso diário, ela tende a ser mais perceptível em veículos sem calibração específica para a nova mistura.

No setor de manutenção, oficinas relatam que componentes de borracha podem ressecar, enquanto bombas de combustível e bicos injetores ficam mais suscetíveis à oxidação. Entre os sinais que podem indicar dificuldades de adaptação estão partidas mais demoradas, perda de potência, falhas na aceleração e funcionamento irregular do motor.

Veículos fabricados há duas ou três décadas, equipados com carburador ou sistemas de injeção eletrônica mais simples, são considerados os mais vulneráveis. Já alguns modelos importados modernos movidos exclusivamente a gasolina podem atingir o limite de compensação da unidade eletrônica de controle do motor, comprometendo o funcionamento e elevando o consumo.

A substituição de componentes também pode representar um custo elevado para os proprietários. Peças como bicos injetores, bombas de combustível, sensores e velas de ignição podem custar milhares de reais, especialmente em modelos importados de marcas premium.

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) informou que apoia o uso de biocombustíveis e reconhece a importância do etanol para a descarbonização da frota brasileira. No entanto, a entidade defende que a ampliação da mistura seja precedida por testes técnicos capazes de comprovar a compatibilidade dos motores e dos componentes automotivos com a nova composição do combustível.

O posicionamento é compartilhado pelo Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças), que considera os ensaios técnicos uma garantia para consumidores e fabricantes.

Por outro lado, a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) afirma que a proposta foi desenvolvida no âmbito do programa Combustível do Futuro e é baseada em estudos realizados pelo Instituto Mauá de Tecnologia. Segundo a entidade, os testes indicaram que a mistura de 32% de etanol é tecnicamente viável, sem impactos relevantes sobre desempenho, dirigibilidade ou durabilidade dos motores avaliados.

A Unica também sustenta que o setor possui capacidade para atender à demanda adicional por etanol anidro e afirma que a medida poderá reduzir a necessidade de importação de gasolina, além de ampliar a participação de combustíveis renováveis produzidos no país.

Fonte: G1

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