UE abre caminho para Canadá se tornar seu primeiro membro associado

Proposta cria novo modelo de parceria e prevê cooperação em defesa, energia e tecnologia.

Por Viviane Setragni,

A União Europeia abriu caminho para uma nova modalidade de relacionamento com países de fora do bloco. Durante o discurso sobre o Estado da União de 2026, realizado nesta quarta-feira (16), em Estrasburgo, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, convidou o Canadá a se tornar o primeiro “membro associado” da União Europeia.

Foto: AP PhotoOK

O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, acompanhou o discurso no Parlamento Europeu. O convite ocorre em um momento de aproximação entre Ottawa e Bruxelas e de fortes tensões comerciais entre o Canadá e os Estados Unidos.

A proposta não significa que o Canadá passará a integrar a União Europeia como um Estado-membro. A adesão plena não está prevista para o país, que não é um Estado europeu. O novo formato anunciado por von der Leyen ainda não possui regras definidas e deverá exigir negociações para estabelecer quais direitos, obrigações e mecanismos de participação seriam concedidos ao país.

“Gostaria de trabalhar com vocês para abrir a porta para que o Canadá seja o primeiro membro associado da União Europeia”, afirmou von der Leyen durante o discurso. A presidente da Comissão Europeia também destacou a proximidade entre os dois lados em temas como democracia, direitos humanos, Estado de direito e cooperação internacional.

A iniciativa ocorre depois de Carney defender, nos últimos dias, a criação de uma “aliança única” entre Canadá e União Europeia. Desde o fim de agosto, Ottawa vinha buscando ampliar os vínculos econômicos e estratégicos com o bloco europeu.

A proposta prevê uma relação mais ampla em setores considerados estratégicos. Von der Leyen mencionou a possibilidade de cooperação em tecnologia, defesa, energia, minerais críticos, baterias, inteligência artificial, computação quântica, segurança cibernética e projetos conjuntos no Ártico. A presidente também propôs transformar a atual relação comercial em uma “Aliança para o Futuro”, voltada à prosperidade e à segurança econômica.

A União Europeia e o Canadá já mantêm uma relação comercial estruturada pelo Acordo Econômico e Comercial Abrangente, conhecido pela sigla CETA. O acordo entrou em aplicação provisória em 2017 e reduziu barreiras tarifárias entre as duas partes.

O novo modelo de associação, porém, ainda levanta questões importantes. Entre elas está a possibilidade de o Canadá participar das instituições europeias e, principalmente, se teria algum tipo de direito de voto. Países que mantêm relações estreitas com a UE, como Noruega e Suíça, participam de diferentes mecanismos de integração, mas não possuem direito de voto na elaboração da legislação do bloco.

Ottawa e Bruxelas também já discutem a ampliação da participação canadense em programas europeus. Entre as iniciativas estão o Erasmus+, voltado a intercâmbios e cooperação educacional, e o Horizonte Europa, programa da União Europeia destinado à pesquisa e inovação. As negociações ainda estão em estágio inicial.

A discussão sobre um possível estatuto de membro associado não é totalmente nova. Em maio, o então chanceler alemão Friedrich Merz havia defendido uma modalidade de associação para a Ucrânia, permitindo uma aproximação gradual com as estruturas europeias sem conceder imediatamente a condição de Estado-membro.

No caso canadense, a proposta apresentada por von der Leyen amplia a discussão para um país que não busca a adesão plena ao bloco, mas uma relação institucional mais próxima. Os detalhes do novo status ainda precisam ser definidos entre os governos e as instituições europeias.

A expectativa é de que a cooperação entre Canadá e União Europeia seja discutida em maior profundidade em uma cúpula prevista para outubro, em Montreal. O encontro deverá abordar comércio, segurança, energia, defesa, tecnologia e matérias-primas estratégicas.

Para a União Europeia, a aproximação com o Canadá faz parte de uma estratégia mais ampla de fortalecimento de parcerias internacionais em um cenário de mudanças nas relações econômicas e de segurança. No discurso desta quarta-feira, von der Leyen afirmou que o bloco pretende ampliar alianças e aprofundar a cooperação com parceiros que compartilham interesses e valores semelhantes.

Fonte: Euronews

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