Editorial: o Piauí precisa enfrentar as facções na favela e no Jockey
Crime organizado se infiltrou na política do Estado, está entre políticos e empresários
Há uma diferença fundamental entre um Estado que enfrenta o crime organizado e um Estado que convive com ele. O Piauí, infelizmente, tem dado sinais crescentes de enquadrar-se na segunda categoria. Não por ausência de legislação, não por falta de instrumentos jurídicos e tampouco por escassez absoluta de recursos. Mas por algo mais grave e mais difícil de corrigir: a ausência de vontade política de enfrentar estruturas que, a esta altura, já se confundem com parcelas do próprio establishment.
O diagnóstico que se impõe é desconfortável, mas necessário. O crime organizado no Piauí não reside apenas nas periferias de Teresina ou nos morros das cidades do interior. Ele tem endereço em escritórios, em gabinetes, em salões frequentados por empresários e políticos. Está nas celas das penitenciárias, de onde lideranças do PCC, do Comando Vermelho e do Bonde dos 40 seguem comandando territórios, negociando cargas e arbitrando conflitos, com celular na mão e impunidade garantida. E está, também, nos ambientes de prestígio, onde o dinheiro lavado compra respeitabilidade, financia campanhas e constrói alianças que nenhuma operação policial parece disposta a desfazer.
- Participe do nosso grupo de WhatsApp
- Participe do nosso grupo de Telegram
- Confira os jogos e classificação dos principais campeonatos
Comece-se pelo mais evidente e, ao mesmo tempo, pelo mais escandaloso: o sistema prisional. No Piauí, como em boa parte do Brasil, as unidades penitenciárias há muito deixaram de cumprir sua função legal. Não são instituições de privação de liberdade — são, na prática, centros de gestão do crime. Das celas, lideranças de facções emitem ordens, coordenam execuções, supervisionam o tráfico e mantêm contato permanente com operadores externos. O celular circula com uma desenvoltura que envergonharia qualquer administração minimamente comprometida com o controle do ambiente carcerário.
Não se trata de falha operacional isolada. Trata-se de um colapso sistêmico que só se sustenta com a conivência, ativa ou passiva, de agentes do próprio Estado. Quando um detento de alta periculosidade tem acesso irrestrito a comunicação, quando o bloqueio de sinal é tecnicamente viável mas politicamente inerte, quando lideranças criminosas acumulam privilégios dentro das unidades, a conclusão é uma só: alguém está permitindo. E quem permite, invariavelmente, tem razões que não aparecem em relatório nenhum.
A solução não é complexa na teoria: isolamento efetivo de lideranças, investimento em tecnologia de bloqueio, auditoria permanente do corpo funcional e gestão penitenciária profissionalizada, desvinculada de indicações político-partidárias. O que falta não é o conhecimento do remédio. É a disposição de tomá-lo.
Mas seria ingênuo, ou conveniente, limitar o debate ao tráfico e às facções de base. O crime organizado contemporâneo tem uma arquitetura mais sofisticada. Ele precisa de operadores financeiros, de empresas para lavar recursos, de contratos públicos para reciclar dinheiro e de proteção política para garantir que as investigações não avancem além de um ponto tolerável.
Esses operadores não estão escondidos. Frequentam os mesmos clubes, os mesmos restaurantes, os mesmos eventos de gala que a elite econômica e política do Estado. Alguns são figuras conhecidas, com trânsito nos bastidores do poder, capacidade de mobilizar advogados de primeira linha e de acionar, quando necessário, os contatos certos nos lugares certos. O dinheiro do crime, convenientemente branqueado, compra tudo isso e compra, sobretudo, tempo. Tempo suficiente para que investigações prescrevam, testemunhos se fragilizem e memórias institucionais se apaguem.
A Justiça, nesse cenário, revela sua face mais perturbadora: a da seletividade. Não é novidade que o sistema judicial brasileiro processa com velocidades distintas conforme o endereço e o sobrenome do réu. O jovem periférico preso em flagrante com pequena quantidade de droga tem sua situação definida em semanas. O empresário investigado por lavagem de capitais ou por financiamento de milícia atravessa décadas de recursos, habeas corpus e manobras processuais antes que qualquer condenação transite em julgado, quando transita. A impunidade, nesse caso, não é um efeito colateral do sistema. É uma funcionalidade deliberada, construída ao longo de anos por quem tem interesse em mantê-la.
Há ainda uma dimensão que o debate público sobre segurança insiste em contornar: o financiamento eleitoral. Dinheiro de origem ilícita há muito deixou de ser exceção no custeio de campanhas políticas. A proibição das doações empresariais, imposta pelo Supremo Tribunal Federal em 2015, não eliminou o problema, apenas o empurrou para a clandestinidade das chamadas “caixas dois” e para os esquemas de caixa paralelo que as mais recentes investigações têm exposto, com variações regionais, em todo o país.
No Piauí, como em outros estados, essa relação cria um vínculo de dependência mútua que contamina o exercício do poder. O político eleito com dinheiro suspeito não governa com plena liberdade. Ele governa com dívidas e essas dívidas têm cobrança. A nomeação de aliados em postos estratégicos, a obstrução sutil de investigações, a blindagem de contratos e licitações: tudo isso faz parte de uma gramática de reciprocidade que o crime organizado conhece e pratica com maestria. O resultado é um Estado parcialmente capturado, não formalmente corrompido em sua totalidade, mas suficientemente permeado para que as engrenagens da impunidade funcionem com eficiência.
Mesmo diante de agentes públicos bem-intencionados, e eles existem em número razoável, a fragmentação institucional do Estado piauiense impõe limites severos à eficácia do combate ao crime. Polícia Civil e Polícia Militar operam com culturas distintas, rivalidades históricas e sistemas de informação que raramente se comunicam. O Ministério Público avança investigações que o Judiciário não consegue processar no ritmo adequado. O sistema penitenciário permanece à margem das estratégias de inteligência. E as forças federais, quando presentes, raramente estabelecem protocolos sustentados de cooperação com as estaduais.
Essa fragmentação não é acidente. É, em parte, produto de uma arquitetura institucional que ninguém tem interesse político imediato em reformar. Enquanto cada órgão defende seu orçamento, seu protagonismo e sua autonomia, o crime organizado opera com uma coesão que envergonha o Estado. As facções têm hierarquias definidas, canais de comunicação eficientes e estratégias de longo prazo. O Estado, em contrapartida, tem planos de governo que mudam a cada eleição e coordenação que depende da boa vontade de interlocutores que nem sempre a têm.
O próximo governador do Piauí assumirá o cargo diante de uma encruzilhada que não admite contemporização. Poderá optar pelo caminho mais fácil: a retórica dura combinada com a inércia prática, as operações fotogênicas que enchem noticiário sem desmontar estruturas, o discurso de lei e ordem que serve de cortina para a ausência de estratégia real. Essa escolha tem a vantagem do conforto político imediato e o custo de entregar o Estado, progressivamente, ao controle das organizações criminosas.
A alternativa exige mais. Exige inteligência policial de verdade, com foco em fluxos financeiros e redes de lavagem. Exige investigações juridicamente sólidas, capazes de suportar o escrutínio do Judiciário. Exige controle efetivo do sistema prisional, sem concessões a interesses corporativos ou políticos. Exige, acima de tudo, a coragem de alcançar alvos que têm sobrenome conhecido, endereço de bairro nobre e advogados de plantão.
Segurança pública não se resolve com operação policial nas favelas enquanto o crime de colarinho branco circula livremente entre o Jockey Clube e os corredores da Assembleia. Resolve-se quando o Estado decide que a lei vale para todos e age em consequência.
O Piauí tem instrumentos. Tem quadros competentes nas forças de segurança e no Ministério Público. O que falta é direção política clara e a disposição de enfrentar não apenas o crime que aparece nas estatísticas de homicídio, mas aquele que aparece nas listas de convidados dos eventos mais concorridos da capital.
Esse é o verdadeiro teste de um governante. E o tempo para adiá-lo acabou.
Fonte: Portal AZ